Figurinhas periféricas


        Gosto de calçar all star. Gosto de óculos escuros new wave. Preciso deles. Usarei até encontrar algo melhor. Não sei se algo melhor seria melhor. Não que os apetrechos atuais sejam os piores. Se forem, que sejam. Gosto de carregar meu case de violão. Não pelo fato de mostrar que sou músico. Faço por puro prazer em estar na companhia dele, do violão. Meu amigo íntimo, que nem sempre está afinadamente alegre para acordar ares novos, mas sutilmente, num dia frio, em um péssimo lugar sem luminosidade soluça as soluções que eu precisava ouvir. Ou fazer. Ou compor. Ou…

CCBB, São Paulo (Exposição "O mundo mágico de Escher")

Por um bom tempo, passei a fazer dos fatos os meus futuros meios. Depois da hérnia de íris, comecei a estudar oftalmologia. Nada sério, mas até hoje me lembro das principais partes do globo ocular. Esclerótica, córnea, humor vítreo, humor aquoso, retina, íris, cristalino, pupila… Quando era pequeno, muitos dos meus brinquedos eram aviões. De qualquer coisa eu fazia um avião. Se ganhasse um carrinho, dava logo um jeito de por asas nele com durex e fazer um carro-voador, ou sabe-se lá o quê que voa. Passava horas no meu mundo solitário, andando nas ruas segurando um avião sem fazer muitas manobras. Imaginava um vôo que decolava da casa de meus avós e pousava na varanda de minha casa, e vice-versa. Lembro-me até de pesquisar sobre “como pilotar monomotores”. Em tese, eu já sabia quase tudo. Na primeira vez que viajei de avião, já não tinha mais aviõezinhos e nem lembrava que queria ser piloto.

       Nas minhas concordâncias e discrepâncias cheguei ao acordo de que naquilo que realmente me faz feliz a dedicação é quase zero. Nunca fui bom aluno de português. Ainda não aprendi as novas normas gramaticais. Quando eu aprender os principais casos, já terão novas ortografias à venda nas livrarias. Tanta pressa pra chegar aonde? Pois bem, sempre quis ser o diferente. Não o melhor, o diferente. O que todos achavam estranho eu via com bons olhos. Ainda bem que meus pais souberam me policiar para que eu não fizesse tudo o que desse na telha.

        Sim, nunca fui bom aluno de português. Na música sei o básico para tapar alguns buracos de minha insatisfação. Escrever e tocar são as duas asas de meu vôo. Não paro nunca em nenhum galho. Não por medo, por coragem. Prefiro olhar pela visão periférica. Foco demais seria um fracasso. Meta sim. Objetivo também. Caminhos, infinitos. Para mim, tanto faz se o mágico vai tirar um coelho ou uma vaca da cartola. Estou mais preocupado com o formato da cartola do que com o que há dentro dela. Também, tanto faz  se hoje é quarta ou quinta. Sexta-feira chega tão rápido… Já é quase amanhã, tá vendo?

        Será que o que realmente traz felicidade não merece cuidados? Sou feliz com o que faço e tenho a maior ociosidade em perscrutar melhorias, afinal, sou feliz (por enquanto). Deve ser por isso que eu assisto novelas só para ver os figurantes. É muito mais legal as entrelinhas da imagem. Fico imaginando o diálogo deles e o que vão fazer depois. Olha só o casal sentado na mesa ali atrás, sempre de bem com a vida, sorrindo, tomando um suco de laranja. Talvez os figurantes nos ensinem muito mais. Nunca os vi tramando maldades. Geralmente, são eles que apartam as brigas. Daí surge uma questão: Devemos então ser figurantes? Tenho convicção de que noventa por cento diria não. Digo sim.

         Semana passada faleceu um protagonista mundial. Totalmente ligado a isso, outro mocinho, que estava sem audiência nas TVs fez suspense, e como um pigarro gatuno, que se deleita na preguiça em sair da garganta quente, apostou num grand finale. Na vida real, que não se sabe se é real (mas isso é tema para outro texto) não existem protagonistas. Viver na figuração é melhor. Figurantes também tomam atitudes.

Aurora, decolando de Salvador/BA "...nem lembrava que queria ser piloto"

      Provavelmente, aquele vendedor ambulante não é ambulante, mas na cena o faz com excelência. Aquela senhora com o cachorrinho detesta cães, mas passeia tranquilamente com seu poddle felpudo. E aquele rapaz alia empurrando o carrinho? Nunca vendeu pipoca, mas faz o serviço com tanta responsabilidade e esmero que dá gosto.

        Uma figura… Ser figura é essência. Ser figurante é ter consciência de estar vivo. Pode ter o Pelé, Ronaldo, Kaká, Messi e outros. Se faltar aquele lateral esquerdo da Suécia o álbum de figurinhas não estará completo. Se faltar aquele funcionário no serviço, o álbum não estará completo. Se faltar aquele médico zeloso, o álbum não estará completo. Se faltar aquele trabalhador experiente na plantação, o álbum não estará completo. Se faltar você, o álbum também não estará completo e ninguém ganhará o ioiô, o pega-varetas, a dama, a felicidade.

         Quem quiser ser o ator principal, que seja. Aplausos para ele ou ela. No entanto, as que mais sabem sobre as escolhas certas são as moscas. Bebem de tudo, comem de tudo, estão em qualquer lugar e vivem o suficiente, para elas. Moscas são como nós. Decolam dos excrementos e pousam na sopa. Perambular com meus aviõezinhos era muito bom. Sentia-me livre na minha brincadeira quase misantrópica. Eu era dono daqueles céus de três pés de altura. Graças a Deus não havia transponder. Eles nunca caiam, nunca tremiam. Não sabia de caixas-pretas, só de cartolas e seus formatos. Agora entendo que também era um passageiro daquele vôo, que fez deste substantivo um adjetivo, passageiro.  Passou, voou.

Diego Schaun, 11 de Maio de 2011

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2 comentários sobre “Figurinhas periféricas

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