Quem ri por último é besta


Triste é a vida de quem vive esperando o final das histórias que ninguém lembra. Esse é meu caso. Há alguns meses atrás escrevi, nessa mesma coluna, sobre o “sigilo eterno”, que na época ainda nem tinha sido votado e era discutido por alguns loucos, parcos paladinos da discórdia inútil.

“Imbecil, inútil, fraco, mediano, por fora do contexto…” Esses foram alguns adjetivos que anexaram embaixo do texto. Os déspotas mais esclarecidos disseram que a imprensa pouco se importava com esse tal sigilo. Voltando no tempo, qualquer banca de revistas na época tinha o nome “sigilo eterno” em 90% das capas de suas revistas. Realmente a imprensa não queria vender. Só vendar o ego de cabra-cega dos leitores caolhos.Passados alguns meses, os jornais agora alternam as fotos da primeira página com os assuntos do momento: Neymar e os Ministros de serena Dilma. Por enquanto esse tipo de assunto dá dinheiro. A renda é favorável tanto para criticar como para exaltar. As TVs vivem um barroco midiático. “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Mas, nesse caso, não há simbolismo literário ou vontade vã. O papel moeda é o talismã.

Dois meses após a aprovação da nova lei do sigilo eterno pelo senado, o notório marasmo da mídia e do povo Cult é de fazer rir. Existe uma minoria que apenas critica e não levanta a bunda do chão, que toma coca-cola e chá verde, fala “porra” como se fosse o mais sensato aforismo, e que acha o máximo ouvir música erudita uma vez por ano, só para falar pra todo mundo, no outro dia, que ama Mozart. Pior, não sabe o nome de uma canção.

Cadê os preocupados com o sigilo? Já entraram em contato com o governo para pedirem esses tão preciosos dossiês? O povo precisa saber o real motivo da Guerra do Paraguai! As pessoas clamam em toda esquina: Onde estão os submarinos novos das forças armadas? Ainda ontem fizeram uma passeata na Avenida Paulista clamando justiça pela morte do jornalista Vladmir Herzog!

Mas aquele velho ditado é velho mesmo. E não tem nada haver. “Velho”, nesse caso, não se refere à idade. Retrógrado cairia bem. Quem ri por último não ri melhor, sabe por quê? Por que ri sozinho. E dar risada do pretérito imperfeito vivido com lágrimas é nada mais que um novo pretérito. É o futuro do pretérito. Seria do mesmo jeito. É do mesmo jeito.

Interessante é que como uma geração que não é capaz de entender que os lugares especiais são para pessoas especiais, que bebe e sai por aí matando inocentes, e que oferece com sorriso um espinho envolto em algodão ainda chora miséria e faz alarde por um conhecimento que nunca terá. Por exemplo, se neste exato momento for produzido um documento ultra-secreto, e se no final do seu prazo de sigilo este for prorrogado mais uma vez (segundo a lei), eu só irei ter acesso aos 71 anos de idade. Coitado do presidente do Brasil que estará em exercício no ano de 2071. Vai sofrer com a revolução dos intelectuais da terceira idade, que irão cobrar explicações do remoto e conturbado “Governo da primeira presidenta do país”. Daqui pra lá, “Dilma” será só mais um quadro com moldura dourada no Palácio do Planalto e uma foto nos livros didáticos.

Por isso que quem ri por último é besta. Eu sou um besta, porque descobri que rir do que já era esperado não tem graça, pois já era esperado. Pior é teimar pelo efêmero. Prometer uma falsa promessa, além de paradoxo, é vil. Mas, quem nunca olhou no espelho e viu alguém vil? Os sons iguais não dão resultados iguais. O rebelde sem causa só causa repetição, bagunça, regressão. O veloz vai e vem dos olhos durante a leitura não os deixam ver as entrelinhas. Não dá tempo de entender. A janela do MSN está piscando!

Diego Schaun é músico, historiador e poeta. Site: http://www.diegoschaun.com.br

Fale com Diego Schaun: diego.schaun@terra.com.br ou ou siga @DiegoSchaun no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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