Ensaio irrisório sobre porcentagens vagabundas


Ruim seria ser zero por cento. Sim, seria muito ruim. Mas, indo ao âmago do que seria zero por cento e com tudo o que a sociedade construiu, estar na bola da porcentagem é lucro ou brinde da vida. Sabe por quê? Porque tudo que a gente faz foi acúmulo de aprendizado, vivência, escuta, sonho… Isso acontece desde a saída da piscina amniótica.

Até que ponto aquele acorde é meu? Será que sou o único a rimar robótica com caótica? Tudo que se faz é influência, e no fundo é confluência para a construção de cada nó da mortalha. O mais difícil não é perceber onde está o calçado que a Lady Gaga usou ou o corte de cabelo que o Neymar fez na semana passada. Tudo é dúvida. Aonde estou em minhas palavras? Onde fiquei quando dei a minha mais pia e contundente afirmação? Eu era o ouvinte ou os dedos cruzados atrás das costas? O todo à margem.

Mais difícil do que encontrar uma agulha num palheiro é encontrar-se até o último suspiro (não que o último suspiro seja a meta, nem o alvo, muito menos lugar de encontro). Tentar achar a minha porcentagem seria como sair em busca desenfreada pelo grão de areia que se encontra num mar de alfinetes. Mesmo sabendo ser possível uma resposta favorável, o dolo de fazer tamanha empreitada não é maior que o de pagar uma promessa de joelhos por um time que subiu para a 3ª divisão.

O que tem de mim neste texto, por exemplo? Nem as palavras são minhas. Nem a forma ou o sentido. E o sentido? Quem sentiu que a paz se escreve com três letras? E o ar? Por que "vento" para denominar o movimento do puro ar? Vento? IN-ventos… Não sou da geração dos primeiros, dos protos, dos fenícios ou medos. Qual a congruência de "before" com "no more"? Ou café com fé? Finais iguais para a incompreensão e cal para paredes rebocadas.

"Quem for cem por cento nunca foi". Zero por cento pode ser agressivo demais. Não que eu seja duro, nem pessimista. Um por cento está de bom tamanho. Descobrir o ínfimo de si é a tarefa mais difícil que existe. Quem achar seu um por cento encontrou o mapa da mina. A trilha, o X, o baú e o ouro, estes são de antepassados que também eram frações de cem.

Todo texto, por mais ininteligível que seja, ocupa espaço no vácuo coração. Alguma frase se sobressai. Conjeturar vagabundo o desconhecido é o mesmo que ficar na margem de erro. Nada mais ou tudo menos que ser vil. Viu?

Ser um com os outros não soa apenas como apelo religioso, focolarino ou bíblico. Ver o mínimo no máximo é o máximo, como o topo do vale. Um pico abissal é mais quociente que a insanidade. Resto ou diferença seria o mesmo que pagar a língua com a loucura de Seward. "Eu conosco" faz sentido. É boa influência. A menor possível.

Classificar os animais com números é nossa aptidão. Inventar termos e separar o joio do trigo é milenar. Jogar no lixo o que ainda está por vencer só por falta de educação faz de quem o faz um fazedor. Nada mais. Ninguém se importa. Menos de zero por cento. Invalidez. Tempo queimado. Ato de gaudério. Autoafirmação da condição genérica do homem. Todos são o que eram. Os que agora são, serão porcentagem sem importância. Só a merda fede a cem por cento. Os banhados a sândalo são invisíveis, como aquele trabalhador que apanhou na madrugada ou os quase 160 inocentes que morreram durante a greve na Bahia. Esses não fedem nem cheiram.

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