Ensaio irrisório sobre porcentagens vagabundas.

Ruim seria ser zero por cento. Sim, seria muito ruim. Mas, indo ao âmago do que seria zero por cento e com tudo o que a sociedade construiu, estar na bola da porcentagem é lucro ou brinde da vida. Sabe por quê? Porque tudo que a gente faz foi acúmulo de aprendizado, vivência, escuta, sonho… Isso acontece desde a saída da piscina amniótica.

Até que ponto aquele acorde é meu? Será que sou o único a rimar robótica com caótica? Tudo que se faz é influência, e no fundo é confluência para a construção de cada nó da mortalha. O mais difícil não é perceber onde está o calçado que a Lady Gaga usou ou o corte de cabelo que o Neymar fez na semana passada. Tudo é dúvida. Aonde estou em minhas palavras? Onde fiquei quando dei a minha mais pia e contundente afirmação? Eu era o ouvinte ou os dedos cruzados atrás das costas? O todo à margem.

Mais difícil do que encontrar uma agulha num palheiro é encontrar-se até o último suspiro (não que o último suspiro seja a meta, nem o alvo, muito menos lugar de encontro). Tentar achar a minha porcentagem seria como sair em busca desenfreada pelo grão de areia que se encontra num mar de alfinetes. Mesmo sabendo ser possível uma resposta favorável, o dolo de fazer tamanha empreitada não é maior que o de pagar uma promessa de joelhos por um time que subiu para a 3ª divisão.

O que tem de mim neste texto, por exemplo? Nem as palavras são minhas. Nem a forma ou o sentido. E o sentido? Quem sentiu que a paz se escreve com três letras? E o ar? Por que “vento” para denominar o movimento do puro ar? Vento? IN-ventos… Não sou da geração dos primeiros, dos protos, dos fenícios ou medos. Qual a congruência de “before” com “no more”? Ou café com fé? Finais iguais para a incompreensão e cal para paredes rebocadas.

“Quem for cem por cento nunca foi”. Zero por cento pode ser agressivo demais. Não que eu seja duro, nem pessimista. Um por cento está de bom tamanho. Descobrir o ínfimo de si é a tarefa mais difícil que existe. Quem achar seu um por cento encontrou o mapa da mina. A trilha, o X, o baú e o ouro, estes são de antepassados que também eram frações de cem.

Todo texto, por mais ininteligível que seja, ocupa espaço no vácuo coração. Alguma frase se sobressai. Conjeturar vagabundo o desconhecido é o mesmo que ficar na margem de erro. Nada mais ou tudo menos que ser vil. Viu?

Ser um com os outros não soa apenas como apelo religioso, focolarino ou bíblico. Ver o mínimo no máximo é o máximo, como o topo do vale. Um pico abissal é mais quociente que a insanidade. Resto ou diferença seria o mesmo que pagar a língua com a loucura de Seward. “Eu conosco” faz sentido. É boa influência. A menor possível.

Classificar os animais com números é nossa aptidão. Inventar termos e separar o joio do trigo é milenar. Jogar no lixo o que ainda está por vencer só por falta de educação faz de quem o faz um fazedor. Nada mais. Ninguém se importa. Menos de zero por cento. Invalidez. Tempo queimado. Ato de gaudério. Autoafirmação da condição genérica do homem. Todos são o que eram. Os que agora são, serão porcentagem sem importância. Só a merda fede a cem por cento. Os banhados a sândalo são invisíveis, como aquele trabalhador que apanhou na madrugada ou os quase 160 inocentes que morreram durante a greve da PM na Bahia. Esses não fedem nem cheiram. Apenas recendem um intenso bafio de esquecimento.

Diego Schaun, 22 de Março de 2012

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Projac e Congresso. Os filhos da Loba.

Em 1995, a Rede Globo inaugurava no Rio de Janeiro o Projeto Jacarepaguá para ampliar seus projetos sempre pretensiosos, gigantescos e cheios de holofotes. A partir de então, as novelas, os seriados e demais programas globais são fabricados nesta cidade dos sonhos, mais conhecida como Projac. Só o meio artístico circula por ali. Aliás, os BBBs também estão por lá, ou seja, nem só o meio artístico perambula pelas redondezas. Como todas as novelas globais são realizadas neste imenso local, estar no Projac e não ser ator é como ser brasileiro e não saber votar.

Um local semelhante ao Projac é o Palácio Nereu Ramos. Foi construído bem antes que o “projeto” da Globo e arquitetado pelo secular Niemeyer. Lá, também, só habitam artistas. Desde as últimas eleições presidenciais, a população artística da casa aumentou consideravelmente. Jogadores, padres, pastores, palhaços, atores, lutadores e outros “ores” passaram a ocupar as concorridas cadeiras do set de gravação, digo, Congresso Federal.

Rômulo e Remo, segundo a mitologia romana, mamaram nas tetas de uma loba. Cresceram com pais adotivos e mais tarde, depois de matarem Amúlio, fundaram Roma, sendo Rômulo o seu primeiro rei. Estes irmãos gêmeos foram criados juntos e cresceram unidos. Todavia, em um momento, quando o poder chegou às mãos de ambos, houve briga, sangue e a morte de Remo. Resumindo, um sempre se sobressai ao outro. No Brasil, o Congresso saiu na frente, deixando o Projac pra trás.

Bem, os atores das telenovelas brasileiras roubam, matam, usurpam, traem e morrem só de mentirinha. Já os artistas que trabalham, melhor dizendo, que caminham pelo Palácio Nereu, também dão um show de interpretação. São cenas incríveis, com o texto decorado e bem afiado. Os telespectadores param tudo para assistirem cenas de esperança, promessas de prosperidade e de afeto mútuo. Porém, como sempre acontecem nas tramas, o poder, a gana e o dinheiro tornam-se chamarizes e os vilões atacam, roubam, matam, traem e vivem bem. Pois é, eis uma diferença entre as telenovelas (falidas) e o congresso (em ascensão). No Projac, dá tudo certo no final das contas. Já em Brasília, também dá tudo certo, só que no final nós que pagamos as contas.

