Flaubert e os Advogados da Hipérbole.


Abre aspas.

Todo exagero, por mais estranho que seja, continua a ser estranho e mentiroso ao ser proferido por determinadas bocas. Arcadas escovadas e bem alinhadas, com incisivos grandes e brilhantes geralmente mentem com mais verdade e entusiasmo do que qualquer jogador de pôquer.

Esses casos ocorrem com mais frequência na literatura. Através da fantasia, da ficção os sentimentos, as críticas e a bagagem carregada de maldade e benevolência tornam-se obras de arte, reflexos dos espelhos e “didacus”, conselheiros. Que piada, não é? O resto ser a diferença! Realmente, após a subtração, essa não é a designação que se dá ao resultado? O resultado de uma diminuição.

Através dos livros, que contam milhões de histórias, os homens de pena voam sem sair do chão. Pairam pela fuga. Compõe às escondidas o que guardam no âmago. Só para ter prazer em espiar a cara de idiota que os leitores fazem. Quem mentiria mais? Você? Eu? Lula ou Pedro Bial? A cabeleira do Slash ou a do Morais Moreira? Machado ou Flaubert? Mesmo em épocas diferentes, acredito na mentira dos dois. Fala sério. Quem sou eu para não acreditar numa obra ou texto de alguém? Sou eu. Por isso tenho os dentes tortos e no baralho só sei jogar burro. “Jogar burro”. Rá!

Bem, nada para chegar até o cume. Na verdade, isso é tema para o Paulo César Pereio. De cinema nada sei. Lembro-me de ter visto Titanic e Eduard mãos de tesoura. Falha grave a minha! Ver filmes seria outra forma mais explícita de enxergar as fatigadas tentativas de acertos e erros de meus irmãos, os homens. Mas, folheando uma revista de História (da qual sou fã), li uma matéria sobre um filme que foi lançado. Na verdade, uma releitura na íntegra do conto “Quidquid Volueris”, do Gustave Flaubert. Resumindo, a história refere-se a um antropólogo europeu, que em visita ao Brasil no século XIX resolveu, por experiência, “cruzar” uma escrava com um orangotango. Isso mesmo. Daí, 16 anos depois, o estudioso retorna à Europa levando o resultado da união. Esse híbrido se chama Djalioh e na terra do gringo, acaba matando e estuprando a mulher e o filho do antropólogo e depois se mata.

Esse conto foi escrito por Flaubert quando ele tinha 16 anos. Um adolescente um pouco malicioso, diria. Mas ele era apenas fruto do meio. Jornalistas e estudiosos tentam entender o que o inspirara. Se seriam pinturas numa catedral ou as “viagens de Gulliver”. Engraçado que ninguém mencionou a possibilidade da inspiração ter vindo da própria sociedade. Afinal, no auge do romantismo, as coisas mais belas eram as brancas jovens loiras e raquíticas e os jovens, galanteadores, a citar trovinhas ao coro de barrigas roncando.

Um orangotango, uma escrava… Esses seriam temas (para a época) muito mais familiares à Darvin do que a Flaubert. Mas aonde quero chegar com tudo isso? Em lugar nenhum. Só ao que já sabemos: O nefando desamor e descompromisso do homem. A máxima mais sábia que já foi escrita é: Pimenta no olho dos outros é refresco! E é mesmo.

Mais interessante é que a crítica não menciona nenhuma possibilidade de um pré-conceito nesse trabalho. Não que exista pré-conceito. Estaria caindo em minha própria armadilha se começasse a falar da porcaria do politicamente correto. Essas palavras soam como um interruptor, que para acender a luz faz estalos. Estala para apagar também.

Racismo está em alta. Mesmo os mais esclarecidos e não pré-conceituosos pensam vinte vezes antes de falar qualquer frase. Podem ser presos. Ótimo que se tenham falado mais abertamente do assunto. Como diria um BBB (nunca pensei que usaria uma frase de um BBB num texto), “embaixo da pele de todo mundo o sangue é vermelho”. Olha só, acabei pré-conceituando os BBBs. E se eu for um deles amanhã? Rá!

Bem, era isso. As coisas só são pré-conceituosas quando convém, não é? Ninguém fala do filme. Afinal, uma negra se “amando” com um orangotango é arte. “Ah, foi o gênio do Flaubert que escreveu. Era apenas um jovenzinho. Como criticar o autor de Madame Bovary?” Tudo bem que todos um dia fazem as coisas mais brilhantes e noutro as destroem. Mas era Flaubert! E se fosse o nosso poeta Patativa do Assaré, que num possível repente escrevesse: “Numa dança qual calango, bailava a negra com o orangotango”. Seria racismo? Digo mais, e se fosse Rondineles, grande amigo e exímio pintor baiano que num vulto de inspiração banhasse a tela com uma cópula entre o símio e a negra, onde ao fundo o antropólogo espreitava feito um voyeur? Seria arte ou crime?

Podem fazer a exumação nos corpos desses artistas! Dentes lisos, sorriso aberto. Estes são os advogados da hipérbole. Nenhum exagero seria demasiado exagerado na boca desses mentirosos cabais. Olha lá, não estou desmerecendo os donos da pena. Só o cuspe viscoso que a própria faz no papel. Será que Augusto dos Anjos estava certo? Seria o beijo amigo a véspera do escarro? Nem sempre. Se a arte está no belo, que a beleza reine na moral. Idéias? Cada um é livre para ter e fazer, e escrever, e pintar e… Mas tornar louvável o execrável é vil. Viu?

Fecha aspas.

Só sobrou Maria. As outras já se foram.

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8 comentários sobre “Flaubert e os Advogados da Hipérbole.

  1. Incivel como um texto tem o poder de formatar nossas ideias e nossas opnioes,desenhar palavras que ganha vida em nossa imaginaçao. Simplesmente adorei viajei quanto Flaubert em uma de suas alucinaçoes rsrss.

  2. são um amontuado de letras, que da maneira errada serve para ofender, , da maneira certa serve para ajudar e da sua maneira serve para refletir.
    PARABÉNS.

  3. Olá… como prometi no ‘tal do twuiter’, tô aqui rsrsrrs
    …”é Vil, viu?”…gostei =) Há tempos não encontrava um escritor de seu estilo, gostei… Hoje em dia a forma poética tá na moda, por isso dá saudade de escritos assim. Mas gosto também de poesia =) E parabéns pelas múicas e o repertório que escolhe… muito bom também!
    Abraços…

  4. Parabéns. Você escreve muito bem.
    Infelizmente o preconceito ocorre somente quando sai da boca de alguns. Outros podem falar coisas muito mais preconceituosas ainda, que quem sofre ainda ri e aplaude.
    Mais uma vez, parabéns! Seu texto ficou muito bom. Nunca havia me interessado muito por crônicas, mas as suas são muito boas! A partir de agora irei acompanhar seu blog/site.

    Mateus Noremberg – Livros Preciosos

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