A velha estreia. É dezembro de novo!


Chegou o mês do Natal! No horizonte, pilhas de panetones. Mensagens de paz e amor são escritas nas prateleiras dos mercados. São votos de fé e esperança… Que eles comprem, hou hou hou!

A procura por empregos também começa a crescer. Muitos homens treinam frases natalinas e compram perucas e barbas brancas para fazerem o papel de Papai Noel nos shoppings. As crianças (ricas) se deleitam. Os pais babões tiram fotos e o pobre homem, sufocado pelo roupão vermelho ainda tem que ouvir os pedidos mais esquisitos e inocentes dos pequenos, é claro por dinheiro.

As igrejas católicas já preparam suas novenas. Os políticos, também arrumam suas mandingas, rogando ao deus deles para que no final da semana o salário seja reajustado mais uma vez, e que no ano que vem eles consigam a tão sonhada aposentadoria, melhor dizendo, a reeleição!

Com pouco menos de trinta dias para essa data mística, cheia de histórias, falar dos famosos antagonismos torna-se pura repetição. Tudo bem, todos já sabem que é muito triste avistar famílias inteiras rodeadas de vinho e chester e saber que ali na esquina tem alguém esquecido, ouvindo resquícios de jingle Bell e adormecendo, sem esperar enxergar do chão a bota de alguém. Na rua não há Papai Noel, só PM.

Insistir em amor ao próximo também não faz sentido. Na verdade é burrice. Sabe por que? Porque não adianta ensinar uma faculdade a quem demonstra à cada dia um notório retrocesso. É como forçar um carro a andar para frente com a ré engatada. O homem já mostrou que não quer amar, não quer cuidar, não quer ser legal.

Porém, existe uma qualidade no qual não se pode negar. A encenação! Todo mundo vive atuando a todo o momento. Esse texto estava no script. As pessoas choram assistindo Coração Valente, dão gargalhadas com os velhos filmes dos trapalhões, e criticam os técnicos que insistem em deixar os melhores jogadores no banco. Viver a vida inteira seguindo o que o calendário diz é muito fácil. Reunir a família no Natal, vestir-se de branco no ano novo, sair por aí com cornetas, todo pintado de verde e amarelo durante a copa, aceitar-se falho quando ouve alguma palestra de auto-correção (até o momento da pausa para o cafezinho)… São tantas cenas que não poderia escrever aqui.

Alguns, mais religiosos, poderiam acreditar que esse texto é uma perda de tempo. Pode até ser. O tempo que foi perdido para ele ser escrito com certeza não foi maior que o de quem lê agora. Calma, ir de encontro ao âmago dói. Pergunte a alguém que já levou uma facada nas costas se ele sentiu muita dor. A lâmina cutuca as vísceras, mas a palavra destrói e sem sangue. Nunca à queima roupa, pois o fogo que incentiva a mudança vem de dentro e não passa da epiderme.

Hou, hou, hou. Novamente aquele mês que sempre vem com ar de nostalgia. Claro, o script diz que em dezembro os ares são novos. Os sentimentos de perdão e harmonia são mais propícios. Nem pense em cantar jingle Bell em Fevereiro. As bandas de axé já preparam refrões curtos para descansar a mente dos atores que decoraram as falas do ano inteiro e que daqui pra lá só irão querer paz, carnaval, futebol, que segundo Claudia Leite “não mata, não engorda e não faz mal”.

Quem virá esse ano para a ceia da meia-noite? Quantos presentes comprar? Ligar o pisca-pisca? Amigo secreto? Orações soletradas? Repetir versículos por leitura labial da avó beata? Fácil demais…

Continuar calado também faz parte do teatro. Nem todos podem ser os protagonistas. A sociedade de hoje é a mesma da Idade Média. Uns rezam, outros comem, muitos matam, milhares somem, poucos guardam e tantos roubam, alguns conhecem a palavra “ter” e muitos a procuram no dicionário… Destino? Ele escolheu o papel? Talvez. Mas se existe destino, o livre arbítrio desaparece. Dizer que a vida quis assim é papo furado, de medroso. Escolher o que vou fazer amanhã pode ser o primeiro progresso de uma nação que só faz o que estou fazendo: Contando dias, horas, semanas para a velha estréia que já nasceu e ainda vai nascer… É Natal, de novo, daqui a pouco. O velho Natal.

Diego Schaun é músico, historiador e poeta. Site: http://www.diegoschaun.com.br

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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