Tudo é produzido para dar uma relaxada no stress cotidiano. Se as pessoas não pararem um pouco de frente da TV para assistirem os filmes, as novelas, o futebol e as papagaiadas dos políticos, o mundo vira um caos. Isso é sério! Se acabarem as novelas, o Brasil vai por água abaixo. Se extinguirem a corrupção, o Congresso será um inferno. Se ninguém cobra os políticos com toda essa roubalheira, imaginem se todos, ou quase todos os homens públicos fossem honestos? Brasília iria parecer uma cidade fantasma do velho oeste. Ao invés de carros importados circulando, só fenos cruzariam as avenidas.

Mas tudo tem uma solução. Como diz um velho ditado, “pra tudo se dá um jeito”. Para o povo não ficar aflito e esquecer as calamidades públicas, por obra do acaso, do sobrenatural, do além, toda eleição presidencial no Brasil é precedida pela Copa do Mundo. Claro, quem é que vai se preocupar com alguma coisa menos importante do que marcar na tabelinha da copa todos os jogos e seus resultados? Só os loucos! E no processo eleitoral municipal? O que fazer para ludibriar e matar o tempo? Depende de cada cidade. Em São Paulo, por exemplo, o tempo é assassinado de diversas formas.

De uma coisa se tem plena certeza: Não são apenas três novelas noturnas, são várias, em variados horários da programação! E não vale à pena ver de novo! Outro dia, assisti um belíssimo ato do ator Roberto Jeferson, contando a história de Jesus Cristo e de sua penosa traição pelo discípulo Judas. Segundo Jeferson, que falava com uma voz pia, copiosa e ao mesmo tempo sorridente, Judas é como um político corrupto que trai o povo (Jesus). Ao final da cena, ri muito. Esse é o diferencial da teledramaturgia produzida no Palácio Nereu Ramos. Lá, eles não precisam da sonoplastia, que solta vinhetas de risadas ao final das piadas em programas de humor. Afinal, quem é que sabe quando uma piada começa ou termina nestes programas “humorísticos”? Pois é, nas novelinhas bissextas do congresso não existem vinhetas de risadas. Nós entendemos a piada bem antes do fim e rimos muito, pra não chorar.

Diego Schaun, 15 de Março de 2012

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Atualmente, o comum é raro.

É comum ouvir relatos sobre as coisas inatas. Todo bicho, todo ser vivo e morto apresenta características únicas ou algo que os diferencie dos outros. A índole faz parte de todo esse aparato. Muitos dizem que é por ela que se reconhecem as discrepâncias entre os seres.

A TV anuncia a toda hora os diversos acontecimentos no mundo. A gente se acostuma com o que ouve e acaba tornando crível e aceitável qualquer palavra proferida. Inclusive as ruins. Por isso, desde pequeno, o homem aprende a fazer o bem esperando um merecimento. O prêmio do sorvete no final de semana, a medalha de bom comportamento, a estrelinha na testa e um céu de premiações.

Esse aprendizado faz da criança um adulto responsável, de bom caráter, boa índole e, na maioria das vezes, consciente e pio em seus conceitos, aprendidos desde tenra idade. Afinal, quem é bom se destaca, e quem se sobressai aparece para o mundo ao seu redor. O pescoço já trepida, num nervosismo conhecido porque anseia pela medalha de elogios, ou a honra dos olhos complacentes, fitos no bem feito, no exemplo, no paradigma.

Claro, nem todos são assim. Se o bem só fosse feito pela espera de uma recompensa não existiria o bem verdadeiro. Sim, o bem verdadeiro é de verdade, existe, flui, mesmo que quase nunca seja visto ou notado. Porém, para que a minha afirmação tenha mais contundência referente à busca de reconhecimento, uso da observação do dia a dia.

Certo dia, seu Francisco estava a caminhar, apressado pela rua. Ia atrasado para o trabalho. A condução tinha empacado por causa do trânsito. Por obra do destino, sua carteira cai do bolso de trás. Ele não percebera, e o jovem Pedro, que também se dirigia ao trabalho, viu toda a cena, pois vinha em seguida. O jovem pegou a carteira e apressou os passos, tentando acompanhar o seu Francisco, que já ia adiante, sem notar o ocorrido. Ao tocar o ombro do homem, Pedro disse: “Ei, senhor, sua carteira caiu!” Seu Francisco, com espanto e medo, responde ofegante: “Nossa, que coisa! Nem percebi! Muito obrigado, viu? Tome aqui vinte reais!” O moço, com ar de satisfação, afirma que não quer nada e vai adiante, deixando o homem parado na calçada, ainda surpreso pelo acontecimento já abençoando a índole das pessoas. Pensou tão alto que proferiu baixinho: Ainda tem gente boa neste mundo!

Iniciei o texto falando sobre as características inatas das coisas e do Homem. As religiões, as profecias, estudos e mais estudos e até a própria ciência, laica e ateia, acredita que a bondade existe em grande potencial dentro das pessoas. Logo, a pessoa já nasce com a possibilidade de ser bom. Resumindo, não há mérito em ser bondoso. Ser bom é apenas mais uma característica do homem, como cor dos olhos, da pele, cabelo, voz… Ninguém é elogiado por ter unhas. Pelo menos eu nunca ouvi alguém dizendo: “Nossa, parabéns! Não se veem pessoas com unhas todos os dias!”

