Hérnia de Íris


              Perdi o foco. E essa foi a primeira sensação que tive quando aos 13 anos levei uma pancada no olho direito. Perdi o foco. O pior, é que como ninguém lá em casa tem conhecimentos de oftalmologia, a vista turva foi tida como uma coisa passageira, um cisco no olho, foi só o susto. Não foi. Dois dias depois, às 7 da manhã de uma terça-feira pacata, estava eu no centro cirúrgico recebendo as primeiras doses de anestesia geral. Tive uma hérnia de Íris. Meu cristalino, devido ao trauma, saiu do lugar, tirando o foco de minha visão. É uma sensação estranha, semelhante à um óculos cheio de vapor ao sair do ar-condicionado. Nós vemos as coisas, sabemos o que são, mas não identificamos claramente o que é (mesmo sabendo o que é).

Estação da Luz, São Paulo

             Não costumo falar sobre isso porque foi um período muito difícil em minha vida. Foram meses usando vários colírios e muitas caixas de guardanapos nos olhos. Passei a ter os óculos escuros como fiéis companheiros, até de noite!

            Quando se perde o foco das coisas não se pode progredir. Marchar rumo ao desconhecido, apostar no incerto é muito complicado. É complicado até para quem tem sede de adrenalina. A gente aprende desde pequeno a ter cautela, não falar com estranhos, tomar cuidado com o que bebe, come, respira… Tomar cuidado. Espera aí! Tomar cuidado… Tomar, usar, ter cuidado, ou seja, usar o que já está protegido, compreende? Tomar cuidado… Usar o protegido, o que está “cuidado”… Fazer o que tem de ser feito sem restrições. Aí é que vem o problema. Tenho percebido, em minha pequena experiência de vida, que a sociedade tende a agir dessa forma. Afirmam que devemos ter cuidado e eles mesmos cuidam em fazer o que não era para ser feito. Meio complicado, eu sei. Mas se pensar devagar, parte por parte, poderá entender a minha suposição. Não concluí nada ainda.

            Por mais que a sociedade pregue uma comunhão popular, um take care após uma despedida, na frente de todos, como numa apresentação teatral (e que teatro) a ética torna-se eucarionte para que no final das contas, os mesmos resultados não se repitam. Aniquilam o devir filosófico. O incentivo primordial é esquecido, pois se percebe umbrático a cada ato, mesmo sem saber. Na verdade eles sabem sim. De tudo.

          Sem foco, sem direção… Aliás, existem direções, caminhos e bifurcações, encruzilhadas e suas oferendas, placas de não avance… Mas sem foco, o caminhar é penoso, o palpite nem ousa palpitar o próprio nome e a dúvida é a melhor opção.

Museu do Ipiranga, São Paulo

Uma vez estava lendo sobre cegueira e achei um artigo que iniciava um tópico bem científico desta forma: “A cegueira é a falta do sentido da visão”. Foi a primeira vez que vi um caldeirão de filosofia borbulhando numa quântica tão íntima, tão apreciada, tão instigante num texto científico. Essa frase é tema para centenas de volumes que poderiam estar nas prateleiras da lendária biblioteca de Alexandria.

        É, quando o cristalino de nossas percepções se desloca a gente fica fora daqui, fora de lá. Peleja ou dorme feito um pássaro que assobia na guerra quando ainda é tempo de paz.

         É, a hérnia da íris é bem maior do que eu imaginava. Bem maior. O problema é gigante e a solução é absurdamente pequena, mas ainda se está sob o efeito da anestesia. Calma, ainda é terça-feira, 7 da manhã, uma hora o efeito vai passar, pois como diria uma canção que nunca foi gravada: “somos o efeito do feito de um efeito colateral”.

Diego Schaun, 03 de Maio de 2011

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13 comentários sobre “Hérnia de Íris

  1. “…quando a aflição aperta, quando o corpo nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos…”

    Muito bom o texto. Um “ensaio” de como perceber a nossa falta de percepção.

    Abraço

  2. Nossa que texto maravilhoso… sinto sua facilidade em colocar no papel tudo que vivenciou e de uma maneira muito poética… se os sentidos da visão não são os melhores, com certeza seus outros sentidos cobrem este pequeno detalhe. E seu coração enxerga melhor que muitos que nunca tiveram uma hérnia de Íris… Engraçado quando li o título, imaginei outras histórias… nada a ver!
    Parabens!

  3. Eu me identifiquei muito com a sua crônica!A maneira que você se expressa
    no texto,o que você relata me faz lembra de um fato que aconteceu em minha Vida!! Gostei Muito’!
    Espero elogiar muitas e muitas vezes o seu trabalho bjus fica com Deus!

  4. “É, quando o cristalino de nossas percepções se desloca a gente fica fora daqui, fora de lá. Peleja ou dorme feito um pássaro que assobia na guerra quando ainda é tempo de paz”.

    Por essas e outras que digo: Não perca o foco nunca, insista, persista e siga sempre em frente. Teu talento inspira, instiga e nos leva a refletir e pensar criticamente sobre o mundo, as coisas e as pessoas. É fantástico! Não mude! Teu talento é único meu poeta! Você é um “multi” de multi coisas! Amém!! Parabéns!! ♥
    O céu é o limite pra ti. Me orgulho!

  5. Tenha foco!!! Este foi um trecho de uma ultima conversa que tive com uma grande amiga, antes de seu suicidio em Fevereiro. Foi o conselho que ela me deu antes de partir.

    Agora, após certo tempo lendo a esta linda diga-se de passagem crônica eu penso, mas afinal o que é esse tal foco?

    Acho que devo ser uma pessoa muito fraca sinceramente. Meus pensamentos mudam, meus atos mudam, minha iris se recusa a ter um ponto sólido, um foco… coisa impossível pra mim isso de ter um foco, alguma coisa que movimente e dê sentido aos nossos parâmetros de vida.

    .. Não tenho um foco, pra ser sincera nem sei o que é isso mas tenho a ciência exata de q os efeitos de não ter um são impostos pela galera da sociedade o tempo inteiro. Deve ser por isso que eu to pirando, deve ser por isso!

    Gde beijo poeta, desculpe ai o “desabafo” mas sua cronica deu uma vontade danada de escrever!

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