O falso lacônico. Eu.



           Nas manhãs de qualquer casa religiosa católica possivelmente ouvir-se-ão as laudes. São orações matinais de louvor com leituras de salmos bíblicos e cânticos. Acordar com cânticos é sair dos cantos e abrir-se à luz da manhã. Numa dessas manhãs eu acordei de verdade ao ouvir melodias que eu mesmo toquei.

          A letra era apenas um acessório. Só ressaltando que os acessórios são essenciais. Ninguém é sozinho. Aquele acorde falou muito mais alto do que eu previa. Temi. Abaixei a cabeça e levei aquela bofetada. Achava que a melodia era de baixa patente, porém, o recruta zero era eu. Falou muito alto ao meu coração. Me arrependi de algo que não me lembrava. Harmonicamente, estava tudo em seu lugar. Desde o trêmulo do órgão ao balanço das cortinas.

        Muitas vezes eu passei por isso. Escrever leva tempo, leva propósito, leva letras, leva regras, leva uma leva de coisas…  As melodias, a depender, podem fazer uma catástrofe com o interior que clama algo de bom. Porém, uma sequência em Si maior é como um abrir de cortinas numa manhã ensolarada, mesmo que fria.

         O mais legal é não definir. Luto a compreender como é que alguém faz do ato de encontrar um  objetivo ser o próprio objetivo de vida. O que farão os sábios quando encontrarem a verdade?  Depois de bater um recorde, o estímulo de dever conquistado dura apenas o tempo de tirar a  medalha do pescoço. Música é assim. Dura apenas o período em que ela soar no som. Logo,  também não tem definição. Ela provoca sensações, conversões de sentidos, fechamento e abertura.  Mas enquanto soar no coração, a música nunca acaba. Vive um eterno retorno. Rumina feito capim  nos estômagos bovinos e periga tornar-se mentora espiritual. Há quem diga que existem mentores  musicais. Já li algo sobre o assunto.

          Depois de ouvir alguma música no computador, permaneço com os fones no ouvido após o  último acorde. Às vezes a música só começa no silêncio após o término do instrumental. Sentir  a  música é perceber o arpejo eriçando os pêlos do antebraço ao sussurro do silêncio. Ao final da  música, quando os segundos teimam em seguir seu rumo, os decibéis se equiparam aos batimentos cardíacos dos grilos, pois tem o mesmo volume. Quiçá um dia eu possa ouvir o que ainda não se ouve. É lá que está o clímax do oculto.

         Nos dicionários a palavra silêncio também é sinônima de paz. Acaso? Descaso? Um caso interessante. Deve ser porque realmente nada é por acaso. Tudo tem sentido. E sentido também é sinônimo de contristado… São tantas variações em algo que não tem definições (nem tão cedo terá) que o conformismo é a opção mais acertada. Bondade é virtude de bons e maus. Amor é o pingente de jóias legítimas e bijuterias. A paz também é brinco que brinca em qualquer orelha que ouve o que é sereno, brando e bom.

           Laudas e laudas, laudes e laudes, exortações competentes, livros, vozes, pessoas, mentes, corações… Por que ainda escrever sobre o que não se sabe? Me pergunto agora. Por que, Diego, escreves sobre o que não conhece? Respondo-me: Para atrair outros conformistas que se deleitam com o que não se ouve, sonham com o que não se vê e se realizam com o que já existe. Isso me fez lembrar Ferreira Gullar. Como ele, penso em acordar de manhãzinha e caminhar pelas ruas, sentir o vento, comer um pastel, olhar um lindo carro passando pela rua, ligar para minha mãe para saber se está tudo bem, e ao chegar em casa, ouvir as eternas músicas do Alceu Valença. Tudo isso é música. Tudo é som. Adianta explicar? Não. Retarda sentir? Sim. É isso.

Diego Schaun, 19 de Maio de 2011

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28 comentários sobre “O falso lacônico. Eu.

  1. Diego,

    Parabéns pelo dom de escrever o que não se escreve, pela capacidade de traduzir em palavras o começo do gatilho interior que despara no peito ao ouvir-mos uma música ou quando esta termina. Admiro sua capacidade, sua arte com sons e com palavras. Parabéns novamente!

  2. Tudo é som. Mesmo quando nossa mente se aquieta. Quando a rua está deserta. Quando a saudade do poeta vira ausência e solidão.

    Bju Diego
    @lilian_a_mello

  3. Parabens pela cronica! É pela musica q nos expressamos , é de algumas que buscamos inspiração para a nossa vida! É ela que tem o poder de nos levantar ou de ate mesmo nos derrubar! A musica pode nos fazer viajar ha um tempo ja passado, mas que ja vivemos e guardamos em nosso pensamento em maravilhosas lembranças! Parabens Diego! Sucesso sempre!

  4. Poxa cara, muito bom! Na minha opinião, teu texto ressalta também a importância de coisas simples mas que são vistas como insignificantes por algumas pessoas (infelizmente).

    Meu twitter: @trpthiago

  5. São poucas as pessoas q desfrutam desta tao grande capacidade de tocar as pessoas com as palavra, vc sem sombra de duvidas une esta capacidade com uma inteligencia adimirável. Sei q estais cansado de ouvir isso mas tenho q como tantos tb te agradecer por nos presentiar com estas estas crinicas q nos faz dar uma paradinha num dia de trabalho estressante para pensar na vida, e quem sabe tentar melhora-la um pouquinho mais. Vou te indicar no nosso trwitter abçs

  6. Diego:
    Tentar traduzir(-se) (n)o indizível é trabalho para os poetas. E, na minha definição, poeta é aquele que consegue ser mais sensível do que se espera, mais atento do que se supõe e mais verdadeiro do que se precisa. Eis você.

    Sem exageros, adorei o texto.
    @ClarissaRamos7

  7. Uma das mais belas (in)definições sobre a música que já li/senti. Só posso tirar o meu chapéu para um texto tão emocionalmente completo e tão musicalmente construído. Suas palavras saltam aos meus olhos como belas melodias acalentam meu ouvido e coração.

    Parabéns pela enorme sensibilidade!

    Beijos,

    Carol
    @carolvidal_

  8. Estou encantada com “O falso lacônico”, sinceramente, você tem um dom muito especial. Escrever bem é para poucos e você faz isso perfeitamente…
    E falar sobre a música traz um sabor ainda mais especial, provocou em mim as mais puras sensações, me emocionei muito com suas palavras, meus parabéns..
    Aguardo ansiosa pelo seu livro
    de sua mais nova fã, Pollyanna Calixto

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