A gente elogia o outro por bravura, por honestidade, pela índole esquecendo que tudo isso faz parte de todos e que todo mundo pode ser assim, se quiser. Já nascemos bons. A vida é que traça a criação e educação dos seres. Ajudar alguém, entregar algo perdido ao dono, trabalhar honestamente não é motivo de honrarias. É simplesmente o ser humano em atividade, pelo menos era pra ser. A gente agradece por educação.

Mérito por bondade é o resultado de uma sociedade que desaprendeu sobre si mesma. As pessoas não sabem mais quem são nem o que podem fazer. Alguém que acha dinheiro no lixo e entrega ao dono vira capa de revista. Isso é um sinal de que o Homem só está trabalhando outras potencialidades inatas, ou seja, a maldade, o suborno, a chacota, a inveja e essas também viram notícia. Quantas vezes mencionaram crimes ou assassinatos nos jornais durante essa semana? Pois bem, é nada mais que o ser humano em atividade novamente.

No dia em que as pessoas voarem, respirarem embaixo d’água e reconhecerem o outro como espelho de si, aí sim podem fazer alarde e estamparem nas capas de todos os jornais: Pessoas fazem coisas diferentes! Medalhas já!

Diego Schaun, 08 de Março de 2012

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

As engrenagens fornecem pontos sem vista.

O que faz o homem ser igual a tudo é sua capacidade de mudar. Tudo muda. O homem muda. Entenda-se mudar com mudança e não com melhoramento. Mesmo com tantos estudos sobre o bem e o mal, o melhor e o pior, o certo e o errado, escolher qualquer uma dessas opções tornam desnecessários estes trabalhos. Sabe por quê? Porque o homem muda. Tudo muda. Inclusive as concepções antagônicas.

Sempre gostei de fazer as coisas sozinho. Por isso também mudei só. E mudar só é deleite de semântica. Só mudei só! É lindo ver pessoas que movem montanhas, que influenciam massas e estampam capas de livros. São pessoas que não quebraram o protocolo! Mudaram sós os sóis e mudaram os outros, com beleza, clareza, esperteza, inteligência, mas no fundo, sem melhoramentos.

Algumas palavras, quando aprendidas, ficam no vocabulário por algum tempo. Entram em qualquer assunto, tudo para tentar enriquecer a fala de alguém que muda, e às vezes quer mudar o outro, ou modificar a imagem que o outro vê de si, ou transladar concepções interiores, ou nada. Só tempo jogado na lama.

Quem nunca quebrou um carrinho ou boneco quando pequeno para ver o que tinha dentro? Fiz isso com verdadeiro profissionalismo. As engrenagens fascinam, pela perfeição do encaixe, pelo labor contínuo, pela constância (até que a pilha lhe apresente cansaço), por ser diferente. As rodas dentadas não mudam. São as únicas. E a mudança de outrem incomoda os que mudam solitariamente.

As pessoas precisam consumir porque saco vazio não para em pé, pois não tem pernas. O bípede, apelidado sapiens sapiens, sabe que tudo é vaidade. Salomão acertou quando disse isso em seu Eclesiastes. Os problemas sociais que estão nos acompanhando por gerações são frutos da vaidade. Como? O homem quer ser imutável, para ser fruto de cobiça dos outros. Os outros, que reconhecem (de vez em quando) que ninguém muda, acabam também mudando para parecerem iguais àqueles que acham que são sempre os mesmos.

Todo esse papo idiota é uma tentativa frustrada de dizer que cada um tem um espelho na cara. Ou seja, ninguém se vê. Os espelhos refletem-se, e esse reflexo é nada mais que vultos que voam, que mudam. São sacos vazios, amputados. Por isso não ficam de pé. O homem só deseja o que não quer. Almeja ser o que já é. Como dito acima, ninguém se vê. Os espelhos, apenas eles, olham a si mesmos nas caras espelhadas, toda hora.

Por isso tudo se complica, melhor dizendo, se acomoda. Acomodar-se é essencial, principalmente quando o dia a dia é uma vivência real da caverna de Platão. Roubos no governo, desvios de verbas, violência em massa e demais casos corriqueiros são ocasionados pela ambição. O homem quer ser o outro, e não entende que o outro é igual a si mesmo. O resultado de tudo isso é essa busca pelas engrenagens, motores, robôs, rodas, energia e demais abstrações essencialmente imprescindíveis sem necessidade. Essas coisas não mudam, não tem cara, muito menos espelhos no rosto.

Por fim, o que causa essa constância, esse eterno retorno, ouroboros diário, é a indispensável e ao mesmo tempo desnecessária busca por soluções. São problemas demais. E a existência do problema é a prova de que o homem muda. Tudo muda. Logo, viver é causar problemas e problemas são bons. As engrenagens são apáticas, porque também são constantes, mas sem variações. O homem vê curvas em quadrados e ângulos retos num círculo. Buscar ser o outro é ser igual a si mesmo sem saber. A maldade está em cada um, como o bem também está em todos.

Sem blá blá blá de auto-reflexão ou análises existenciais, resta apenas terminar o texto com um ponto de seguimento. Ele não tem nenhuma discrepância com os outros pontos, principalmente com os de vista. Não compreender é outra forma de compreensão. Apenas tirem os espelhos dos rostos. Dessa forma não se consegue ler. Também não se lê somente com olhos e mãos. Todavia, os ouvidos falam.

6 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Carnaval sem música? Eu vi!

Nem todos os baianos gostam do carnaval baiano. Eu adoro, principalmente quando o sofá está aconchegante por demais. Quem não é da Bahia e não conhece o carnaval soteropolitano, acaba aceitando a visão das TVs que “cobrem” (com retalhos) essa imensa folia doida. Sim, só alegria, só paz, só axé e cerveja. Engoli!Nada contra quem adora extravasar. Já toquei em muitos trios elétricos. Comecei cedo e encerrei o mais rápido possível. Curti o necessário para a vida inteira. Depois de ouvir Bob Dylan, Buddy Holly e outros dinossauros, me exilei do carnaval.

