Status quo: Pastoral da arte e a multimistura.


 

Quem gosta de arte, apenas gosta. Não precisa de rodapés explicativos. Amantes de boa música só ouvem e se satisfazem com os pensamentos que a melodia recruta. A verdade de qualquer coisa é lisa e cheia de espinhas. Cravos e marcas de catapora olham fitos, calando as bocas que indagam. Quem é de verdade palpável não se explica. Não mostra o que tem nem o que sabe. Os que fazem se mostram sem fazerem nada. Redundância sem ambigüidade.

Algo produzido uma única vez é reproduzido a todo tempo. Entenda-se reprodução como cópia alterada. As canções escritas no século passado causam sentimentos antagônicos aos de outrora. Daí, o artista que compôs uma única vez, compôs a vida inteira, porque a cada olhar, a cada ouvido que é fisgado pela melodia cheirando a naftalina, a canção se refaz, continua a mesma em outras águas. Devir filosófico. Efeito do tempo. Mudança de textura.

A arte nunca se esgota. O artista não é a arte. Faz parte dela, mas não é a própria. A ars latina se apresenta tão pobre em sua literalidade. Habilidosos? Transmissão de ineditismo? Paupérrimas classificações. O homem, que tem sede de mostrar-se, vomita modelos do que carrega dentro de si. Que seria a arte senão vísceras egoístas, não catalogadas pela falta de interesse no desconhecido?

Monalisa poderia facilmente ter vivido longos meses no pâncreas de Leonardo. O ouro de tolo estava só na cabeça de Raul, espremido no bulbo, louco para brilhar. Farda, fardão, camisola de dormir se divertia no coração de Jorge, só esperando a hora para ser espirrada na senilidade da Academia Brasileira de Letras. Ou seja, cada obra já vivia nestes corpos. A sua idéia revolucionária já está aí, atrás de sua pálpebra esquerda. Na hora certa cairá na esclerótica leitosa como um cisco sem importância, que nos dá lagrimas em momentos inoportunos e agonia quando se vivia em paz. Os insights aparecem assim!

Depois da banalidade da “comunicação”, a arte só passou a virar arte com código de barras. Fezes ao chão apenas rescendem repugnância. Se houver chip embutido e assinaturas famosas, miraculosamente os clorofórmios tornam-se obra. Nada mais justo. Afinal, esta arte já havia percorrido longos caminhos delgados, qual Pheidippides que ao chegar a Atenas disse: Vencemos! Será mesmo? Saindo da cloaca a obra tem formas abstratas e a medalha de honra pende no pescoço do artista.

Não se ofenda com as palavras. Manoel de Barros, em seu texto “escova”, mostrou como aprendeu a escovar as palavras para poder escutar o primeiro esgar de cada uma delas. A gente se confunde e atira pecados em pedras inofensivas, inexpressivas, sem sopro, sem anima, sem nada. Acusa a incompreensão. E assim, o burro paga até hoje pelo penoso sinônimo. A gente se livrou dessa vez. E na próxima?

Quem vive de arte, seja escrita, desenhada, cantada, esculpida, interpretada, dançada ou sonhada, entende que aquilo que sempre foi sempre será. Além da carência de vitaminas, paz e educação, as pessoas têm carência de arte. O problema é que trituram tudo e fazem uma multimistura da arte. É boa para engordar. Só pra isso. Os que amam a verdadeira ars vivem raquíticos. São desnutridos, com louvor.

 

Siga o músico Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

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