Batismo de palavras albinas


Depois do bê a bá, nos ensinam que o título só deve ser colocado ou escolhido após o término do texto. Quem nunca ouviu isso antes? Meio estranho. Muito sem sentido ou genial. Isso dá a entender que, depois da obra pronta, contemplada, entendida, ela pode ser batizada. Ainda bem que os textos, às vezes, levam pouco tempo para serem escritos. E se fosse assim com as pessoas?

Minhas pífias redações escolares, inclusive a do vestibular, eram fiascos, assim como os meus textos em si. Não seguia, nem sigo todas as regras e a caligrafia não era das melhores. Possivelmente os professores eram discípulos de Champollion e decifravam aqueles sinais que eu fazia com o lápis. Pior do que isso era o fato de permanecer horas escolhendo o título com a página em branco. Veja só, redigir um texto sobre um tema é até fácil. Mas, além de haver um tema específico, ainda aparecer um título de brinde, a tarefa de preencher a página em branco torna-se um desafio.

Com os seres humanos as coisas acontecem da mesma forma. Nossos nomes são os títulos, que nos são impostos antes mesmo de sabermos falar, reagir, interagir e saltar parágrafos. As pessoas são denominadas quando ainda são páginas em branco. Que risco! Porém, não poderia ser diferente. Quem é que esperaria viver a vida inteira para ter registrado o nome, pela primeira e derradeira vez, na lápide sepulcral?

A literatura barata e outras fontes de ficção pela rede perpetuam nos baldes, mais conhecidos como cabeças vazias, as fabulosas idéias de origens, significados e possibilidades nos milhares de nomes existentes. Os Franciscos geralmente são mais peraltas que os Otavios. Leonardos são hiperativos, enquanto que os Pedros são introspectivos. Se tudo isso fosse real, anexar um nome num bebê era como traçar o caminho do mesmo sem deixá-lo caminhar. Seria um texto escrito numa página em branco, com canetas transparentes.

Cada um é um texto. Um livro. Um codex. A diferença entre nós (pessoas) e as dissertações é o tempo para organizar os fatos e perfurar a folha com um ponto final. O texto, depois de escrito e finalizado, é batizado. Aqui jaz "A saúde municipal". O autor lerá a obra, o filho, a crítica e ressoará sua história para outros pais. Todavia, a aventura humana acaba quando nós, construtores de nossa história, escrevemos as últimas linhas da folha outrora batizada. Só os outros saberão o final do livro.

Entretanto, mesmo no último suspiro, a certeza de ter tido um título, um signo, um sinal, ou simplesmente um nome é real. Mesmo os analfabetos, sem saberem como escrever o próprio nome, sabem como eles são. Em quantas formas se escreve Maria? Com quantas linhas se faz um João? As digitais às vezes estão nos dedos e nunca mudam. De longe, todo polegar é igual. Mas as impressões não são as mesmas e estão em todos os lugares, bem além do tato.

A redação tem de ser escrita em pouco tempo. A vida também. O texto vai ser lido, avaliado. A vida também. Texto e vida serão observados pelos outros, pelo céu, pelos códigos religiosos, pela lei, enfim, pelas vidas. Cada livro ou pessoa vive de frente para o espelho. Um reflete o outro, julga a imagem que vê e a que não vê. Título não dá certeza de nada, só da existência. Que maravilha! Existe prêmio maior em saber que existe? Claro que não! Descartes estava certo. Diversos textos terminam sem existir. Pessoas também. Muitas têm títulos e subtítulos, mas também não existem.

As palavras albinas estão por aí. Elas apenas informam, pois não têm cor. São preposições, adições simples ou acentos sem necessidade. Entretanto vivem, quase sempre como títulos. Há muitas pessoas batizadas com nomes albinos. Na verdade, todo mundo é batizado com uma palavra albina. A vida é que dá a cor. E no final das contas, aquele que existiu morre colorido. Calma, não foi isso que eu queria dizer, mas disse.

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