Alguém perdeu uma culpa aí?


Quando se fala em algum erro cometido, se pensa em culpa. Nas religiões, principalmente as monoteístas, a culpa é algo reparável. Quem comete pecado, recebe suas conseqüências, mas ao se arrepender, é perdoado!

Mas a questão que chama atenção não é a religião nem o significado da palavra. Quando se faz a pergunta “De quem é a culpa?” tem-se a impressão de que a mesma se encontra perdida. Quando se perde um objeto, e alguém de bom coração o encontra, faz-se logo a pergunta: De quem é? Quem perdeu? Ninguém responde. Logo, não se sabe o dono do objeto.

Quando se pergunta “De quem é a culpa” e ninguém responde, a culpa não tem dono, logo a culpa é livre. Não é de ninguém. E afinal, quem quer ter alguma culpa? As pessoas fazem de tudo para não cometerem a menor das infrações. Parece até piada, não é? O que deve ter de gente nesse exato momento cometendo algum crime ou fazendo coisas erradas é muito grande.

Daí fica uma incógnita. Ao se afirmar que a culpa é livre, a tendência é entender que tudo é permitido. E não é? Nesse momento em que se afirma tal coisa, o nosso âmago toma para si idéias moralistas, como por exemplo, “isso não pode acontecer”, ou “que idéia errônea, existem leis e nem tudo é permitido”. Uma das características mais marcantes dos seres humanos é o fato de ser volúvel a todo o momento. Lembra da ética quando convém lembrar. Esquece da mesma quando convém esquecer. Tem culpa? Claro que não, afinal enquanto não existir prova plena, ninguém é culpado de nada!

Ultimamente têm acontecido alguns suicídios de indígenas brasileiros. Ao terem contato conosco, “homens éticos e sem culpa”, alguns índios aprenderam alguns costumes interessantes como beber cachaça. Que mal poderia ter um gole da branquinha? Pois é, por convicções religiosas desses índios, após ingerir essas bebidas, muitos se suicidaram.

É difícil ver alguém que bebe frequentemente cometer suicídio logo após a bebedeira. Ainda mais índios bêbados se matando. Mas os casos têm crescido muito. Mas por culpa de quem? Esse papo de que o contato com o homem “civilizado” é tese para muitos estudiosos e fonte de divergência para muita gente sedenta de bate-boca.

Os primeiros moradores do Brasil se matam por sentirem culpa, talvez por ingerir um líquido inadequado para suas convicções éticas e religiosas. Isso mesmo. Eles são os donos da culpa, pois ao se sentirem culpados, se fazem proprietários da mesma. Moradas da causa.Todavia a culpa se adquire. Se pode ser adquirida, existe um entregador, ou vendedor de culpas. Ou seja, antes de se matarem, os índios receberam a culpa. De quem? Dos homens civilizados, de sua religião ou da consciência acusadora?

Creio que a consciência é a maior empreendedora do ramo de culpas. Ganha lucros altos vendendo pesos para muitas pessoas levarem nas costas. O sucesso de vendas deve-se ao fato de que todos os seres humanos compram, só que poucos usufruem. Afinal, cada um tem culpa de alguma coisa, mas nunca sabe que tem. Se sabe, finge que não tem. E a minoria, que reconhece o produto adquirido por livre e espontânea pressão, acaba se matando por não saber como devolver a compra, já que a mesma foi por justa causa.

E de quem é a culpa? Quem tem culpa no cartório? E porque no cartório, já que no lugar onde se julgam ninguém tem culpa até haver uma prova plena? Reconhecer-se culpado sem precisar de comprovações de outrem é perder a vida, em muitos casos, ou perder a liberdade, que a própria culpa tem em si mesma, pois de quem é a culpa? A culpa não é de ninguém.

E “ninguém” não é o artifício utilizado por Ulisses para se esquivar do monstro Ciclope, numa de suas aventuras no clássico de Homero, a Odisséia. Esse ninguém é aquele que não é igual a ninguém.

Diego Schaun é músico, historiador e poeta.

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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