Sigilo eterno. Até que ponto?


Um grande debate que ainda permeia as páginas de vários jornais, sites e blogs, é sobre o sigilo de documentos oficiais. A mídia “cult”, os aficionados por matérias bombásticas, os vendedores de manchetes e os ansiosos por um lugar ao Sol na mente de cada brasileiro, passaram horas escrevendo os mais variados argumentos sobre a necessidade de suprimir esse sigilo, e a importância do povo “re-conhecer” o que de fato aconteceu em determinados eventos da história brasileira.

Os deputados e senadores ainda irão avaliar “com calma” esse assunto, afirmou o líder do governo no Senado Federal, Romero Jucá (PMDB-RR). E que calma! Mas ele e os outros colegas de trabalho podem ter muita paciência. Afinal, quem cobra e pressiona os resultados é a imprensa. Imaginem se descobrirem alguns podres do ex-presidente, o senador José Sarney (PMDB-AP)? Segundo ele, a liberação de documentos oficiais neste momento “poderiam abrir feridas em relações diplomáticas no Brasil com países vizinhos”.

Vizinhos ou cônjuges? Talvez a liberação destes “arquivos secretos” possa arrancar as cascas de alguns arranhões em nossas pernas, que de tanto perambularem sem rumo já estão bambas qual transeunte alcoolizado.

Mas quem se importa? Somente a imprensa, que luta para vender idéias nas prateleiras dos jornais. O povo apenas sabe sobre esse sigilo porque se fala nele o tempo inteiro. Não adianta dizer que o papel dos informantes é tornar a população mais ciente dos fatos. Não. Afinal, são essas mesmas pessoas, informantes e desinformados, que empregam os protagonistas para que estes encenem os tais scripts sigilosos.

Qual pessoa, que aficionada por novelas quer saber as falas do último capítulo? Pode almejar o conhecimento do desfecho, mas os diálogos devem ser inéditos, até o dia da estréia. E quando será a estréia ou desfecho? Pode ser daqui a 50 anos. Vai depender da calma e da análise precisa dos homens públicos designados a essa tarefa.

Bom, quando a fruta podre cair do pé, se vivo eu estiver, irei ver meus netos comentarem sobre a recente ditadura brasileira, como hoje os historiadores entendem as controvérsias da remota Guerra do Paraguai. Quem se interessa por isso? Uma minoria, que de tanto gritar ficou sem voz nem vez. Eram resquícios de um povo heróico, bravo e retumbante!

Na luta diária pela busca do pão de cada dia, verdadeiros artistas e propulsores da economia frustram-se mais com os infortúnios da vida do que com a fobia dos diplomatas. Os quatro pênaltis perdidos pelo Brasil na Copa América afligem mais o coração das pessoas do que o medo exacerbado que Sarney e Collor têm sobre as revelações destes documentos oficiais.O que será em escondem esses papéis? A heróica atuação dos pracinhas brasileiros, ao carregarem defuntos na 2ª Guerra Mundial? Ou as perseguições e torturas feitos pelo SNI durante o governo militar?

Será que o Brasil tem algum plano de invadir o Irã? A secretaria de assuntos estratégicos planeja medir espadas com Armadinejad para saber quem tem mais força nuclear?

Bem, com as nossas forças armadas sucateadas, não dá para transportar nem um fuzil até a fronteira do Brasil com a Bolívia. Nessa crise dos transportes, o melhor é puxar os canhões de guerra com tração animal. Sim, os bípedes estudados pela sociologia empurrarão as catapultas para o ferro-velho do quartel.

Nos anos 80, a banda RPM, um grande fenômeno do rock nacional, cantava assim: “Agora a China bebe coca-cola, ali na esquina cheiram cola. Rio degradante, aromatizante tem”. E tem mesmo! Enquanto o tempo passa, essa pequena massa solada acorda a cada dia tramando formas mais inusitadas de criar capas de revistas em formato de anzóis. O povo, nessa vida de peixe-boi, ainda morre pela boca, pois não a abre para falar. Quando o faz é para comer e assim morre.

Na verdade, as pessoas não morrem. Apenas sofrem uma perene catalepsia, dando assim mais incentivo à virtude de grande parte da população: a inércia.

Diego Schaun é músico, historiador e poeta.

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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