Atualmente, o comum é raro.


É comum ouvir relatos sobre as coisas inatas. Todo bicho, todo ser vivo e morto apresenta características únicas ou algo que os diferencie dos outros. A índole faz parte de todo esse aparato. Muitos dizem que é por ela que se reconhecem as discrepâncias entre os seres.

A TV anuncia a toda hora os diversos acontecimentos no mundo. A gente se acostuma com o que ouve e acaba tornando crível e aceitável qualquer palavra proferida. Inclusive as ruins. Por isso, desde pequeno, o homem aprende a fazer o bem esperando um merecimento. O prêmio do sorvete no final de semana, a medalha de bom comportamento, a estrelinha na testa e um céu de premiações.

Esse aprendizado faz da criança um adulto responsável, de bom caráter, boa índole e, na maioria das vezes, consciente e pio em seus conceitos, aprendidos desde tenra idade. Afinal, quem é bom se destaca, e quem se sobressai aparece para o mundo ao seu redor. O pescoço já trepida, num nervosismo conhecido porque anseia pela medalha de elogios, ou a honra dos olhos complacentes, fitos no bem feito, no exemplo, no paradigma.

Claro, nem todos são assim. Se o bem só fosse feito pela espera de uma recompensa não existiria o bem verdadeiro. Sim, o bem verdadeiro é de verdade, existe, flui, mesmo que quase nunca seja visto ou notado. Porém, para que a minha afirmação tenha mais contundência referente à busca de reconhecimento, uso da observação do dia a dia.

Certo dia, seu Francisco estava a caminhar, apressado pela rua. Ia atrasado para o trabalho. A condução tinha empacado por causa do trânsito. Por obra do destino, sua carteira cai do bolso de trás. Ele não percebera, e o jovem Pedro, que também se dirigia ao trabalho, viu toda a cena, pois vinha em seguida. O jovem pegou a carteira e apressou os passos, tentando acompanhar o seu Francisco, que já ia adiante, sem notar o ocorrido. Ao tocar o ombro do homem, Pedro disse: “Ei, senhor, sua carteira caiu!” Seu Francisco, com espanto e medo, responde ofegante: “Nossa, que coisa! Nem percebi! Muito obrigado, viu? Tome aqui vinte reais!” O moço, com ar de satisfação, afirma que não quer nada e vai adiante, deixando o homem parado na calçada, ainda surpreso pelo acontecimento já abençoando a índole das pessoas. Pensou tão alto que proferiu baixinho: Ainda tem gente boa neste mundo!

Iniciei o texto falando sobre as características inatas das coisas e do Homem. As religiões, as profecias, estudos e mais estudos e até a própria ciência, laica e ateia, acredita que a bondade existe em grande potencial dentro das pessoas. Logo, a pessoa já nasce com a possibilidade de ser bom. Resumindo, não há mérito em ser bondoso. Ser bom é apenas mais uma característica do homem, como cor dos olhos, da pele, cabelo, voz… Ninguém é elogiado por ter unhas. Pelo menos eu nunca ouvi alguém dizendo: “Nossa, parabéns! Não se veem pessoas com unhas todos os dias!”

A gente elogia o outro por bravura, por honestidade, pela índole esquecendo que tudo isso faz parte de todos e que todo mundo pode ser assim, se quiser. Já nascemos bons. A vida é que traça a criação e educação dos seres. Ajudar alguém, entregar algo perdido ao dono, trabalhar honestamente não é motivo de honrarias. É simplesmente o ser humano em atividade, pelo menos era pra ser. A gente agradece por educação.

Mérito por bondade é o resultado de uma sociedade que desaprendeu sobre si mesma. As pessoas não sabem mais quem são nem o que podem fazer. Alguém que acha dinheiro no lixo e entrega ao dono vira capa de revista. Isso é um sinal de que o Homem só está trabalhando outras potencialidades inatas, ou seja, a maldade, o suborno, a chacota, a inveja e essas também viram notícia. Quantas vezes mencionaram crimes ou assassinatos nos jornais durante essa semana? Pois bem, é nada mais que o ser humano em atividade novamente.

No dia em que as pessoas voarem, respirarem embaixo d’água e reconhecerem o outro como espelho de si, aí sim podem fazer alarde e estamparem nas capas de todos os jornais: Pessoas fazem coisas diferentes! Medalhas já!

Diego Schaun, 08 de Março de 2012

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6 comentários sobre “Atualmente, o comum é raro.

  1. “Ser bom é apenas mais uma característica do homem, como cor dos olhos, da pele, cabelo, voz… Ninguém é elogiado por ter unhas.”
    Nossa Diego, falou e disse! “Atualmente, o comum é raro.” O tílutlo já fala por si. Está tudo tão previsivelmente negativo que qualquer diferença é ressalto… Acredito estar vivendo num mundo de avessos onde as pessoas acreditam que estar do lado oposto é estar do lado certo. Como usastes no exemplo, estamos tão treinados a esperar com escudos um ato de canalhice que quando nos deparamos com a bondade ela nos apavora, intriga, causa desconfiança. E que mundo é esse? O mundo onde se cria todos os dias mais repetidores de idéias que pensadores, um mundo que treina o comodismo e repreende o questionamento. Mais uma vez, é sempre um prazer ler um escrito seu. Como disse certa vez, você consegue decifrar em palavras os pensamentos mais gritantes de uma humanidade que ainda pensa. Obrigada… Bjus.

  2. O mudo ao avesso… ética, moral, princípios, valores da família…
    fruto da mídia consumista, tendenciosa e cruel.
    Fazer a sociedade ver é fácil, entender é que é difícil.

  3. Após os insistentes apelos do seu simpaticíssimo tio Magno, taxista que tive a honra de conhecer em Porto Seguro, para que eu buscasse ver o trabalho do sobrinho poeta e multi-instrumentista que ele tinha, não pude deixar de dar primazia à procura pelo seu espaço virtual, assim que me vi em frente a um computador com internet, em Jequié. Parabéns pelo texto e pelo blog inteiro. Pelo bom gosto e esmero na confecção dos escritos.
    Também anseio pela re-humanização dos homens, por meio do reencontro do indivíduo com ele próprio; pelo resgate da propriedade do que se é no mais profundo, para que o altruísmo, a solidariedade horizontal e o respeito por si, pelo outro e pelo mundo natural não sejam exclusividade de santos, mártires e capelães, mas qualidades de todos os que nasçam homens ou mulheres, integrantes da raça humana. Entretanto, tudo isso só será possível, se passarmos por um processo de Educação Estética do indivíduo aprendiz, formação que é intra e ainda mais, extraescolar.
    Abraços!
    Eliel.

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