Fotogênicos, maioneses e lagartixas.


Depois da foto, todos correm para olhar o resultado no visor de LCD da câmera. Uma das pessoas, no meio da aglomeração, fala: “Nossa, como não sou fotogênica! Detesto tirar fotos de perfil!”. Com certeza todo mundo já passou por essa situação. A palavra “fotogênica”, segundo boa parte dos dicionários, é um adjetivo relativo aos efeitos químicos da luz sobre certos corpos.

Quem já leu o livro “Ensaio sobre a cegueira”, de Saramago, percebe logo nos primeiros capítulos que a brancura nos olhos contamina-se facilmente, e não é difícil imaginar quem será a próxima vítima. Olhou, cegou! Olhar não é o mesmo que enxergar. O contato da luz nos corpos resulta na cor da personalidade. Por isso os julgamentos são plenamente físicos, cara a cara, roupa a roupa, cabelos e desmantelos. Para os cegos, ser fotogênico não é perda de tempo. A imagem captada pela objetiva, fria e movida a baterias, apenas enxerga nada. Só nada. A objetiva a que me refiro é a de qualquer Pentax. Os olhos dos que não veem enxergam o que não se vê.

Sair-se bem numa foto é tão importante como sair-se bem numa foto! Certo? Isso deixa claro que no currículo de aptidões os fotogênicos resumem-se em certos corpos que sofrem modificações sob efeitos químicos da luz. Bem, iluminado por um candeeiro, existe arte ou “fotogenia” em alguns corpos? Existe algo. Pode ser. Pode não ser.

Se você, caro leitor, chegou até aqui e ficou meio confuso com esse blá blá blá sobre fotografias e outras irrelevâncias, sinal de que você, eu, e todos os outros também viajam na maionese. Mais uma coisa que nunca entendi “viajar na maionese”. Por quê? A maionese rima com alguma coisa esquisita? Será que ela tem uma aparência distraída? Como seria uma aparência distraída? Aparência é lembrança. Lembrança é atividade, correria, reavivamento dos fatos. Portanto, maionese é tudo, menos apática. Talvez seja por isso que o livro do Saramago tenha tido tanto sucesso. Ele encontrou o mapa da mina quando prendeu os leitores em capítulos e linguagens únicas descrevendo o dia a dia de cegos, que apenas veem a brancura, nada mais ou tudo menos que a aparência distraída.

Nossos dias correm. E quanto mais o tempo passa, as pequenas coisas vão ficando despercebidas. Ótimo! Apego ao ínfimo é o papel do mínimo. Mesmo sabendo de nossa corrupção, quem por aí quer ser o menor de todos? Calma. Isso não tem nada haver com os versículos de Lucas que afirmam “Quem quiser ser o maior, que seja o menor de todos”. Religiões à parte, as coisas pequenas a que me refiro realmente são as coisas minúsculas. Se não se enxerga, não se olha. Se não se olha, não se vê. E quem não vê não é cego, pois estes têm outros olhos e nós somos apenas fotogênicos. Certos corpos que por aí sofrem efeitos…

Tudo bem. Que importância tem esses parágrafos? Nenhuma. Divagar sobre o que falamos e vivemos são opções alternativas. Iremos convir que falar sobre BBB e sua falsa política “anti-pró-pré-conceito”, ou as obras malucas em São Paulo e o joguinho de pega ladrão entre a polícia e os bicheiros do Rio já enchem os olhos dos que adoram olhar as aparências irrequietas, que são muito diferentes das distraídas. Bem piores.

Talvez o diferente seja inaceitável na cabeça de alguns. Tudo é o que é, mas às vezes tudo também é o contrário. Nossa retina enxerga de cabeça para baixo. Quem garante que estamos de cabeça para cima? O labirinto dentro de nosso ouvido? Só se for. A lagartixa dá olé em vossemecês e faz de cada superfície sua retidão. Se elas são fotogênicas? Claro que não. Não sofrem efeitos químicos da luz. Aliás, não estão no seleto grupo dos “certos corpos”. Os “errados corpos” são os que não saem nas fotos. São os que ficam nelas. É Janeiro.

Diego Schaun, 05 de Janeiro de 2012

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5 comentários sobre “Fotogênicos, maioneses e lagartixas.

  1. Olá, Diego! Vi seu tweet mencionando a Carta Potiguar e seu blog, resolvi vir aqui conferir 🙂 Parabéns, seus textos são realmente muito bons!
    Aliás, caso você tenha interesse em publicá-los também na Carta, sinta-se à vontade em nos enviar por email (cartapotiguar@gmail.com ou uiaranunes@hotmail.com).
    Abraços,
    Uiara Nunes

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