Jogo dos sete erros


No meio da revista, depois de páginas e páginas de propaganda pesada, surge um jogo dos sete erros. Quem nunca perdeu o tempo procurando no quadro ao lado a outra metade do bigode, um lado do cadarço ou a fruta que não brilha no último galho?

Sim, sete erros. São sete mesmo. Alguns até chamam-se “jogo dos oito erros”. Eu já vi um com 13 erros. É muita coisa errada para ficar procurando. Depois de encontrar o sexto defeito, os mais apressados viram a página de cabeça para baixo para ver a resposta certa. Analisamos bem cada detalhe, acertamos alguns, mas no fundo dá tudo errado. Claro, a resposta era a da edição anterior.

No início de setembro aquele ranço de inverno e solidão tenta desaparecer, mas tudo continua do mesmo jeito. A vida é redundante por prazer. Se houvesse oportunidade de perguntar ao suicida o motivo de ter se suicidado, a maioria responderia: “Não tinha mais razão de viver”, ou “minha vida era uma rotina”.

Engraçado é que racionalmente pensando, quando se está insatisfeito com algo, a primeira opção é mudar, fazer o contrário. Muitos pensariam, então, se viver é o problema, morrer é a solução. Porém, viver não é o problema da maioria dos suicidas, o problema é o modo de viver. Existe uma grande diferença nisso tudo.

As pessoas fazem opções. Se o Flamengo está ruim, vamos para o Vasco. E vice-versa (confesso que a probabilidade para este fato ocorrer é de um caso para toda a história da civilização humana, no caso “eu”). Se o namoro não deu certo, parte para outra. Os mais engraçadinhos diriam “outras”. Se não deu com aquela carne, frita um ovo e por aí vai…

Viver é como jogar o jogo dos sete erros. Cada um nasce sem algo. Uns sem alegria. Outros sem perseverança. Muitos ainda vêm ao mundo sem paz, honestidade, boa índole, sem dinheiro e sem saúde.

O quadrado ao lado é um espelho. E o pior é que na falta de paciência a procura pelas respostas de cabeça para baixo torna-se inútil. Na vida real não existe mapa da mina. Os sábios, filósofos e literatos são milhares que só sabem que nada sabem. É o real. Ninguém sabe de nada. Nem de si mesmo.

Por isso é que os prêmios para quem acerta os sete erros são mínimos. Na verdade, quem se propõe a jogar (viver) nem quer saber o prêmio. É o desafio pelo desafio. Isso até o momento em que o sétimo erro não aparece. E quando ele desaparece do quadro ao lado (o espelho), o desespero vem à tona e a gente acaba virando a página de cabeça para baixo. A página é a vida. Até aí tudo bem. Afinal, permanecer vivo é como estar em um pêndulo. Melhor dizendo, uma roda gigante.

Mas quando, ao invés de achar o erro, a página é arrancada, a vida se esvai. O fruto apodrece, o papel peleja em desfigurar-se no tempo e o espelho não reflete nada, pois a covardia se escondeu de si mesma. Esqueceu que os sete erros estão no quadrado ao lado. Ou seja, só se sabe que não existe paz, bondade e integridade se tiver vontade de ver.

Os problemas da vida, os sete erros de cada um só são sete. Como se sabe, ao longo da história, o número sete tem um grande significado para diversos povos. Significa perfeição. Uma pegadinha do malandro, não é? Os sete erros podem ser a perfeição, ou anulação, ou a vida, ou a morte.

Já que estes jogos estranhos geralmente estão na última página, o melhor é iniciar a leitura de trás para frente, a partir da última página mesmo, de forma que o primeiro obstáculo seja apenas o primeiro. Tanto faz se o bigode está faltando um pedaço ou o cadarço só tem um lado. Quem se importa? Ninguém quer ser entretido, não em sã consciência.

Acaso não é acaso. Sete também pode ser o que quiser que seja. O Sucesso do final dos anos 80 de Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii) resume bem o joguinho da vida: “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter”.

Diego Schaun é músico, historiador e poeta.

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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