Cúmulos Nimbos


As definições são tão essenciais quanto desnecessárias. Tudo tem um nome, uma propriedade, uma origem, um porquê. E tudo foi batizado, santificado e crucificado pelo filho da inconstância, o homem.

Para que servem as pernas? Para caminhar. Para que servem os olhos? Para ver. E as nuvens, para que servem? Para chover e vez por outra ser protagonista de turbulências. As nuvens podem ter uma tristeza mórbida na vivência dos poetas, e pode ser apenas cúmulos nimbos para os meteorologistas.

Cúmulos, do latim cumulos quer dizer crescimento vertical, em forma de pilha. Uma nuvem cúmulos nimbos geralmente é sinal de precipitação, chuva forte, trovoada e temporal. Cúmulo também é o mais alto grau de algo. Quando alguém é desprovido de inteligência, fala-se em “cúmulo da burrice”. Claro, os definidores adoram esquecer que “asno” é quem não enxerga o outro em si mesmo.

No alto da nuvem “cúmulo” existe um enorme topo, denominado “bigorna”. Uma definição muito pesada para estar flutuando sobre nossas cabeças tão desprovidas de chapéus, já que todos estão carecas por não saberem que o que protege a cachimônia é a consciência e não a cabeleira.

Definir as extensões internas e externas de si mesmo é a melhor forma de mostrar que é um ser, e humano acima de tudo. Cronistas baratos (como eu), poetas ainda remanescentes da remota semana de arte “moderna” e outros servidores da palavra ainda vivem por acrescentar números nas diversas explicações “aurélicas”.

Será que é por isso que as quilométricas pilhas de ar são chamadas de cúmulos nimbos? E já que cúmulo é o mais alto grau, porque o topo é bigorna e não cúmulo? Ah, pode ser cúmulo quando se referir às bifurcações de certos contextos. Mas, e se a placa mostrar uma curva logo ali para um carro que anda em marcha ré? Muitas desconexões!

Não se pode negar que o humanismo está nas entrelinhas das indagações. Esses temas eleitoreiros de desigualdade social, reforma agrária, política externa, religiosidades e cultura são apenas mais tópicos de palestras e seminários pelo mundo afora do que verdadeiras motivações de mudança. Boa parcela da população já se conformou com o acaso que um dia amputa uma perna de alguém e n’outro transporta cosmonautas para uma base além da atmosfera.

A dor de ver dores alheias nos noticiários dura até o momento dos comerciais, que empurram de má fé uma esperança desesperada nos bolsos vazios dos espectadores. A dor já era. A complacência foi junto.

Por debaixo do pano fervilham as palavras de Gonzáles Pecotche quando disse que “parte do próprio ser sensível e pensante tem de buscar consumar dentro de si o processo evolutivo que toda a humanidade deve seguir. Sua realização nesse sentido haverá, depois, de fazer dele um exemplo real daquilo que cada integrante da grande família humana pode alcançar“.

A pergunta que não quer calar: Quem vai estar vivo para ver o último homem fazer-se exemplo real de um possível ideal? Nada é tudo. Tudo é ainda não é tudo, ou seja, ainda não é nada, ou quase nada.

Diego Schaun é músico, historiador e poeta.

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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