Os Mutantes estão de volta!


Quando eu era pequeno, detestava ser o líder de alguma brincadeira. Muita gente dizia que eu tinha tino para a coisa, para domar as situações, segurar as rédeas, dar as ordens, mas no fundo, eu adorava os bastidores. Dizem por aí que quem não toma a frente de nada é na verdade um covarde que prefere acomodar-se na sombra para não dar palpite sobre luz do Sol. Não é verdade. Para ver com clareza é melhor se afastar do centro!

Poesias à parte… Tudo ficou vazio. As partes (poesia), se colocadas à parte, nada restará. Tudo tem palavra, literatura, contexto, texto, nexo, reflexo, rimas… E fazer poesia não é aquela atividade tida como enfadonha, onde alguns loucos, desvairados, pálidos e imprevisíveis escreviam com penas recostados em túmulos. Nunca vi nenhum byronista. Aquelas pessoas na saída do metrô Liberdade não são byronistas, viu?

No momento em que se propõe um mundo poético, um todo de letras, parece que todos os problemas não existem de verdade. É uma grande farsa a água, o amor, o ar, os carros, as roupas, a libertadores… Mas faz sentido! Quem nos garante que a imagem à nossa frente é realmente real, e o que acontece, por incrível que pareça, está acontecendo mesmo?

Baboseiras piores são proferidas por aí. É sério! Que coisa mais estranha senão uma lista de 70 pessoas mais poderosas no mundo? Será isso natural? No mínimo poético! Um texto bem épico! A poesia não é sinônima de mentira, faz de conta ou irrealidades. O orbe, como poema é todo real. Quando se pensa poesia, na consciência esse acontecimento já é real, acontece! “Cogito, ergo sum”, não é Descartes?

Deve-se lembrar que existir não é aceitar. “Suportai-vos na caridade”. E temos nos suportado! Sete bilhões de seres passando pelo planeta não quer dizer sete bilhões de assassinos, pervertidos e ladrões. Tem muita gente boa por aí que faz o real imaginário tornar-se um real acontecimento na vida das pessoas, e melhor, sem serem notados.

Mas, e os 70 mais poderosos do mundo? Pois é, temos que ter cuidado. Pelo menos eu tenho me cuidado. Nada de chips embaixo da minha pele! Esses mutantes não têm voz nem vez. Calma, o fio da meada ainda não foi perdido. Na minha realidade, ser poderoso não é ser rico, presidente de países guerreiros (entenda-se amor à “arte” da guerra), ou criador de redes sociais. Que rede social? Onde a amizade está sedimentada num clique?

Houve um período de minha infância onde se espalharam vários relatos de crianças que ficaram epiléticas ao assistirem o desenho japonês Pokémon! Fui proibido de assistir. Na escola eu ficava boiando, quando meus colegas falavam aqueles nomes estranhos. Em minha cabeça, a realidade acontecia de uma forma até lúdica. Como eu acreditava realmente (por causa do medo) que se assistisse poderia ter ataques epiléticos, ficava a imaginar se no outro dia minha turma ia ter um aluno a menos. Coisas de criança! Depois de um tempo percebi que tudo isso era lorota. Tanta gente por aí viciada em Guitar Hero… Ainda não vi nenhum caso de ataques nervosos provocados pelo jogo. Pior, tantos adolescentes ouvindo esse novo “rock and roll” e eles não saem por aí rolando pelo chão, dando gritos histéricos. Alias, já vi sim.

É aquele velho jogo do conformismo cromossômico. Faz parte da fisiologia humana. Por isso eu digo que os mutantes estão de volta. É bem capaz de amanhã estar estampada na capa do New York Times assim: X-Man é considerado o ser mais poderoso do mundo após criar uma rede social inovadora, que é tão viciante que já começou fracassando. Logo atrás dele, segue na segunda posição Justin Bieber com seu novo hit “I¿m not dog no” e em terceiro lugar Tio Patinhas, o atual dono do FMI!

No máximo, seria mais um trending topic do twitter por alguns dias, motivo de várias risadas pelo mundo, um tema para eu escrever uma crônica e a comprovação de que mais uma vez o ser humano não está imune. Acho que vou na 25 de março comprar um escudo e um capacete para escrever poesias e fazer o mundo acontecer. Pelo menos o meu.

Diego Schaun é músico, historiador e poeta. Site: http://www.diegoschaun.com.br

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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