Sonho “im-possível” do bem pelo bem!


Existem períodos na vida em que estar fora de casa é o melhor remédio e impulsão para dar uma guinada em voos altos. Não seria uma fuga. Nunca. Fugir das indagações e das problemáticas diárias é perder-se na apatia. Seres apáticos já abundam demais nesse mundo hostil. Pessoas alheias a si mesmas são verdadeiras personificações das estátuas que perambulam pelo mundo.

Já passei muitos períodos longe da casa. E estar longe não é a mesma coisa que ser um espectador distante. É viver distante, trazendo todo dia os mesmos infortúnios e alegrias que bem perto de casa permaneceriam na eterna condição de apetrechos.

Voltar para casa é ver que seu irmão mais novo cresceu um centímetro e aos nossos olhos parece meio metro. É enxergar os parcos cabelos brancos na cabeça do pai e ver um ninho de algodão e sentir o abraço da mãe com o mesmo cheiro de sempre, cheiro de mãe.

E quem não tem casa, para onde volta? Não volta. Nem vai. Mas, e quem nunca saiu de casa? Ou quem não tem piscina em casa ou salas e salas disso e daquilo? Só não tem isso ou aquilo, mas tem um lar. As pessoas que vivem na rua também fazem do mundo o seu lar. Teto de estrelas e luz do sol. Cama de chão e de corredores, salas de asfalto e varandas de marquises onde o objetivo é permanecer por horas e horas e horas…

De repente, esses que não voltam porque nunca foram recebem uma visita desesperada de uma figurinha carimbada (figurinha periférica) em seu lar, dizendo que irão fazer do barraco uma mansão, da terra batida um piso de mármore e do gato para puxar energia, controles remotos para controlar até a descarga da privada.

Que alegria para eles! Que alegria para os outros, atrás das telinhas ao assistirem as lágrimas de outrem cortando as faces ao embalo de Maria Betânia cantando “Sonhar mais um sonho impossível…”.

Qual o verdadeiro sentido de fazer o bem num programa onde o grande programa é ganhar pontos e passar a número um, que apenas faz programas sabáticos anuais comandados pelo eterno trapalhão?

Pois é. O bem pelo bem é sempre justo. Nobre. Ético! Mas o bem pelos pontos de audiência é também sempre justo, nobre e ético no mundo deles, dos vendedores de consciência. E a consciência acusadora protesta quando não consegue ludibriar e arrancar olhos d’água dos espectadores do Brasil inteiro.

A cada domingo uma família necessitada passa a ser rica. Claro, para quem nunca teve nada, qualquer coisa já é muita coisa. Ótimo! Que se faça o bem sempre.

Todavia existe outra ótica. Se o ético é uma troca, ou uma mão lavando a outra, não existe problema algum nos domingos televisionados. Afinal, as pessoas ganham bens e o seus lamentos, misérias e necessidades fazem com que os dedos aumentem o volume e os olhos lacrimejem pela natural “com paxio” (sofrer junto) de cada ser humano. E tudo isso faz a TV ter bens, os mesmos que a família necessitada recebeu.

Que mal há nisso? Bem pelo bem! Ou não? Depende da visão de cada um. Voltar para casa e ver tudo diferente é um sinal de que o tempo passou, e passou só para nós. De onde saímos o tempo renega o Cazuza e diz que ele para sim. É pacato. E domingo é sempre o mesmo domingo, onde à tarde, para os que têm casa, o refúgio é o brasileirão e logo depois do jogo das lágrimas diáfanas que aparecem pela compaixão mencionada acima. É o bem pelo bem novamente!

A intenção é boa. O retorno é bom. O significado desse bem já é algo muito oculto. Um dia pode ser descoberto, se for a ocasião. Se não for, tudo continuará na inocência de uma criança esperança, que nunca voltou porque nunca foi. Vive na incerteza e canta como a Betânia:

E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

Diego Schaun é músico, historiador e poeta.

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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