As escolas estão prontas para ensinar música em 2012?


Corria o ano de 2008. Estava morando em Londrina, no norte do Paraná. No jornal, uma notícia chamava a atenção: Ministério da Educação dá um prazo de três anos para que todas as escolas públicas tenham o ensino obrigatório de música. Ou seja, estes colégios teriam até o final de 2011 para ficarem aptos e atualizados com a nova norma do Governo.

Villa Lobos, saudoso maestro, e talvez o único músico brasileiro erudito que ainda é lembrado pela massa, pelo menos pelo nome, era um ávido lutador pela causa “Música na Escola”. Inclusive, na época do Estado Novo, ele conseguiu fazer com que esse sonho fosse uma realidade.

Até os anos 70 havia música na grade curricular das escolas brasileiras, porém, Jarbas Passarinho, que no governo militar era Senador, fez uma “maracutaia” e tirou a obrigatoriedade desta disciplina. Devia ser mais um medo os militares, já que música no Brasil nos anos 70 era vista com repulsa pela ditadura.

Depois de longos 40 anos, as escolas brasileiras, que já viviam numa correria para cumprir as metas dos alunos aprovados, com a falta de merenda escolar, com a degradação do patrimônio estudantil e a falta de recursos, agora tem mais uma tarefa: Contratar professores capacitados para ministrar a nova disciplina. E logo!

Segundo a lei nº 11.769, sancionada em 18 de agosto de 2008 pelo presidente Lula, que determina que a música deve ser conteúdo obrigatório em toda a Educação Básica, os professores têm que ter graduação em Música. Aí é que vem o problema!

O ensino universitário de música ainda é precário no Brasil. Não no sentido de ensino e sim de universidades. Por exemplo, a Bahia, onde apenas na UFBA (Universidade Federal da Bahia) existe o curso de graduação em música. Só algumas universidades em algumas capitais têm o curso de graduação em música. Isso é muito pouco! Para um país musical, diverso, multicultural como o Brasil, os cursos de música não são suficientes e acessíveis para uma gama de músicos e musicistas espelhados por aí.

Como colocar dois ou mais professores em cada cidade do Brasil até o início do ano que vem? Só lembrando que os salários dos professores não são nada convidativos… Onde vai haver formação para tanta gente…? E pior, será que tanta gente assim quer ensinar música? E os que querem? Como habilitá-los?

Todos sabem que o exercício musical faz um bem enorme para o desenvolvimento das pessoas. O objetivo desta lei não é a formação na escola de maestros, violinistas spalla ou garotinhos engomados com batuta na mão. A música vai além de tudo isso.

Uma reportagem muito interessante foi exibida na TV durante essa semana. Mostrava uma técnica de aprendizado de compasso rítmico através de passos e palmas. Várias escolas já adotaram a prática e os alunos mostraram um aumento no rendimento escolar. Boa parte da turma não sabe cantar, não conhece as notas musicais nem sabe tocar algum instrumento.

Mas quem sabe o Dó, Ré, Mi não sabe tudo. Já dizia Humberto Gessinger: “Conheço muita gente que sabe tocar, mas não vi ainda alguém que saiba ouvir.” E é verdade! Ouvir é um dom que deve ser cultivado. Incutir nos jovens essa noção da excentricidade de nossa cultura, de nossos ritmos, e de nossos personagens deve ser também uma tarefa desses novos professores.

Outro fato importante que surgiu nesse período foi o surgimento de diversos cursos online, ou por correspondência para a “formação de professores de música”. Um perigo! O brasileiro é esperto e não perdeu tempo: “Vai haver uma grande procura para este curso”. E assim surgiram diversos sites e “empresas” para formação de docentes!

É preciso ter muito cuidado! Muitas pessoas procurando emprego podem achar nessa área uma saída. Por que não? Ótimo, contanto que os alunos brasileiros não sofram com o descaso de mais professores…

Vamos ficar atentos para observar o comportamento das crianças e adolescentes. O efeito vem com tempo, mas os problemas já surgiram desde ontem, e antes de ontem, e antes de ontem, e antes de ontem…

Diego Schaun é músico, historiador e poeta. Site: http://www.diegoschaun.com.br

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s