Os ratos


          Eles se afastam quando as magrelas de salto alto saltitam assustadas. Diga-se que seria uma reverência. São educadíssimos esses ratos da Oscar Freire. Buscam seus alimentos numa calma que envergonharia qualquer brâmane.

         Muito tem-se falado sobre estes roedores. Nada científico. Na maioria das vezes são pesquisas filosóficas e sociológicas a respeito de seus costumes. Nos principais jornais da cidade os pares de dentinhos, aliás, dentões atraem os olhares de quem passa pelas bancas. Mas as pesquisas não têm mostrado nenhuma descoberta estrondosa. Parece que esses animais utilizam uma lei interna de sigilo. Como então se infiltrar no meio deles, já que ninguém está disposto a se sujar no dito efêmero?

       Boa parte dos noticiários ainda ganha audiência falando das passeatas sabáticas e seus cartazes cheios de clorofila. Escritores rebuscam mais garbosidade para preencher textos sobre o atraso do Brasil para a Copa do Mundo. Ainda tem tempo. Pra quê a preocupação se no final das contas o estádio vai ficar cheirando à cal recente?

            Pois bem, no reino dos roedores a educação é primordial. Tanto que na busca pela sobrevivência diária, a lei do mais velho, neste caso, do mais alto é seguida à risca. Os pequeninos ratos que se alimentam na passarela, quer dizer, na Oscar Freire, sobrevivem por um triz. Morrem respeitando.

              O que vão fazer para acabar com isso? O risco iminente de contágio com alguma doença é enorme. Pode até causar alguma morte. Presenciar um fato destes está se tornando inevitável. Quem freqüenta a rua diariamente pode até assistir a uma chacina. E os filhos? Como poderão reerguer-se à perda dos pais?

             Nada pode interferir na vida destes roedores pontificados. No andar da carruagem, as previsões sobre o amanhã são catastróficas. Quero ver o que vão dizer quando alguns destes pequenos forem trucidados por algum bico fino desses passarinhos que vivem calçando os pés de almofadinhas.

          E se assassinarem algum pai de família, que educadamente vive a procurar a migalha de cada dia para os seus filhotes? E se alguém espirrar sobre eles e contaminar toda uma família e até mesmo todo o clã com essa nova bactéria que assola a Europa, e o mundo, a homos arrogancius?

        Lamentável. Angustiante. Mas o lado bom de tudo isso é essa atual percepção da mídia em torno dos roedores. Fazem bem os que esquecem que o Dirceu é quase um curador de arte, que a transparência financeira do governo tem os vidros fumês e que tem um monte de gente querendo fumar maconha por aí. Pra quê ler sobre isso? Pior, por que escrever sobre isso, já que nada vai fazer a diferença?

         A música irá continuar tocando, os atores atuando e todo mundo na platéia rindo ou jogando tomates. Nem isso serve, já que no camarim tem banheiro e roupas limpas para os atores limparem a cara cheia de molho.

        Aprender com os ratos é a melhor opção. Direção ao progresso, à educação, à preservação dos espaços, ao exercício da paciência. Coitados são os donos das pernas magrelas que pulam assustadas ao depararem-se com a reverência de quem apenas faz o que todos os seres vivos deveriam fazer: Lutar para viver. Esperar para crer. Trabalhar para comer!

Diego Schaun, 18 de Junho de 2011

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7 comentários sobre “Os ratos

  1. Dom é isso: fazer prosa e poesia com o improvável mais comum do nosso dia-a-dia. Parabéns!
    Concordo que há muito tempo o bicho-homem perdeu o senso da simplicidade que é viver, ser feliz…
    Isso rende outro texto! rs

  2. Como não ser tocado pelas palavras de uma dura realidade. Fica fácil viver e obter “crescimento” quando se pisa sobre os verdadeiros construtores da Nação. Homens honestos suando, com mãos calejadas, enquanto colarinhos brancos, engomadinhos, ficam sobre o ar-condicionado. A única condição dos ratos é catar as migalhas que caem da toalha da mesa que enfeita o banquete dos Homus Arrogancius. P A R A B É N S!!!

  3. “Aprender com os ratos é a melhor opção. Direção ao progresso, à educação, à preservação dos espaços, ao exercício da paciência…”
    Talvez seja isso mesmo, uma vez que o bicho homem cada vez menos sensível ao essencial, se faz cego a diante do visível e talvez também o mais importante! Parabéns ♥

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