As engrenagens fornecem pontos sem vista


O que faz o homem ser igual a tudo é sua capacidade de mudar. Tudo muda. O homem muda. Entenda-se mudar com mudança e não com melhoramento. Mesmo com tantos estudos sobre o bem e o mal, o melhor e o pior, o certo e o errado, escolher qualquer uma dessas opções tornam desnecessários estes trabalhos. Sabe por quê? Porque o homem muda. Tudo muda. Inclusive as concepções antagônicas.

Sempre gostei de fazer as coisas sozinho. Por isso também mudei só. E mudar só é deleite de semântica. Só mudei só! É lindo ver pessoas que movem montanhas, que influenciam massas e estampam capas de livros. São pessoas que não quebraram o protocolo! Mudaram sós os sóis e mudaram os outros, com beleza, clareza, esperteza, inteligência, mas no fundo, sem melhoramentos.

Algumas palavras, quando aprendidas, ficam no vocabulário por algum tempo. Entram em qualquer assunto, tudo para tentar enriquecer a fala de alguém que muda, e às vezes quer mudar o outro, ou modificar a imagem que o outro vê de si, ou transladar concepções interiores, ou nada. Só tempo jogado na lama.

Quem nunca quebrou um carrinho ou boneco quando pequeno para ver o que tinha dentro? Fiz isso com verdadeiro profissionalismo. As engrenagens fascinam, pela perfeição do encaixe, pelo labor contínuo, pela constância (até que a pilha lhe apresente cansaço), por ser diferente. As rodas dentadas não mudam. São as únicas. E a mudança de outrem incomoda os que mudam solitariamente.

As pessoas precisam consumir porque saco vazio não para em pé, pois não tem pernas. O bípede, apelidado sapiens sapiens, sabe que tudo é vaidade. Salomão acertou quando disse isso em seu Eclesiastes. Os problemas sociais que estão nos acompanhando por gerações são frutos da vaidade. Como? O homem quer ser imutável, para ser fruto de cobiça dos outros. Os outros, que reconhecem (de vez em quando) que ninguém muda, acabam também mudando para parecerem iguais àqueles que acham que são sempre os mesmos.

Todo esse papo idiota é uma tentativa frustrada de dizer que cada um tem um espelho na cara. Ou seja, ninguém se vê. Os espelhos refletem-se, e esse reflexo é nada mais que vultos que voam, que mudam. São sacos vazios, amputados. Por isso não ficam de pé. O homem só deseja o que não quer. Almeja ser o que já é. Como dito acima, ninguém se vê. Os espelhos, apenas eles, olham a si mesmos nas caras espelhadas, toda hora.

Por isso tudo se complica, melhor dizendo, se acomoda. Acomodar-se é essencial, principalmente quando o dia a dia é uma vivência real da caverna de Platão. Roubos no governo, desvios de verbas, violência em massa e demais casos corriqueiros são ocasionados pela ambição. O homem quer ser o outro, e não entende que o outro é igual a si mesmo. O resultado de tudo isso é essa busca pelas engrenagens, motores, robôs, rodas, energia e demais abstrações essencialmente imprescindíveis sem necessidade. Essas coisas não mudam, não tem cara, muito menos espelhos no rosto.

Por fim, o que causa essa constância, esse eterno retorno, ouroboros diário, é a indispensável e ao mesmo tempo desnecessária busca por soluções. São problemas demais. E a existência do problema é a prova de que o homem muda. Tudo muda. Logo, viver é causar problemas e problemas são bons. As engrenagens são apáticas, porque também são constantes, mas sem variações. O homem vê curvas em quadrados e ângulos retos num círculo. Buscar ser o outro é ser igual a si mesmo sem saber. A maldade está em cada um, como o bem também está em todos.

Sem blá blá blá de auto-reflexão ou análises existenciais, resta apenas terminar o texto com um ponto de seguimento. Ele não tem nenhuma discrepância com os outros pontos, principalmente com os de vista. Não compreender é outra forma de compreensão. Apenas tirem os espelhos dos rostos. Dessa forma não se consegue ler. Também não se lê somente com olhos e mãos. Todavia, os ouvidos falam.

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