Aqui em São Paulo, sábado passado, enquanto as escolas já desfilavam em seus coloridos, e os clubes de marchinhas repetiam seus “alalaôs”, saí de casa para dar uma volta pelo bairro. Desci a Teodoro Sampaio, em Pinheiros e próximo à Avenida Henrique Schaumann vi uma aglomeração incrível, fechando a rua. No grupo, bem homogêneo, reinavam jovens entre a idade do vestibular e a idade da farra e muitas pessoas com o dobro da maturidade destes outros. Pulavam, corriam, jogavam confetes para cima, lambuzavam alguns carros que passavam, os ônibus que circulavam, e gritavam muito. As meninas usavam arcos com anteninhas, semelhantes à do Chapolin Colorado, e os meninos, a maioria sem camisa, usavam cartolas gigantes, rosas e brilhantes, com perucas enormes.

Tudo isso é legal, normal, aceitável, e até aí nenhum problema. Continuei descendo a rua e percebi que em determinada esquina, havia um grupo dançando, como diria na Bahia, até o chão. Uma verdadeira quebradeira. Ri muito, por ver a quantidade de gente desengonçada, sem saber dançar direito. Também sou péssimo com as danças. Na escola, nenhuma menina queria dançar comigo nas quadrilhas de São João. Pisava no pé de todas, inclusive no meu.

Ao chegar mais perto, percebi que em toda aquela algazarra estava faltando uma coisa: Música! Mas, como? Carnaval sem música? Dança sem música? Era realmente carnaval? Confesso que me perguntei sobre a data daquele sábado. Será que era outro feriado? Outra data festiva? Depois que cheguei a São Paulo, demorei em acostumar com o descaso das pessoas (nem todas). Descaso no sentido simples de dizer. Na Bahia, o povo é caloroso. A gente se mete onde não é chamado, fala amigavelmente com quem não conhece e olha para todos os rostos possíveis, ao caminhar pelas ruas.

Por aqui o negócio é mais embaixo. Cada transeunte vive no seu mundo, ou melhor, no seu headphone. Isso é muito notório. Tanto que a variedade de modelos é enorme. São fones grandes, coloridos, arrojados, cheios de estilo, combinando com a roupa, sapato, idéia, time, idiossincrasias…

Bem, daí só me restou uma solução para aquele fato curioso. Essas pessoas devem estar com pontos (aqueles bem pequenos que ficam nos ouvidos dos apresentadores de TV) onde é transmitida a mesma música para todos. Imagine assistir ao clipe da música They don’t care about us, do Michael Jackson, sem som. Aqueles percussionistas tocando alto, com gingado, descendo o Pelourinho e o Michael fazendo aqueles trejeitos característicos num silêncio vegetativo… Era essa a sensação.

Me senti um extraterrestre. Talvez já seja costume deles. Quem disse que o carnaval está presente somente nos trios e na avenida? Ou melhor, pra quê barulho se cada um pode ouvir no seu headphone o seu próprio som e fazer sua farra pessoal? Ótimo, mas e os outros, dançando ao lado? Não é a festa do povo? Ah, para com isso! É São Paulo, a cidade que não dorme! Tome, pegue seu fone e caia na gandaia!

Fazer o quê? Voltei pra casa, cheio de idéias, sem conclusão nenhuma. Estou me acostumando a ver esse turbilhão de novidades, todo dia. Mas essa eu precisava falar. Nem só de abadás vive o carnaval, mas de headphones, individualismo conjunto e alegria.

Que eles estavam muito alegres, isso não posso negar.

Diego Schaun, 23 de Fevereiro de 2012.

9 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Batismo de palavras albinas.

Depois do bê a bá, nos ensinam que o título só deve ser colocado ou escolhido após o término do texto. Quem nunca ouviu isso antes? Meio estranho. Muito sem sentido ou genial. Isso dá a entender que, depois da obra pronta, contemplada, entendida, ela pode ser batizada. Ainda bem que os textos, às vezes, levam pouco tempo para serem escritos. E se fosse assim com as pessoas?

Minhas pífias redações escolares, inclusive a do vestibular, eram fiascos, assim como os meus textos em si. Não seguia, nem sigo todas as regras e a caligrafia não era das melhores. Possivelmente os professores eram discípulos de Champollion e decifravam aqueles sinais que eu fazia com o lápis. Pior do que isso era o fato de permanecer horas escolhendo o título com a página em branco. Veja só, redigir um texto sobre um tema é até fácil. Mas, além de haver um tema específico, ainda aparecer um título de brinde, a tarefa de preencher a página em branco torna-se um desafio.

Com os seres humanos as coisas acontecem da mesma forma. Nossos nomes são os títulos, que nos são impostos antes mesmo de sabermos falar, reagir, interagir e saltar parágrafos. As pessoas são denominadas quando ainda são páginas em branco. Que risco! Porém, não poderia ser diferente. Quem é que esperaria viver a vida inteira para ter registrado o nome, pela primeira e derradeira vez, na lápide sepulcral?

A literatura barata e outras fontes de ficção pela rede perpetuam nos baldes, mais conhecidos como cabeças vazias, as fabulosas idéias de origens, significados e possibilidades nos milhares de nomes existentes. Os Franciscos geralmente são mais peraltas que os Otavios. Leonardos são hiperativos, enquanto que os Pedros são introspectivos. Se tudo isso fosse real, anexar um nome num bebê era como traçar o caminho do mesmo sem deixá-lo caminhar. Seria um texto escrito numa página em branco, com canetas transparentes.

