Manuel, o primeiro avatar!


Quando alguém me contava uma “piada de português” eu nunca entendia. Geralmente, os protagonistas dessas histórias curiosas se chamavam Manuel. Por que será que esse pobre Manuel sempre se dá mal e não entende o óbvio?

Na história da monarquia lusitana os personagens mais famosos são as Marias,os Afonsos, Henriques, Sebastiões, “um monte de João”, vários Pedros e dois Manuéis! Estes sim fizeram história em Portugal. O primeiro, Manuel I (releve a redundância) obteve em seu reinado a conquista de nossa terrinha de Santa Cruz, da América Central, o caminho para as Índias, as inúmeras ilhas do Atlântico, cheias de especiarias e um enorme poderio econômico. Manuel I deitou e rolou! Viveu e governou numa das épocas mais prósperas do império português. Já Manuel II, este também deixou a sua marca. Foi o último rei de Portugal, deposto em 1910. Um dos mais patriotas, humildes e sensatos monarcas. Só que reinou pouco tempo. Era chamado de Rei-Saudade. Mas, o que é bom para o povo dura quase nada, não é?

Aonde quero chegar com todo esse blá blá blá histórico? Calma, já explico. Aqueles Manuéis foram exemplos de garra, conquista, prosperidade e pensamento altivo além e aquém dos mares calmos da vida. Todavia, nas piadinhas portuguesas, estes “pobres” reis (agora padeiros) são motivo de chacota, senilidade e loucura. Eles pagam o pato em cada luso-trocadilho sem saberem o porquê. Claro, estão mortos.

Porém, pensado de outra forma, deve ter havido outro Manuel que aprontou alguma coisa. Pesquisando no Google, o máximo que se encontra é “piadas de português”, “clique aqui e dê risada com estes toscos”. Não encontrei nenhum texto sobre o motivo de Manuel sofrer tantas injúrias. Acabei lendo algumas piadas e cheguei a uma conclusão. Em certas ocasiões os lusos são as próprias piadas.

Andei pesquisando e percebi que Portugal tem atitudes meio esquisitas. Nada contra o povo português. Todas as nações merecem respeito. Atualmente, já feitas às pazes com Brasil depois de séculos e séculos de extorsão, (entenda-se “atualmente” por “quando foi isso?”) os portugueses encontraram uma nova razão de ser: A semelhança entre luso e ludo. Isso mesmo!

O governo resolveu ficar mais relax e vez por outra fazer brincadeirinhas, piadinhas ou outras coisinhas… A última deles foi a criação de um conselho de justiça para julgar avatares no conhecido mundo virtual Second Life!. E depois não querem ser motivo de piada. Nem precisa de motivo. Neste caso, a vida real (ou irreal) é a própria piada.

Deve ser medo o fato de milhões de pessoas entrarem num mundo virtual para fazerem tudo o que gostariam de fazer por aqui, na dura realidade de cada dia.

As pessoas se apegam à falsa discrição da internet para poderem fracassar à vontade. A vida real é muito cruel. Fulano não pode errar. Fulano não pode desafinar. Fulano não pode escrever sem concordância. Fulano não pode ser gordo. Fulano não pode! Não pode! Não pode… Fulano não pode ser humano, mas pode ser avatar! Paradoxalmente, um humano-avatar pode ser humano, passivo de erros! Isso é uma loucura.

Errar é humano. Errar duas vezes é burrice. Errar três vezes é avatar. E avatar faz o que quer. Qualquer coisa, só deslogar!Não, quem disse? Nem o pobre bonequinho virtual pode sair por aí criando escritórios de advocacia ou deteriorando vitrines de lojas. Portugal, a piada pronta, pensando em todo esse caos de delitos online, criou o Tribunal de Justiça para o Second Life. Nada de desviar alguns Linden dollars! Os litígios de lá são rápidos e eficazes, enquanto que aqui os processos judiciais demoram anos e anos. “No Second Life, o crime é cometido e julgado mais rápido! Venha pra cá!” Só não se sabe pra fazer o quê. Roubar ou ser roubado?

Não há mais o que falar. Diante de tal “realidade”, nós, os errantes, ficamos sem resposta. Ficamos… Errantes! E é o que somos. Nem uma segunda vida pode ser capaz de tirar a essência imperfeita do ser humano.

E o Manuel? Coitado, ainda paga o pato. Pior é que todos eles são padeiros. Como se Portugal só vivesse de pães. Não mesmo! Eles fazem pão, vinho e justiça para terras sem lei!

Diego Schaun é músico, historiador e poeta. Site: http://www.diegoschaun.com.br

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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