Pândegos que latem por vinho.


Num determinado livro de introdução à filosofia, em seus primeiros capítulos, o autor afirma que o diferencial do homem perante os outros animais é o seu trabalho. “Pelo trabalho o homem se autoproduz. Os bichos apenas repetem os mesmos gestos, tornando-se perenemente a primeira essência”.

Até certo ponto, isso chega a ser relevante. Realmente o ser humano modifica, inova e transforma o que lhe for possível ao seu bel prazer. De fato, os prazeres dos homens são totalmente diferenciados. Os outros animais matam por instinto. Nós matamos por deleite. Os animais trabalham por coletividade, e de novo por instinto. Nós trabalhamos por dinheiro. E por dignidade, também.

Se analisarmos bem, agir por instinto também faz parte da essência humana. Tudo o que os outros bichos fazem, também nós o fazemos. Procriação, vigilância, rituais, euforia, sonolência, diversão, sofrimento, agonia, trabalho, enfeites… Ou seja, nós todos somos essa coisa. A mesma coisa. E o livro de filosofia continua assim: “Outra diferença primordial entre os homens e os animais é a linguagem”. O autor afirma que as pessoas criam signos para designarem objetos ou sinais para abreviarem diversos significados. Por exemplo, a palavra casa. Não há nada entre essas quatro letras que lembre uma casa, mas a convenção social acordou que casa é a palavra para designar uma casa, um habitat, abrigo, refúgio, lar.

Cheguei aonde queria. O que seria uma convenção social? Quando será que ocorreu este mega evento entre as nações para decidir que a palavra casa quer dizer casa? Minha burrice não chega ao cúmulo da infantilidade para crer que as coisas aconteçam desta forma. Porém, tudo o que o homem acumulou de cultura ao longo da vida vem servido numa bandeja. A gente pega o cálice, levanta o mindinho e bebe sem titubear. Tudo é assim e acabou.

Daí, o fato de falar nos torna seres diferenciados. Mas falar é um tipo de linguagem que só nós, de nossa espécie, conhecemos. A fala pertence apenas aos humanos. Como latido é dos cães. Como podemos ter a cara de pau de dizer que um cachorro fala menos porque late? Nós é que não dominamos a linguagem dele. Ele também não domina a nossa. Por isso tem a fama de fiel. Um cão nunca falará pelas costas. Nem pela boca.

A prepotência do homem em achar que só sabe que tudo sabe o torna mais diferenciado ainda. E aquele papo de que o trabalho faz com que o ser humano se autoproduza é picaretagem. Como pode um ser que se sobressai pela ignorância transformar (entenda-se melhorar) o mundo? Muitos estudiosos afirmam que essa liberdade de consciência que aparece de vez em quando no homem o faz ser a mais incrível e valiosa obra que a natureza gerou. As pessoas não são mais um com o todo. São todos por nenhum. Cada um vive à procura de uma cura e acaba encontrando os problemas que os outros não acharam. Vivem uma vida de outrem porque o lema mosqueteiro se inverteu.

Ser humano e natureza parecem coisas distintas. Como se Gonzaguinha não tivesse sido filho de Gonzagão e que o nome Xuxa fosse escrito com CH (não releve estes exemplos pífios, mas entenda as entrelinhas). As pessoas estão fora do lugar. São diferenciadas. Não melhoradas. Modificadas. Não mais bonitas. Adaptadas. O homem é o filho pródigo da natureza, do todo, de tudo. Calma, não quero que todo mundo volte pra selva e viva como Tarzan. O que está feito está feito. A gente só acha tudo muito cômodo porque nascemos com comodidade. Até nosso primeiro choro depende de uma tapinha. Quem bate no potrinho assim que ele nasce da égua?

As vulgares ilusões de cada dia estão por aí, nas crônicas que uns bobos escrevem, nos livros que esses mesmos bobos lêem, nos jornais e TVs e no boca a boca. Ao invés de ser livre e se autoproduzir, o homem é prisioneiro, pois vive de convenções sociais. Nada mais abstruso. Usar tal roupa para tal festividade. Falar tais pronomes para tais pessoas. Ignorar tais seres humanos por tais condições sociais ou vestes e por aí vai. Muita convenção, muita regra e muito vinho servido nas bandejas, circulando a todo o momento. A gente bebe, fica bêbado e sai por aí qual pândego falastrão escrevendo tratados, dando palestras e ensinando essas galeras, abarrotadas de gente sedenta por vaidade. Esta vaidade é aquela, de achar que somos diferenciados, os ban ban bans da mãe natureza, a consciência do caos, e os dominantes da comunicação.

Aquela imagem famosa de três macacos tapando a boca, orelhas e os olhos, respectivamente, deveria ser refeita. No lugar dos macacos, seriam pessoas. Cegos somos nós. Surdos também. Mudos não, pois ainda sabemos dizer: Sim senhor, não senhor, sim senhor, não senhor…

Diego Schaun, 26 de Janeiro de 2012

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12 comentários sobre “Pândegos que latem por vinho.

    • Caro Diego Schaun, de antemão parabéns.
      Lendo seus escritos percebo que não se trata de mais uma de tantas crônicas “despejadas” todos os dias que desafiam e debocham de nossa inteligência. Você de fato tem uma visão ampla. Conheço seu trabalho a poucos dois dias e já é nítido seu talento. “Admirável o ser que busca sabedoria além do que possui” Em um mundo doente de ansiedade e devorador da praticidade, prender as pálpebras e estalar a consciência é coisa de mágico!
      “Cegos somos nós. Surdos também. Mudos não, pois ainda sabemos dizer: Sim senhor, não senhor….”
      Parabéns pelo trabalho e talento. Conhecer trabalhos como o seu energiza minha esperança de sentir neste mundo louco, orgulho de quem ainda pensa. Que em seu caminho você possa abrir e libertar muitas mentes.
      Energia positiva!

      • Oi, Annielly! A maior satisfação para quem escreve um texto, é perceber que outras pálpebras permaneceram sobressaltadas, quase sem piscar para reconhecer uma percepção de entrelinhas. Resumido: é bom ser entendido. Grato pelas palavras. Energia positiva pra voce também. Apareça sempre!
        Abs, D Schaun

  1. Maravilhoso, rapaz!
    ” O homem é o filho pródigo da natureza, do todo, de tudo. A gente só acha tudo muito cômodo porque nascemos com comodidade.”
    “Cegos somos nós. Surdos também.”
    Vá escrever bem assim lá em casa!
    Parabéns!

  2. Esse lance das convenções ficou bem nítido para mim quando comecei a estudar alemão. Há um pronome pessoal para tratar uma pessoa de forma formal e outro para conhecidos, que já se acostumaram à informalidade. Se você chegar na Alemanha e tratar um desconhecido por “du” (você informal), você é tido como uma pessoa desprovida de educação. Como você não conhece ninguém lá, o correto seria o usar o “Sie” (você formal), para parecer educado e praticante dos bons costumes. É algo meio complexo para minha cabeça limitada.
    Achei bem legais suas reflexões aqui expostas. Um ótimo texto. Favoritado, deveras, o blog.

    Abraço.

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