Cada um é um texto. Um livro. Um codex. A diferença entre nós (pessoas) e as dissertações é o tempo para organizar os fatos e perfurar a folha com um ponto final. O texto, depois de escrito e finalizado, é batizado. Aqui jaz “A saúde municipal”. O autor lerá a obra, o filho, a crítica e ressoará sua história para outros pais. Todavia, a aventura humana acaba quando nós, construtores de nossa história, escrevemos as últimas linhas da folha outrora batizada. Só os outros saberão o final do livro.

Entretanto, mesmo no último suspiro, a certeza de ter tido um título, um signo, um sinal, ou simplesmente um nome é real. Mesmo os analfabetos, sem saberem como escrever o próprio nome, sabem como eles são. Em quantas formas se escreve Maria? Com quantas linhas se faz um João? As digitais às vezes estão nos dedos e nunca mudam. De longe, todo polegar é igual. Mas as impressões não são as mesmas e estão em todos os lugares, bem além do tato.

A redação tem de ser escrita em pouco tempo. A vida também. O texto vai ser lido, avaliado. A vida também. Texto e vida serão observados pelos outros, pelo céu, pelos códigos religiosos, pela lei, enfim, pelas vidas. Cada livro ou pessoa vive de frente para o espelho. Um reflete o outro, julga a imagem que vê e a que não vê. Título não dá certeza de nada, só da existência. Que maravilha! Existe prêmio maior em saber que existe? Claro que não! Descartes estava certo. Diversos textos terminam sem existir. Pessoas também. Muitas têm títulos e subtítulos, mas também não existem.

As palavras albinas estão por aí. Elas apenas informam, pois não têm cor. São preposições, adições simples ou acentos sem necessidade. Entretanto vivem, quase sempre como títulos. Há muitas pessoas batizadas com nomes albinos. Na verdade, todo mundo é batizado com uma palavra albina. A vida é que dá a cor. E no final das contas, aquele que existiu morre colorido. Calma, não foi isso que eu queria dizer, mas disse.

Diego Schaun, 16 de Fevereiro de 2012

12 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Dois patinhos na lagoa.

A arte do desenho é muito diferenciada dos outros tipos de arte. Através dos rabiscos as coisas são reproduzidas. E reprodução, como se sabe, é a essência da humanidade. É bíblico, afinal, está escrito no Antigo Testamento: Crescei-vos e multiplicai-vos! Apesar de todas as características inatas, as pessoas são, logicamente, um desenho de seus progenitores, ou um rabisco do tempo e espaço, do universo ou do cotidiano, que esculpe cicatrizes na esperança de criar algum caráter. Sabe-se lá qual.

As crianças, no início da vida escolar, aprendem a fazer bolinhas com papel crepom, ligar linhas tracejadas para formar um elefante, as vogais ou circunferências. Quando pequeno, também usufruí demasiadamente da conhecida coordenação motora. Tanto que um dia acabei colocando uma dessas bolinhas de papel dentro de uma das narinas. Não me perguntem o motivo. Bem, usaram uma pinça, dessas de delinear as sobrancelhas, para trazer a bolinha do cativeiro pegajoso.

Desculpem-me falar sobre essas reminiscências infantis, mas é que ultimamente tenho pensado muito no processo de crescimento das coisas e dos seres humanos. Logo, acabo revivendo minha própria história. Pequena, cronologicamente, todavia intensa até agora. Lendo um artigo da revista Piauí, de Janeiro de 2012, me martirizei com uma extensa e bela matéria sobre a tão dúbia Comissão da Verdade, do atual governo. Quem teve algum parente torturado e morto na época da outra ditadura sabe bem do que se trata. Que sofrimento essas famílias vivem até hoje. Quantas crianças cresceram sem os pais, sem carro de pau, sem pipa, sem carinho, sem coordenação motora.

Cada perda, por mínima que seja, deixa um espaço. O interessante é que nem sempre o espaço é sinônimo de vazio. Há muitos espaços cheios de nada. Abarrotados de coisa alguma. Existe, também, muito vazio cheio de mágoa. Um vazio visível, denso, impermeável a sorrisos. São nessas lacunas que o cotidiano desenha cicatrizes para que o proprietário delas consiga responder às futuras e indiscretas perguntas que desde cedo já é preparado para ouvir. A resposta é só leitura, só improviso, só corcunda bem “quasimódica”, com medo da pupila vizinha que pode dilatar-se ao escutar lembranças alheias.

Muita coisa eu perdi. Muita coisa se perde. Esquece-se demais, graças a Deus. A salvação da boa convivência são os achados e perdidos do inconsciente. Ninguém vai procurar o que não se lembra de ter perdido. Ninguém esquece que esqueceu, pois já esqueceu. Lembramos somente das marcas que vêm à tona, pois desde pequenos nossa linha tracejada é sublinhada aos poucos pelo lápis do tempo. Esse sim tem exímia coordenação motora. Nunca se ouviu falar em bolinhas de papel nas narinas do tempo. A caligrafia dele não se parece nem um pouco com a apática Arial.

Pelo desenho das pessoas a psicologia afirma que o vazio do outro é visível, menos para ele, em alguns casos. Pela arte de tracejar, o irreconhecível torna-se aparente, sem parentescos, mas reconhecível. Ao ligar os pontos, a confusão torna-se relevante, mesmo que o resultado final seja um elefante. Por isso resquícios da nossa infância nos fazem imaginar que a cada ano, somos mais velhos. Sabe por quê? Porque quanto mais se vive menos se brilha. O brilho está no primeiro olhar. No furor da descoberta. Quando tudo passa a ser apenas verbetes de Aurélios e de Barsas, o olhar dos adultos passa a ter menos cones. Fica tudo cinza.

