Projac e Congresso. Os filhos da Loba.


Em 1995, a Rede Globo inaugurava no Rio de Janeiro o Projeto Jacarepaguá para ampliar seus projetos sempre pretensiosos, gigantescos e cheios de holofotes. A partir de então, as novelas, os seriados e demais programas globais são fabricados nesta cidade dos sonhos, mais conhecida como Projac. Só o meio artístico circula por ali. Aliás, os BBBs também estão por lá, ou seja, nem só o meio artístico perambula pelas redondezas. Como todas as novelas globais são realizadas neste imenso local, estar no Projac e não ser ator é como ser brasileiro e não saber votar.

Um local semelhante ao Projac é o Palácio Nereu Ramos. Foi construído bem antes que o “projeto” da Globo e arquitetado pelo secular Niemeyer. Lá, também, só habitam artistas. Desde as últimas eleições presidenciais, a população artística da casa aumentou consideravelmente. Jogadores, padres, pastores, palhaços, atores, lutadores e outros “ores” passaram a ocupar as concorridas cadeiras do set de gravação, digo, Congresso Federal.

Rômulo e Remo, segundo a mitologia romana, mamaram nas tetas de uma loba. Cresceram com pais adotivos e mais tarde, depois de matarem Amúlio, fundaram Roma, sendo Rômulo o seu primeiro rei. Estes irmãos gêmeos foram criados juntos e cresceram unidos. Todavia, em um momento, quando o poder chegou às mãos de ambos, houve briga, sangue e a morte de Remo. Resumindo, um sempre se sobressai ao outro. No Brasil, o Congresso saiu na frente, deixando o Projac pra trás.

Bem, os atores das telenovelas brasileiras roubam, matam, usurpam, traem e morrem só de mentirinha. Já os artistas que trabalham, melhor dizendo, que caminham pelo Palácio Nereu, também dão um show de interpretação. São cenas incríveis, com o texto decorado e bem afiado. Os telespectadores param tudo para assistirem cenas de esperança, promessas de prosperidade e de afeto mútuo. Porém, como sempre acontecem nas tramas, o poder, a gana e o dinheiro tornam-se chamarizes e os vilões atacam, roubam, matam, traem e vivem bem. Pois é, eis uma diferença entre as telenovelas (falidas) e o congresso (em ascensão). No Projac, dá tudo certo no final das contas. Já em Brasília, também dá tudo certo, só que no final nós que pagamos as contas.

Tudo é produzido para dar uma relaxada no stress cotidiano. Se as pessoas não pararem um pouco de frente da TV para assistirem os filmes, as novelas, o futebol e as papagaiadas dos políticos, o mundo vira um caos. Isso é sério! Se acabarem as novelas, o Brasil vai por água abaixo. Se extinguirem a corrupção, o Congresso será um inferno. Se ninguém cobra os políticos com toda essa roubalheira, imaginem se todos, ou quase todos os homens públicos fossem honestos? Brasília iria parecer uma cidade fantasma do velho oeste. Ao invés de carros importados circulando, só fenos cruzariam as avenidas.

Mas tudo tem uma solução. Como diz um velho ditado, “pra tudo se dá um jeito”. Para o povo não ficar aflito e esquecer as calamidades públicas, por obra do acaso, do sobrenatural, do além, toda eleição presidencial no Brasil é precedida pela Copa do Mundo. Claro, quem é que vai se preocupar com alguma coisa menos importante do que marcar na tabelinha da copa todos os jogos e seus resultados? Só os loucos! E no processo eleitoral municipal? O que fazer para ludibriar e matar o tempo? Depende de cada cidade. Em São Paulo, por exemplo, o tempo é assassinado de diversas formas.

De uma coisa se tem plena certeza: Não são apenas três novelas noturnas, são várias, em variados horários da programação! E não vale à pena ver de novo! Outro dia, assisti um belíssimo ato do ator Roberto Jeferson, contando a história de Jesus Cristo e de sua penosa traição pelo discípulo Judas. Segundo Jeferson, que falava com uma voz pia, copiosa e ao mesmo tempo sorridente, Judas é como um político corrupto que trai o povo (Jesus). Ao final da cena, ri muito. Esse é o diferencial da teledramaturgia produzida no Palácio Nereu Ramos. Lá, eles não precisam da sonoplastia, que solta vinhetas de risadas ao final das piadas em programas de humor. Afinal, quem é que sabe quando uma piada começa ou termina nestes programas “humorísticos”? Pois é, nas novelinhas bissextas do congresso não existem vinhetas de risadas. Nós entendemos a piada bem antes do fim e rimos muito, pra não chorar.

Diego Schaun, 15 de Março de 2012

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