Dois patinhos na lagoa.


A arte do desenho é muito diferenciada dos outros tipos de arte. Através dos rabiscos as coisas são reproduzidas. E reprodução, como se sabe, é a essência da humanidade. É bíblico, afinal, está escrito no Antigo Testamento: Crescei-vos e multiplicai-vos! Apesar de todas as características inatas, as pessoas são, logicamente, um desenho de seus progenitores, ou um rabisco do tempo e espaço, do universo ou do cotidiano, que esculpe cicatrizes na esperança de criar algum caráter. Sabe-se lá qual.

As crianças, no início da vida escolar, aprendem a fazer bolinhas com papel crepom, ligar linhas tracejadas para formar um elefante, as vogais ou circunferências. Quando pequeno, também usufruí demasiadamente da conhecida coordenação motora. Tanto que um dia acabei colocando uma dessas bolinhas de papel dentro de uma das narinas. Não me perguntem o motivo. Bem, usaram uma pinça, dessas de delinear as sobrancelhas, para trazer a bolinha do cativeiro pegajoso.

Desculpem-me falar sobre essas reminiscências infantis, mas é que ultimamente tenho pensado muito no processo de crescimento das coisas e dos seres humanos. Logo, acabo revivendo minha própria história. Pequena, cronologicamente, todavia intensa até agora. Lendo um artigo da revista Piauí, de Janeiro de 2012, me martirizei com uma extensa e bela matéria sobre a tão dúbia Comissão da Verdade, do atual governo. Quem teve algum parente torturado e morto na época da outra ditadura sabe bem do que se trata. Que sofrimento essas famílias vivem até hoje. Quantas crianças cresceram sem os pais, sem carro de pau, sem pipa, sem carinho, sem coordenação motora.

Cada perda, por mínima que seja, deixa um espaço. O interessante é que nem sempre o espaço é sinônimo de vazio. Há muitos espaços cheios de nada. Abarrotados de coisa alguma. Existe, também, muito vazio cheio de mágoa. Um vazio visível, denso, impermeável a sorrisos. São nessas lacunas que o cotidiano desenha cicatrizes para que o proprietário delas consiga responder às futuras e indiscretas perguntas que desde cedo já é preparado para ouvir. A resposta é só leitura, só improviso, só corcunda bem “quasimódica”, com medo da pupila vizinha que pode dilatar-se ao escutar lembranças alheias.

Muita coisa eu perdi. Muita coisa se perde. Esquece-se demais, graças a Deus. A salvação da boa convivência são os achados e perdidos do inconsciente. Ninguém vai procurar o que não se lembra de ter perdido. Ninguém esquece que esqueceu, pois já esqueceu. Lembramos somente das marcas que vêm à tona, pois desde pequenos nossa linha tracejada é sublinhada aos poucos pelo lápis do tempo. Esse sim tem exímia coordenação motora. Nunca se ouviu falar em bolinhas de papel nas narinas do tempo. A caligrafia dele não se parece nem um pouco com a apática Arial.

Pelo desenho das pessoas a psicologia afirma que o vazio do outro é visível, menos para ele, em alguns casos. Pela arte de tracejar, o irreconhecível torna-se aparente, sem parentescos, mas reconhecível. Ao ligar os pontos, a confusão torna-se relevante, mesmo que o resultado final seja um elefante. Por isso resquícios da nossa infância nos fazem imaginar que a cada ano, somos mais velhos. Sabe por quê? Porque quanto mais se vive menos se brilha. O brilho está no primeiro olhar. No furor da descoberta. Quando tudo passa a ser apenas verbetes de Aurélios e de Barsas, o olhar dos adultos passa a ter menos cones. Fica tudo cinza.

Mudar de idade, apesar de ser uma tradição, convenção social e cultural, também é uma forma de ficar saudoso com os tempos de outrora. Quando se é criança, cada ano que passa é uma vitória, rumo à liberdade. As marcas do cotidiano só virão à tona mais tarde. Ficar mais velho é importante para ter mais respeito. É a possibilidade de estender os tentáculos em outros lugares. Depois que a gente percebe que não era bem assim, a contagem fica regressiva. Depois dos vinte são vinte e poucos. Depois dos trinta são trinta e uns quebrados e por aí vai. Qual seria a razão? O mundo, que agora é cinza, ou o olhar que não mais percebe as cores que estão bem diante do nariz?

Ainda criança, quando ouvia nos noticiários reportagens que falam algo do tipo “Duas pessoas morrem a cada dois minutos na cidade do México”, ficava contando no relógio o passar de longos 120 segundos. Quando o ponteiro maior cruzava o 12 eu falava: Morreu mais um! Nesses segundos seguintes, à espera de mais dois minutos, imaginava coisas mirabolantes que eu poderia fazer para que na próxima badalada não houvesse outra vítima. Minha mente infantil imaginava pessoas na rua, e de tempos em tempos iam desaparecendo, do nada.

E hoje? Hoje não tenho mais paciência para esperar as mortes. Fico indignado com as fatalidades, mas não consigo nenhuma resposta favorável de contenção. Na infância, não pensava no motivo das pessoas morrerem, e sim no que poderia ser feito para evitar. Bem, falando assim parece até que sou um ancião, que depois de percorrer pela vida, faz agora suas considerações finais sobre o tempo vivido. Antes fosse. Hoje são apenas dois patinhos na lagoa. Ainda quero ser um cardume no Pacífico.

Diego Schaun, sobre o aniversário de 22 anos. (11 de Fevereiro)

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3 comentários sobre “Dois patinhos na lagoa.

  1. Ótimo texto Diego.
    Eu pensava que estava sozinho quando eu lia ou assistia reportagens de estatísticas.
    Não sei você, mas quando criança no dia do aniversário sempre pensava quando faria 18, 20, 26 anos … para ser adulto e agora com 36 anos, penso como era bom ter 6, 7, 8, 9 anos.
    A eterna dualidade humana.

  2. Ótimo texto para reflexão da idade, do presente, do futuro, do passado…20 e pouco, 30 e pouco, 40 e pouco e 50 e muitos anos.
    Apesar de tudo, paz para todos nós!

  3. Você fez nesse texto o que eu procuro fazer também quanto completo anos: refletir sobre o passado. Realmente hoje sinto muita falta daquele período sem nenhum tipo de responsabilidade, em que eu só tinha que ir pra escola, chamado de infância.

    Parabéns, meio que atrasado, pelo post e pelo aniversário.

    Abraço.

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