Mudar de idade, apesar de ser uma tradição, convenção social e cultural, também é uma forma de ficar saudoso com os tempos de outrora. Quando se é criança, cada ano que passa é uma vitória, rumo à liberdade. As marcas do cotidiano só virão à tona mais tarde. Ficar mais velho é importante para ter mais respeito. É a possibilidade de estender os tentáculos em outros lugares. Depois que a gente percebe que não era bem assim, a contagem fica regressiva. Depois dos vinte são vinte e poucos. Depois dos trinta são trinta e uns quebrados e por aí vai. Qual seria a razão? O mundo, que agora é cinza, ou o olhar que não mais percebe as cores que estão bem diante do nariz?

Ainda criança, quando ouvia nos noticiários reportagens que falam algo do tipo “Duas pessoas morrem a cada dois minutos na cidade do México”, ficava contando no relógio o passar de longos 120 segundos. Quando o ponteiro maior cruzava o 12 eu falava: Morreu mais um! Nesses segundos seguintes, à espera de mais dois minutos, imaginava coisas mirabolantes que eu poderia fazer para que na próxima badalada não houvesse outra vítima. Minha mente infantil imaginava pessoas na rua, e de tempos em tempos iam desaparecendo, do nada.

E hoje? Hoje não tenho mais paciência para esperar as mortes. Fico indignado com as fatalidades, mas não consigo nenhuma resposta favorável de contenção. Na infância, não pensava no motivo das pessoas morrerem, e sim no que poderia ser feito para evitar. Bem, falando assim parece até que sou um ancião, que depois de percorrer pela vida, faz agora suas considerações finais sobre o tempo vivido. Antes fosse. Hoje são apenas dois patinhos na lagoa. Ainda quero ser um cardume no Pacífico.

Diego Schaun, sobre o aniversário de 22 anos. (11 de Fevereiro)

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Honra ao mérito, e não à morte!

Quando eu era criança, achava que o Japão ficava logo depois dos Estados Unidos. Como se o Canadá fosse a Terra do Sol nascente. Até os oito ou nove anos, o meu conhecimento geográfico era semelhante ao dos medievais. Nunca havia lido o Almagesto de Ptolomeu, mas igualmente a ele, eu acreditava numa terra plana, central, aonde os países iam se perfilando um atrás do outro, de forma que com apenas uma rodovia era possível chegar até o fim do mundo, ou o Japão.

Depois que as aulas de história e geografia colocaram minhas teses geocêntricas no canto da vergonha, vi que a ilha dos samurais ficava em outro extremo, bem longe dos Estados Unidos e menor do que eu imaginava. Na mesma época comecei a fazer aulas de karatê. Obviamente precisei saber mais sobre a cultura daquele povo de olhos puxados e de escrita indecifrável. Durante o período em que permaneci nas artes marciais, os clichês de que os japoneses eram sábios, corretos, saudáveis, concentrados, inteligentes e focados foram se solidificando na pasta de respostas prontas que levo na cabeça. E que todos nós também levamos.

Depois que o brilho do catar ficou fosco, e sem mais saber contar até dez em japonês, aquela resposta pronta referente aos orientais ainda continuava vivaz. Posteriormente, quando me interessei ainda mais pelos orientais, com suas religiões e técnicas medicinais milenares, a base sólida ficou ainda mais firme: “Eles são os caras”.

Foi bom enquanto durou. Durante essa semana uma TV brasileira exibiu uma reportagem referente ao suicídio em massa que vem acontecendo no Japão. Segundo pesquisas, a cada 17 minutos alguém se mata na ilha nipônica. O motivo seriam as decepções pessoais. Os japoneses não sabem lidar com a derrota. Uma demissão, uma dívida ou algum pormenor que possa envergonhá-lo perante a família e a sociedade já podem levar o camarada a pensar se ainda é vantajoso viver.

Esse desprezo pela vida ou exaltação exacerbada pela honra vêm de muito tempo. Milênios. Desde eras imemoriais, antes mesmo de Confúcio ou Sidarta Gautama inovarem com novos pensamentos no Nepal, China e demais países asiáticos, os samurais, desde pequenos, já aprendiam a lutar até morrer, e se por acaso perdessem uma simples batalha ou rixa pessoal, era melhor se matar do que voltar para casa “desonrado”. E assim são os japas até hoje.

Segundo um pesquisador, essas pessoas são assim porque são tímidas. “Os japoneses não dividem seus sentimentos com ninguém. Guardam tudo e quando não tem mais jeito explodem”, afirmava sorrindo o pesquisador, que por sinal era japonês. Pensando nisso, um determinado senhor, em Tóquio, montou um consultório, onde a finalidade era ouvir os suicidas. Está pensando em se matar? Ligue para a gente! O idealizador da causa garante que todos os que desabafam com ele desistem de morrer. Boa maneira de ganhar dinheiro salvando vidas.

Por isso que o canto da vergonha, onde estavam as minhas concepções pueris de terras planas, agora abriga mais uma idéia morta, a de que os japoneses são “os caras”. De que adianta saber tanto sobre chips e robôs, ou massagens e acupunturas se um simples tropeço cotidiano já é motivo para tirar a própria vida? O suicídio é muito mais vergonhoso do que qualquer ato. O suicida é tão medroso que não consegue lidar com a vida, que jamais será perfeita. Onde está a honra em se matar?

Penso em nós, brasileiros. Não conhecemos técnicas novas na robótica, nossa história só tem 500 anos, na maioria dos lares ainda se usa o Windows 98 (quando se tem computador), a educação não é como na Suíça, mas se um de nós for demitido, é mais fácil sair da empresa e tomar uma gelada no bar do que se matar. Estou mentindo?

