Honra ao mérito, e não à morte!


Quando eu era criança, achava que o Japão ficava logo depois dos Estados Unidos. Como se o Canadá fosse a Terra do Sol nascente. Até os oito ou nove anos, o meu conhecimento geográfico era semelhante ao dos medievais. Nunca havia lido o Almagesto de Ptolomeu, mas igualmente a ele, eu acreditava numa terra plana, central, aonde os países iam se perfilando um atrás do outro, de forma que com apenas uma rodovia era possível chegar até o fim do mundo, ou o Japão.

Depois que as aulas de história e geografia colocaram minhas teses geocêntricas no canto da vergonha, vi que a ilha dos samurais ficava em outro extremo, bem longe dos Estados Unidos e menor do que eu imaginava. Na mesma época comecei a fazer aulas de karatê. Obviamente precisei saber mais sobre a cultura daquele povo de olhos puxados e de escrita indecifrável. Durante o período em que permaneci nas artes marciais, os clichês de que os japoneses eram sábios, corretos, saudáveis, concentrados, inteligentes e focados foram se solidificando na pasta de respostas prontas que levo na cabeça. E que todos nós também levamos.

Depois que o brilho do catar ficou fosco, e sem mais saber contar até dez em japonês, aquela resposta pronta referente aos orientais ainda continuava vivaz. Posteriormente, quando me interessei ainda mais pelos orientais, com suas religiões e técnicas medicinais milenares, a base sólida ficou ainda mais firme: “Eles são os caras”.

Foi bom enquanto durou. Durante essa semana uma TV brasileira exibiu uma reportagem referente ao suicídio em massa que vem acontecendo no Japão. Segundo pesquisas, a cada 17 minutos alguém se mata na ilha nipônica. O motivo seriam as decepções pessoais. Os japoneses não sabem lidar com a derrota. Uma demissão, uma dívida ou algum pormenor que possa envergonhá-lo perante a família e a sociedade já podem levar o camarada a pensar se ainda é vantajoso viver.

Esse desprezo pela vida ou exaltação exacerbada pela honra vêm de muito tempo. Milênios. Desde eras imemoriais, antes mesmo de Confúcio ou Sidarta Gautama inovarem com novos pensamentos no Nepal, China e demais países asiáticos, os samurais, desde pequenos, já aprendiam a lutar até morrer, e se por acaso perdessem uma simples batalha ou rixa pessoal, era melhor se matar do que voltar para casa “desonrado”. E assim são os japas até hoje.

Segundo um pesquisador, essas pessoas são assim porque são tímidas. “Os japoneses não dividem seus sentimentos com ninguém. Guardam tudo e quando não tem mais jeito explodem”, afirmava sorrindo o pesquisador, que por sinal era japonês. Pensando nisso, um determinado senhor, em Tóquio, montou um consultório, onde a finalidade era ouvir os suicidas. Está pensando em se matar? Ligue para a gente! O idealizador da causa garante que todos os que desabafam com ele desistem de morrer. Boa maneira de ganhar dinheiro salvando vidas.

Por isso que o canto da vergonha, onde estavam as minhas concepções pueris de terras planas, agora abriga mais uma idéia morta, a de que os japoneses são “os caras”. De que adianta saber tanto sobre chips e robôs, ou massagens e acupunturas se um simples tropeço cotidiano já é motivo para tirar a própria vida? O suicídio é muito mais vergonhoso do que qualquer ato. O suicida é tão medroso que não consegue lidar com a vida, que jamais será perfeita. Onde está a honra em se matar?

Penso em nós, brasileiros. Não conhecemos técnicas novas na robótica, nossa história só tem 500 anos, na maioria dos lares ainda se usa o Windows 98 (quando se tem computador), a educação não é como na Suíça, mas se um de nós for demitido, é mais fácil sair da empresa e tomar uma gelada no bar do que se matar. Estou mentindo?

Nós sabemos lidar com o fracasso melhor do que ninguém. Não porque somos fracassados nem acomodados, mas pela coragem que nos abunda. Levamos “porrada” do governo, da sociedade, dos donos do mundo, dos ricaços, do sistema, mas mesmo assim pouquíssimos são os que pensam em tirar a vida a cada 17 minutos nesta terra de Santa Cruz.

