Lipitude dos gregos


Todo mundo já passou por isso um dia. Aquele visgo chato que teima ofuscar a visão não é legal. Cola que almeja para si a função ridícula de dificultar a dificuldade. Na antiguidade era até referência de virilidade, de apetite sexual. Sério! A pessoa que apresentava grande quantidade de lipitude, amiúde era cobiçada pelas mentes libidinosas que nunca choravam.

Antiguidade é um termo vasto. E pela excentricidade e curiosidade obtidas pela busca do diferente, aposto que noventa por cento dos leitores já supõe qual seria essa civilização “antiga” que persistia neste pensamento. Pois é, são eles mesmos, os gregos. Povo este, que atualmente olha para o Parthenon e não enxerga a força de Palas Atena. Relembra do Monte Olimpo e esquece de Zeus.

Na verdade, eles estão perdendo a própria história. Uma civilização que é a mãe de vários alfabetos, instrutora dos costumes, terra do saber, rainha dos mares, precursora da filosofia e vencedora de guerras, não poderia se rebaixar num momento tão complicado como essa crise financeira que vive atualmente.

Será que eles mudaram o sentido da lipitude? Afinal, todas as pessoas normais sofrem desse mal, ou desse bem. Sofrem. Vivem. Convivem. Atualmente, essa gosma matinal está longe de apresentar alguma libido. Mas tudo muda de sentido e fica por isso mesmo.

As palavras riem de nós. Só pode ser. Quem escreve também ri de si mesmo, pois sabe que só sabe o mínimo que se pode saber.

A repugnância é muito perceptível no rosto das pessoas ao avistarem que o rosto oposto está maquiado de lipitude. Daí, o primeiro pensamento que se tem é: Que pessoa imunda! Mas o que seria imundo senão o contrário do mundo? Na língua portuguesa, geralmente usa-se o in ou i para criar o antagonismo das palavras. Por exemplo: Possível, impossível. Confundível, inconfundível. Formal, informal. Moral, imoral. Mundo, imundo. Como assim? Se imundo é sinônimo de sujeira, mundo seria da limpeza?

Se eu me detiver nesse pensamento estaria numa pobreza mental tamanha. Quem não sabe que por aqui (e por aí), quando existe facilidade, a burocracia ouve vozes e sente um delírio místico? Pois é, ela coloca aquela colcha de retalhos (que fizeram em 1988) embaixo do braço e abre em qualquer artigo de luxo. Em seguida, com grande dialética, prega as profecias que uma minoria acha que conhece.

E depois de tudo isso, ainda venho tentar entender o sentido grego de suas lipitudes e seus esquecimentos. Por enquanto, boa parte dos descendentes de Péricles ainda teima em jogar pedras e escrever cartazes, como qualquer povo revoltado faz. Com quem eles aprenderam a fazer isso? Com os Etruscos? Celtas? Os Vândalos vieram bem depois!

Alguns estudiosos afirmam que dentro em breve surgirá uma nova fase no planeta. Seria um Re-renascimento. Nada mais justo. A mesma liberdade religiosa que Voltaire pregava no século XVIII, as artes de Da Vince, e a Utopia de Thomas More estão aí pra todo mundo ver. Só ir até a Avenida Paulista e assistir às manifestações sabáticas que andam acontecendo.

O FMI está esperando o quê para entregar em Atenas a sua versão do Cavalo de Tróia? Ou seria a Mala da UE? Melhor esperarmos sentados e continuar a ensinar as crianças nas aulas de história que a Grécia é o berço da civilização. Civilização até 2010, viu? Em 2011, o berço de ouro do mundo é a China. Em 2012, nossos bebês serão ninados pelo país mais rico e amamentados pelo leite-colostro da pré-crise de 2013.

O feitiço virou contra o feiticeiro. A remota lei grega do ostracismo está acontecendo com a Grécia. E agora, quem poderá ajudar os filhos da Lacedemônia?

Já sei! Só medir a lipitude de cada um. Afinal, quem não chora não mama. Quem não mama só chora. Lacrimejam os que almejam. Imundície é patrimônio de todos nós.

Sujos são os outros! Nós somos helenos e helenas antes mesmo do Maneco escrever novelas. Já dizia um ephebo: A lipitude no teu olho é a prova de que hoje escolho a preguiça travestida de sono, o desejo mascarado de apatia e a certeza de viver num planeta sem antagonia. O mundo imundo é. Tenho remelas e quem não tem?

Diego Schaun, 29 de Junho de 2011

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4 comentários sobre “Lipitude dos gregos

  1. Dieguinho!!! Sem palavras para comentar seu texto incrível… Muito boa a relação que fazes… Em breve a revista Veja te chama pra ter uma coluna por lá… E como isso seria bom, visto que as colunas que lá existem estã cheias de hérnias e bicos de papagaios… Se vc tiver uma coluna por lá e for obrigado a ter uma hénia, ao menos saberemos que é um hérnia de disco e assim ouviremos a sua musicaldade nos seus textos vertebrados!!!

    Oush!!! Será que eu Tô doido? Kkkkkk

  2. Parabéns pela Lipitude que você tira dos nossos olhos quase sempre foscos, embaçados e cegos de ver o óbvio a nossa frente. Você é único e incrível no seu modo de pensar e expressar suas idéias. Ideias que nos mobilizam e nos fazem pensar. Meu orgulho! Beijosss ♥♥

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