Mundo: Instinto e encenação!


Cada um tem uma função no universo. Mesmo sem saber, cada um faz algo para destruir e construir ao mesmo tempo. As seitas e doutrinas pregam isso também. Os encontros de juventude, as palestras e seminários adoram enfatizar a chamada: “Qual é o seu papel no mundo?”.

O cantor canta. O pintor pinta. O professor ensina. O jornalista informa. O leitor… Lê! Toda profissão ou atividade tem seu verbo. E, como se aprende na escola, verbo é a ação, é a palavra que expressa ação, estado ou fenômeno da natureza.

A última parte da última frase acima chama a atenção: “Fenômeno da natureza”. Quem chove? A chuva. Quem esfria? O frio. Nenhuma pessoa é o protagonista dos fenômenos da natureza. Pode apenas ser um figurante. Por exemplo: As tempestades e alagamentos de São Paulo. Elas são fortes e atrapalham a cidade porque as pessoas atrapalharam o ecossistema que já existia. Toda ação tem uma reação.

Voltando à pergunta principal, um ponto chave entra na fechadura que teima em destrancar as velhas portas. Se todos têm um papel no mundo e a terra é um palco redondo, para quem encenamos? Os poetas responderiam “para as estrelas”. Os ateus diriam “para o cosmo”. E os seres viventes e não pensantes? O que responderiam? Calma, ainda não estou falando dos seres humanos.

Os urubus são os “lixeiros” das cidades. Graças a eles a maioria das pessoas vive bem longe de seus excrementos, já que estes, ao serem atirados em qualquer lugar logo desaparecem, pois se tornam verdadeiros banquetes para aves de rapina.

E os camarões? Coitados, vão aos montes para as mesas dos ricaços como especiarias caríssimas. Bem se sabe que tudo o que for dejeto no mar é bastante suculento ao paladar dos decápodes.

Será que eles se perguntam: “Qual o nosso papel no mundo”? Não, possivelmente. Fazem o que tem que fazer por instinto. Nascem predispostos a comerem lixo e morrerem na tarrafa. E os Urubus? Estes nascem com penugem branca, comem o que sobrou de nós e até nós mesmos, se for a ocasião. Vivem à mercê da miséria, morrendo eletrocutados nos fios baixos que cruzam as ruas.

Muito bem. Cada um segue seu papel “inatamente”. Mas existe uma diferença. O roteiro dos que pensam um pouco mais e sabem digitar também pode ser mudado. E pode ser mudado por escolha deles. Por isso que nem sempre o cantor canta, nem o pintor pinta. Às vezes o cantor canta e pinta ao mesmo tempo, e mais tarde dirige e vende e dorme e trabalha e sonha e morre.Pensar assim deixa uma afirmação um tanto quanto ridícula. Dá a entender que “Só os animais fazem o que tem de fazer por instinto e nós, seres pensantes, nascemos pré-dispostos a alguma coisa, mas ao longo do tempo podemos mudar o rumo”.

Realmente o feio e incompreensível também pode ser arte. É só ser colado em alguma parede do MASP, por exemplo. A vontade, o dolo de fazer qualquer coisa sempre será uma incógnita. O que foi feito foi por instinto ou por mudança de planos?

A vida humana foi, é, e pode ser toda pautada assim, já que são as pessoas que criam a cena. Quem vai saber se a lágrima é real ou colírio? Se o salvamento é por amor ou pela fama? Se a paciência é paciente ou passageira, e se o papel nesse teatro é necessidade ou prazer?São perguntas que calam. E calam porque já falaram algum dia. Silenciaram nos corações que ouviram a voz do diretor que gritou: Corta! Tudo de novo!

Diego Schaun é músico, historiador e poeta.

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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