Nós sabemos lidar com o fracasso melhor do que ninguém. Não porque somos fracassados nem acomodados, mas pela coragem que nos abunda. Levamos “porrada” do governo, da sociedade, dos donos do mundo, dos ricaços, do sistema, mas mesmo assim pouquíssimos são os que pensam em tirar a vida a cada 17 minutos nesta terra de Santa Cruz.

Quantas famílias vivem miseravelmente no Brasil? Imaginem se cada uma dessas pessoas se matasse porque não conseguem emprego, ou por não fazerem três refeições por dia… Nós é que somos “os caras”. Não dominamos a acupuntura, mas nossos olhos não são fechados. Nem um pouco. Vivemos com os olhos arregalados, pois os corajosos são os que espreitam o dia a dia com frio na barriga à espera do improvável. Nossa vontade de morrer é tão grande quanto a vontade de viver dos nipônicos. Chorar pelos desmantelos da vida é ser humano. Morrer pelos mesmos motivos é ser covarde.

Diego Schaun – 02 de Fevereiro de 2012

14 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Pândegos que latem por vinho.

Num determinado livro de introdução à filosofia, em seus primeiros capítulos, o autor afirma que o diferencial do homem perante os outros animais é o seu trabalho. “Pelo trabalho o homem se autoproduz. Os bichos apenas repetem os mesmos gestos, tornando-se perenemente a primeira essência”.

Até certo ponto, isso chega a ser relevante. Realmente o ser humano modifica, inova e transforma o que lhe for possível ao seu bel prazer. De fato, os prazeres dos homens são totalmente diferenciados. Os outros animais matam por instinto. Nós matamos por deleite. Os animais trabalham por coletividade, e de novo por instinto. Nós trabalhamos por dinheiro. E por dignidade, também.

Se analisarmos bem, agir por instinto também faz parte da essência humana. Tudo o que os outros bichos fazem, também nós o fazemos. Procriação, vigilância, rituais, euforia, sonolência, diversão, sofrimento, agonia, trabalho, enfeites… Ou seja, nós todos somos essa coisa. A mesma coisa. E o livro de filosofia continua assim: “Outra diferença primordial entre os homens e os animais é a linguagem”. O autor afirma que as pessoas criam signos para designarem objetos ou sinais para abreviarem diversos significados. Por exemplo, a palavra casa. Não há nada entre essas quatro letras que lembre uma casa, mas a convenção social acordou que casa é a palavra para designar uma casa, um habitat, abrigo, refúgio, lar.

Cheguei aonde queria. O que seria uma convenção social? Quando será que ocorreu este mega evento entre as nações para decidir que a palavra casa quer dizer casa? Minha burrice não chega ao cúmulo da infantilidade para crer que as coisas aconteçam desta forma. Porém, tudo o que o homem acumulou de cultura ao longo da vida vem servido numa bandeja. A gente pega o cálice, levanta o mindinho e bebe sem titubear. Tudo é assim e acabou.

Daí, o fato de falar nos torna seres diferenciados. Mas falar é um tipo de linguagem que só nós, de nossa espécie, conhecemos. A fala pertence apenas aos humanos. Como latido é dos cães. Como podemos ter a cara de pau de dizer que um cachorro fala menos porque late? Nós é que não dominamos a linguagem dele. Ele também não domina a nossa. Por isso tem a fama de fiel. Um cão nunca falará pelas costas. Nem pela boca.

A prepotência do homem em achar que só sabe que tudo sabe o torna mais diferenciado ainda. E aquele papo de que o trabalho faz com que o ser humano se autoproduza é picaretagem. Como pode um ser que se sobressai pela ignorância transformar (entenda-se melhorar) o mundo? Muitos estudiosos afirmam que essa liberdade de consciência que aparece de vez em quando no homem o faz ser a mais incrível e valiosa obra que a natureza gerou. As pessoas não são mais um com o todo. São todos por nenhum. Cada um vive à procura de uma cura e acaba encontrando os problemas que os outros não acharam. Vivem uma vida de outrem porque o lema mosqueteiro se inverteu.

Ser humano e natureza parecem coisas distintas. Como se Gonzaguinha não tivesse sido filho de Gonzagão e que o nome Xuxa fosse escrito com CH (não releve estes exemplos pífios, mas entenda as entrelinhas). As pessoas estão fora do lugar. São diferenciadas. Não melhoradas. Modificadas. Não mais bonitas. Adaptadas. O homem é o filho pródigo da natureza, do todo, de tudo. Calma, não quero que todo mundo volte pra selva e viva como Tarzan. O que está feito está feito. A gente só acha tudo muito cômodo porque nascemos com comodidade. Até nosso primeiro choro depende de uma tapinha. Quem bate no potrinho assim que ele nasce da égua?

As vulgares ilusões de cada dia estão por aí, nas crônicas que uns bobos escrevem, nos livros que esses mesmos bobos lêem, nos jornais e TVs e no boca a boca. Ao invés de ser livre e se autoproduzir, o homem é prisioneiro, pois vive de convenções sociais. Nada mais abstruso. Usar tal roupa para tal festividade. Falar tais pronomes para tais pessoas. Ignorar tais seres humanos por tais condições sociais ou vestes e por aí vai. Muita convenção, muita regra e muito vinho servido nas bandejas, circulando a todo o momento. A gente bebe, fica bêbado e sai por aí qual pândego falastrão escrevendo tratados, dando palestras e ensinando essas galeras, abarrotadas de gente sedenta por vaidade. Esta vaidade é aquela, de achar que somos diferenciados, os ban ban bans da mãe natureza, a consciência do caos, e os dominantes da comunicação.

Aquela imagem famosa de três macacos tapando a boca, orelhas e os olhos, respectivamente, deveria ser refeita. No lugar dos macacos, seriam pessoas. Cegos somos nós. Surdos também. Mudos não, pois ainda sabemos dizer: Sim senhor, não senhor, sim senhor, não senhor…

Diego Schaun, 26 de Janeiro de 2012

12 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Flaubert e os Advogados da Hipérbole.

