Vira-folha



Quando tinha sete anos, segui as palavras do agora deputado Tiririca e mudei de time. “Aos sete anos eu já sabia o que era bom.” Comecei minha perene jornada vascaína. Mas esse não é um detalhe marcante. Por um bom tempo o que chamou a minha atenção era o mais novo apelido: vira-folha! Eu era um legítimo. Já sabia o que era bom e não enxergava maldade no ato de deixar a camisa rubro-negra pela cruz de malta, trocar o PT pelo DEM ou o dia pela noite.

Na crista da nova onda vêm surfando as empreiteiras. Etanol é a diamba torrada que inebria os engravatados. Dizem que o Brasil é o rei dessa fonte energética. Ninguém fala do pré-sal, já que quando ele acabar, já era! Nem sal grosso vai resolver. Mas também nada disso tem importância. Quem já sabia o que era bom? O que era bom? Virar a folha!

Depois da mudança de camisa, presentearam-me com um adjetivo muito conhecido: Covarde! Covardia consiste no ato de “ter falta de coragem, pusilanimidade.” Não entendi. Como pude não ter coragem num ato desses? Virei a folha num segundo, numa luta de consciência medonha. Que peleja! Meu pai, flamenguista doente, disse alguns porquês, mas no fundo aceitou. Ou não. É meu pai, caro leitor. Para os rubro-negros, migrar para o Vasco é como passar a usar drogas, das bem pesadas. Quase um oxi. Até hoje, uma das justificativas mais tenazes de meu pai é o fato de meu avô ser vascaíno e eu, como neto mais velho, quis fazer-lhe um agrado. Era vontade própria mesmo, afinal, eu já sabia o que era bom.

Virar a folha é um ato de bravura. Quem viraria aí? Se permanecer na mesma folha, nenhum livro é acabado, entendido, vendido ou iludido. Daí, o leitor entenderá que aprovo o exercício freqüente de passar o dedo na língua e virar a página pela força do visgo. Bom, fácil vai ser a conclusão de boa parte de vocês. “Então, Diego, você acaba de afirmar que amanhã você poderá torcer pelo Náutico?” Com todo respeito, mas Náutico não. Brincadeiras à parte, mas isso pode ser verdade.

O ser humano vive pouco tempo. Se no escasso período em que caminha pela terra ele seguir à risca um manual que está na primeira página, não saberá sobre nada. Nem que viveu. Pode ser uma hipótese, e é até um direito de cada um. Aliás, disse Epicuro: “Como alguém vai saber que viveu? Se viveu é porque agora está morto e os mortos não sabem que estão mortos. Nem que viveram!” Bom, esse panteão indagativo fica para outro café filosófico. Sem adoçantes.

O risco da mudança iminente é um nada. Só o risco, que pode ser num quadro negro, numa folha lisa, uma cicatriz ou uma bala perdida riscando o vácuo. Risco. De fato, quem estaria contra a covardia e a favor dos antagonismos? Muitos! Sei disso. Bom saber.

Para se entender de forma consistente, as releituras se fazem melhores amigas do questionador. Questionador não seria a palavra adequada. “Ser humano” cai bem por aqui. A vontade, o dolo de querer o que não se pode, saber o que não se sabe e sentir o que não se sente é um desejo inato de cada pessoa. Pelas circunstâncias da vida, esse desejo se esvai e dá lugar a outros. Uns se preocupam com a inércia de Dilma no primeiro semestre. Outros com a venda da Amazônia para o capital estrangeiro. Muitos ainda perdem tempo com as notícias sobre quem vai construir tal estádio da copa, ou qual empreiteira vai compartilhar do suado imposto que os trabalhadores pagam. Alguma novidade? Nenhuma.

Talvez, a sagacidade de querer lambuzar o dedo para virar as folhas pode levar à ruína, ou até a morte. Algo parecido com a história do famoso filme “O nome da rosa”. Os monges de um mosteiro medieval morrem por lerem livros proibidos. Ao passar os dedos sujos de tinta na língua, os mesmos morriam envenenados. A tinta estava envenenada, propositalmente.

Hoje acontece a mesma coisa. A diferença é que o veneno mudou de lugar. Está nas palavras. Não mata ninguém, porém, faz algo pior com os leitores. Os deixam na inércia, vegetando, dizendo “sim, mestre” à cada ordem do mestre. Não me perguntem quem é o mestre, pois não sei nem quero saber sobre esse cérebro, que em nada se parece ao cão mitológico que habitava o hades.

Daí, a conclusão que se pode fazer a esse respeito é que não se pode virar a folha. É perigoso. Mas ficar na mesma página é a anulação da vontade de viver. E viver é a melhor sensação que existe, pois ainda não se sabe a sensação oposta, a morte.

Melhor mudar de páginas, voltar às anteriores para entender as entrelinhas, e continuar levando o dedo na língua para puxar o imprevisível. Este sim, é um ato da brava gente brasileira. Longe vá temor servil de servir a si mesmo e deixar a vida ser dominada pelos dominadores. Sentir a ânsia do perigo que está por vir é o mesmo que estar pronto para a substituição iminente de um jogador machucado, do susto de um telefonema inesperado, do abrir os olhos numa manhã de domingo e a leitura da primeira linha da página seguinte. Essa não seria uma covardia. Apenas seria a bravura de quem vive, só por estar vivo.

Diego Schaun, 16 de Julho de 2011

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7 comentários sobre “Vira-folha

  1. “Melhor mudar de páginas, voltar às anteriores para entender as entrelinhas, e continuar levando o dedo na língua para puxar o imprevisível. Este sim, é um ato da brava gente brasileira. Longe vá temor servil de servir a si mesmo e deixar a vida ser dominada pelos dominadores”. Só você mesmo pra escrever um texto brilhante como esse. Texto único. Um dos melhores! Meu orgulho! Adorei. Parabéns ♥♥

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