Termômetro social


Será que antigamente existia alguma medição de popularidade? Sim, popularidade em todos os aspectos. Governos dos reis, músicas mais ouvidas e dançadas, cabelos mais charmosos, as cantigas mais românticas para se recitar, vestido mais frondoso… E então, será que existia alguma medição?

Levando em conta o fato de ter realmente existido esse parâmetro para as sociedades antigas, fico a imaginar se já naquele tempo também existia a margem de erro. Dois por cento para mais ou para menos.

É comum uma geração rememorar os tempos de outrora. Meu pai, por exemplo, fala com saudosismo da música dos anos oitenta. Herdei isso dele. Meu avô materno, antes que eu nascesse já mencionava Tonico e Tinoco, Dilermando Reis e Cartola. “Ah, como era bom!”

Por que as pessoas necessitam desse porto seguro do passado, para dar um desconto no presente quase infame que nada tem a oferecer? Será que o passado era bom mesmo? Gostaria de fazer essa pergunta a algum judeu polonês nos anos 40. E os que estudantes que viviam no final do século XIX? Se algum deles quisesse estudar oceanografia, o que teria que fazer? Teria que cantar a suíte do pescador de Caymmi? “Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar (estudar), meu bem querer…”

Essa busca quase religiosa pelos tempos do rococó é puro medo. Medo misturado ao conformismo. É difícil sobreviver num mundo onde balas perdidas acertam cabeças, crianças que se matam nas escolas e onde o rock é muito mais calça, cabelo e bigode do que a velha distorção suja e cheia de rebeldia.

Todas as épocas tem seus prós e contras. Quando os garotos de Liverpool ganharam o mundo cantando I wanna hold your hand ainda não existia Twitter muito menos Trending Tópics. Os conhecidos TT’s não marcavam os temas que permeavam 70% do mundo em cada segundo.

Coitados dos sessentistas. Não podiam twittar. “Estou agora na frente do hotel onde o Jimmy Hendrix toma seu café (se é que era café) com a banda. =D”. Mas quem é que queria saber de twitter já que a onda do momento era um LP quadrifônico? Quem se importa com 140 caracteres? Renato e seus blue caps já diziam tudo o que os garotos queriam dizer para as suas amadas em 78 rotações por minuto.

E os judeus polacos? Aí sim está uma análise difícil. Dizer que um judeu tinha felicidade nos tempos do nazismo realmente é algo muito disforme. Mas a guerra durou cinco anos (que já é muito tempo). Porém não durou uma vida inteira. E antes dela as pessoas buscavam um motivo de felicidade, como qualquer pessoa em qualquer lugar.

Creio que cada um nasce na hora exata e no momento exato. Não importa a forma, onde e quando. Tudo realmente tem sentido, por incrível que pareça. Só conheço cinco sentidos. E os outros que podem existir? Há diversas formas de ver as coisas, pois ângulos e ângulos…E os TT’s? Eles são os termômetros da sociedade atual. Pelo menos de boa parte da juventude teen. No último final de semana o #PopinRio bombou. Obra de muita gente inconformada com a participação de Katy Perry, Claudia Leite e Rihanna no festival que tem o nome de Rock in Rio, que abreviado fica RIR.

E rir era o que eu mais fazia quando via nomes como “Julio de Sorocaba”, “Axe in Rio” ou, “Rock in Rio, eu não fui”. Pensava: “Nossa, o mundo inteiro está lendo isso aqui. Que ferramenta poderosa!” E o pior é que os poderosos não estão nem aí (por enquanto). Quem sabe ano que vem, durante as eleições a gente possa ver sequências de números afirmando: Vote 00.000 o vereador S2, ou 00 para uma São Paulo mais colorida e rock’n roll.

Tomara que isso aconteça. Pelo menos vai existir democracia. Ou seria tecnocracia? Não, são só os TT’s. Eles duram pouco tempo, a não ser que seja algo histórico como a ressurreição de Michael Jackson, o Rock in Rio (que sempre foi democrático) ou o eterno conflito entre os roqueiros coloridos e os preto e brancos.

Hoje vai ser ontem amanhã. Sem margem de erro. Os meios mudam, mas o objetivo é o mesmo. O boca a boca de ontem é o tecla a tecla de hoje. E amanhã? Ainda será tecla a tecla, ou touch screen. Bem, sabe-se lá o que será. Quem quer saber?

Diego Schaun é músico, historiador e poeta.

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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