Quantas famílias vivem miseravelmente no Brasil? Imaginem se cada uma dessas pessoas se matasse porque não conseguem emprego, ou por não fazerem três refeições por dia… Nós é que somos “os caras”. Não dominamos a acupuntura, mas nossos olhos não são fechados. Nem um pouco. Vivemos com os olhos arregalados, pois os corajosos são os que espreitam o dia a dia com frio na barriga à espera do improvável. Nossa vontade de morrer é tão grande quanto a vontade de viver dos nipônicos. Chorar pelos desmantelos da vida é ser humano. Morrer pelos mesmos motivos é ser covarde.

Diego Schaun – 02 de Fevereiro de 2012

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14 comentários sobre “Honra ao mérito, e não à morte!

  1. Diego, muito atual e relevante esse assunto que você aborda neste seu “Honra ao mérito, e não à morte!”. É a constatação da impotência do racionalismo quando se trata do que é humano.
    Daniel Golleman fala sobre esse assunto em seu livro “Emotional Inteligence” e hoje já se fala também de inteligência espiritual. Como você diz bem neste artigo, o Brasil não apresenta tal tipo de problema, mas não é porque se apresenta com uma população de fracassados ou de despreocupados. A europeização do Brasil, a desvalorização da nossa cultura e menosprezo pelos nossos costumes e pela nossa economia, nos séculos passado, talvez tenham nos ensinado a viver centrados na nossa realidade – e realidade é um remédio salutar para o espírito. Não sendo os melhores, nós aceitamos ser apenas felizes, viver como era possível viver (muitas vezes afogando as derrotas num copo de cerveja).

    Diante disso tudo, vale repensar a educação e promover um sistema de ensino onde as diferentes aptidões das crianças e jovens sejam desenvolvidas, onde se motive o autoconhecimento, o pensamento filosófico, as relações humanas. A escola hoje deve preparar o aluno, não só para o mercado de trabalho ou para o ingresso na universidade – mas, sobretudo, a escola deve preparar para os desafios da vida.

    Seus artigos, Diego, penetram temas atuais e relevantes de forma profunda e consistente, o que proporciona aos seus leitores a satisfação de estar em contato com uma opinião bem fundamentada. Gosto disso.

  2. Sinceramente não tinha pensado nisso com tanta ênfase, talvez vc tenha razão… a timidez seja um fato para que a pessoa se fortifique ao ponto de chegar ao suicídio. Quem pode justificar isso… as estatísticas dizem que morrem mais pessoas vítimas do suicídio do que em guerras. Penso eu, que o que segura um Ser Humano a não cometer o suicídio seja uma crença. Ou talvez, um segundo de reflexão…para não honrarmos a morte.
    Parabéns pelo seu poste, Muito Bom!

  3. Sem palavras, você já disse tudo, digo apenas que nunca tinha pensado até que ponto pode levar uma timidez, e claro, outras coisas contidas neste texto. Parabéns pela belíssima crônica!

  4. É o primeiro artigo seu que estou lendo, e como gostei desse vou ler os outros. Eu vi vários vídeos há alguns meses relatando esse assunto sobre os japoneses e também os chineses. Os brasileiros são fortes e guerreiros, podemos ser vistos fracos quanto ao governo, mas quanto a pessoa eu considero um dos povos mais saudáveis do mundo.
    Parabéns pelo post caro Diego Schaun!

  5. Mais um ótimo texto. Parabéns! Eu já havia visto ou escutado algo sobre esta rigidez que os japoneses têm com eles mesmos. “Errou, morreu”.
    Esta parte de seu texto (“O suicida é tão medroso que não consegue lidar com a vida, que jamais será perfeita.”) me lembrou um livro de Augusto Cury (não lembro exatamente se é o primeiro ou segundo livro da saga “O Vendedor de Sonhos”). Ele descreve da mesma forma um suicida. Eu achei bem bacana esta parte, também. Enfim, o texto todo ficou ótimo.

    Mateus Noremberg

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