Mudar é calar


Nesse teatrinho diário, onde existem famílias, porteiros, escritores, jogadores de futebol, mocinhos, princesas, bandidos e políticos, o cenário é sempre frágil, de papelão ou materiais grosseiros. Nada dura para sempre. Sim, até a corrupção diária em Brasília um dia vai mudar. Mudar não é o fim. Mudar é mudar.

Porém, mudar também se assemelha à mudez. Quem sabe se daqui a algum tempo os lingüistas irão fazer uma convenção para acrescentar à palavra mudar as características de ação? Pode ser que nos próximos anos o verbo emudecer mude para mudar. Eu mudei, tu mudaste, ele mudou! Mas mudar já é um verbo, o da mudança. Logo, quando algo se desloca, sai do lugar de origem, a origem fica muda, se cala, para, finda.

Não é esperança. Falar do que é perene é blasfêmia. Ter fé é uma virtude linda, que a vida deu de brinde para bons e maus. Persistir sem saber o porquê é o vício mais voraz que corrói as pessoas. O Sol nunca nasce para todos. Ele vive parado, olhando o mundo girar como um peão, que fora lançado no espaço por uma habilidosa mão pueril.

Crer que o Lula se cure, que o tempo melhore, que o desvio de dinheiro público será realmente desviado para o lado certo e que amanhã o peão ainda continuará girando sob um mono olhar de fogo deixa claro que essa máquina dotada de pensamentos e sensações é uma obra de arte. Nós cremos!

Quando aos domingos, antes de 1994 se ouvia o tema da vitória, sabia-se que Senna tinha ganhado mais uma vez. “É do Brasil”! E que país vencedor esse tal de Brasil. Vai do mais alto ao mais baixo. As coisas brasileiras são extremas. Ricos demais, pobres demais, muita paz e muita guerra, muitas religiões e muitos livros. Tem poesia brilhante e professores analfabetos. Alunos na lama e no heliporto, canetas de ouro e impressões digitais… Como disse antes, extremos!

Estudantes querendo fumar seu baseado em paz e a PM acaba com a festa. Ministros decorando o texto errado para encenar na CPI. Chuvas, sol, desabamentos, acidentes, numerologia barata, ENEM, Nem, e a Pax Romana no morro no alemão. Tanta pressa pra chegar aonde? A notícia dura enquanto durar o patrocínio. Pensou que eu falava de empresas? Não, o patrocínio é seu. É a sua atenção, que pode ser direcionada, desviada, calada e mudada a seu bel-prazer.

Muita gente ainda não sabe cantar o refrão de “Alagados”, música dos Paralamas do Sucesso, muito menos o Hino Nacional. Uns cantam “ouviram da pitanga madurinha…” Outros preferem olhar no final do livro didático, quando este existe. Cada um na sua!

Por isso que quando algum nerd falar que a humanidade passou por um longo processo de mudança, pode rir e mudar de canal. Melhor desligar a TV. Deslocamento de habitat, hábitos alimentares, vestes e times, estes sim podem ter se modificado. Todavia o homem é mudo porque ele muda, finda, cala. Tudo bem, ele emudece e não muda, ou fica mudo e muda falando, e por fim continua sendo o mesmo australophitecus, que não era mudo, mesmo sem dizer uma palavra (em nossa linguagem atual).

Quando babacas bebem, dirigem e matam, penso que a margem de erro para humanos sem virtude é real. E cresce. Os mesmos que choram ao ouvir “Solidão de amigos”, do cantor Jessé também riem com Tiririca. Desenham os mesmos sentimentos com os dedos. Tablets e paredes rochosas? Rupestre digital? Ótimo, ambos são feitos com os dedos mesmo. Ser arcaico não é ser estúpido, é ser autêntico.

Tudo que se faz ou que se deixa fazer parte da construção da obra pessoal de cada um. E somos obrigados a fazer isso, porque não existe a possibilidade do nada, pois nada existe. O significado da palavra ou do grunhido é você quem dá. Aurélios e Barsas são convenções de alguns. Permanecem sendo o norte de algumas bússolas, cada uma com sua Dália de Tsunamis, desinformando aos informados que em 360 graus cada norte pode ser vizinho do sul e que o erro está em não seguir, ou se deslocar, pois tudo é mudo e tudo muda.

Se tudo isso fosse pintado, a imagem seria de multidões tomando as estradas do mundo num silêncio pio, gostoso de ouvir. Mas se fosse uma pintura moderna, poderia ser uma foto de qualquer avenida de São Paulo, onde o silêncio das pessoas também é real. Cada um na sua correria, apenas atrapalhados pelos barulhos de carros e dos altos decibéis dos fones de ouvidos. Esses sim não mudam. Falam alto demais.

Diego Schaun é músico, historiador e poeta. Site: http://www.diegoschaun.com.br

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s