Abre aspas.

Todo exagero, por mais estranho que seja, continua a ser estranho e mentiroso ao ser proferido por determinadas bocas. Arcadas escovadas e bem alinhadas, com incisivos grandes e brilhantes geralmente mentem com mais verdade e entusiasmo do que qualquer jogador de pôquer.

Esses casos ocorrem com mais frequência na literatura. Através da fantasia, da ficção os sentimentos, as críticas e a bagagem carregada de maldade e benevolência tornam-se obras de arte, reflexos dos espelhos e “didacus”, conselheiros. Que piada, não é? O resto ser a diferença! Realmente, após a subtração, essa não é a designação que se dá ao resultado? O resultado de uma diminuição.

Através dos livros, que contam milhões de histórias, os homens de pena voam sem sair do chão. Pairam pela fuga. Compõe às escondidas o que guardam no âmago. Só para ter prazer em espiar a cara de idiota que os leitores fazem. Quem mentiria mais? Você? Eu? Lula ou Pedro Bial? A cabeleira do Slash ou a do Morais Moreira? Machado ou Flaubert? Mesmo em épocas diferentes, acredito na mentira dos dois. Fala sério. Quem sou eu para não acreditar numa obra ou texto de alguém? Sou eu. Por isso tenho os dentes tortos e no baralho só sei jogar burro. “Jogar burro”. Rá!

Bem, nada para chegar até o cume. Na verdade, isso é tema para o Paulo César Pereio. De cinema nada sei. Lembro-me de ter visto Titanic e Eduard mãos de tesoura. Falha grave a minha! Ver filmes seria outra forma mais explícita de enxergar as fatigadas tentativas de acertos e erros de meus irmãos, os homens. Mas, folheando uma revista de História (da qual sou fã), li uma matéria sobre um filme que foi lançado. Na verdade, uma releitura na íntegra do conto “Quidquid Volueris”, do Gustave Flaubert. Resumindo, a história refere-se a um antropólogo europeu, que em visita ao Brasil no século XIX resolveu, por experiência, “cruzar” uma escrava com um orangotango. Isso mesmo. Daí, 16 anos depois, o estudioso retorna à Europa levando o resultado da união. Esse híbrido se chama Djalioh e na terra do gringo, acaba matando e estuprando a mulher e o filho do antropólogo e depois se mata.

Esse conto foi escrito por Flaubert quando ele tinha 16 anos. Um adolescente um pouco malicioso, diria. Mas ele era apenas fruto do meio. Jornalistas e estudiosos tentam entender o que o inspirara. Se seriam pinturas numa catedral ou as “viagens de Gulliver”. Engraçado que ninguém mencionou a possibilidade da inspiração ter vindo da própria sociedade. Afinal, no auge do romantismo, as coisas mais belas eram as brancas jovens loiras e raquíticas e os jovens, galanteadores, a citar trovinhas ao coro de barrigas roncando.

Um orangotango, uma escrava… Esses seriam temas (para a época) muito mais familiares à Darvin do que a Flaubert. Mas aonde quero chegar com tudo isso? Em lugar nenhum. Só ao que já sabemos: O nefando desamor e descompromisso do homem. A máxima mais sábia que já foi escrita é: Pimenta no olho dos outros é refresco! E é mesmo.

Mais interessante é que a crítica não menciona nenhuma possibilidade de um pré-conceito nesse trabalho. Não que exista pré-conceito. Estaria caindo em minha própria armadilha se começasse a falar da porcaria do politicamente correto. Essas palavras soam como um interruptor, que para acender a luz faz estalos. Estala para apagar também.

Racismo está em alta. Mesmo os mais esclarecidos e não pré-conceituosos pensam vinte vezes antes de falar qualquer frase. Podem ser presos. Ótimo que se tenham falado mais abertamente do assunto. Como diria um BBB (nunca pensei que usaria uma frase de um BBB num texto), “embaixo da pele de todo mundo o sangue é vermelho”. Olha só, acabei pré-conceituando os BBBs. E se eu for um deles amanhã? Rá!

Bem, era isso. As coisas só são pré-conceituosas quando convém, não é? Ninguém fala do filme. Afinal, uma negra se “amando” com um orangotango é arte. “Ah, foi o gênio do Flaubert que escreveu. Era apenas um jovenzinho. Como criticar o autor de Madame Bovary?” Tudo bem que todos um dia fazem as coisas mais brilhantes e noutro as destroem. Mas era Flaubert! E se fosse o nosso poeta Patativa do Assaré, que num possível repente escrevesse: “Numa dança qual calango, bailava a negra com o orangotango”. Seria racismo? Digo mais, e se fosse Rondineles, grande amigo e exímio pintor baiano que num vulto de inspiração banhasse a tela com uma cópula entre o símio e a negra, onde ao fundo o antropólogo espreitava feito um voyeur? Seria arte ou crime?

Podem fazer a exumação nos corpos desses artistas! Dentes lisos, sorriso aberto. Estes são os advogados da hipérbole. Nenhum exagero seria demasiado exagerado na boca desses mentirosos cabais. Olha lá, não estou desmerecendo os donos da pena. Só o cuspe viscoso que a própria faz no papel. Será que Augusto dos Anjos estava certo? Seria o beijo amigo a véspera do escarro? Nem sempre. Se a arte está no belo, que a beleza reine na moral. Idéias? Cada um é livre para ter e fazer, e escrever, e pintar e… Mas tornar louvável o execrável é vil. Viu?

Fecha aspas.

Só sobrou Maria. As outras já se foram.

8 Comentários

Arquivado em Uncategorized