Saudosismo oitentista.


 

Ouço com alegria os dizeres de meu pai. “Ah, no meu tempo a gente ouvia RPM, Engenheiros, Lulu e Ritchie.” Em minha cabeça surge uma nuvem de imagens, numa tentativa de rememorar os anos 80 que nunca vivi. Penso nos calçados que não calcei, na moda que não usei, no cabelo que não cortei (até hoje) e nos games que não joguei.

No YouTube existem vários vídeos que retratam objetos, músicas, programas, brinquedos e desenhos animados que existiam nos anos 80. Quem viveu esta época e que por ventura assiste um destes “documentários” sempre dialoga sem parar, afirmando à cada imagem, o que fazia com aquilo ou se tinha ou não tinha tal brinquedo.

Nunca assisti um programa do Chacrinha. Só conheço a voz dele e os apetrechos através de vídeos, também da internet e de imitadores na TV. Era um grande comunicador e está eternizado no imaginário de milhões de pessoas. De fato, tudo o que se produzia antigamente têm um ar de “eu te avisei”. Os antepassados são sempre melhores. Pelo menos assim se prega.

Quase todas as avós falam que no tempo delas, as escolas eram mais rígidas e porque não, melhores. A palmatória resolvia tudo. Não sei se acabava com o bulliyng, mas fazia a meninada correr para a tabuada e decorar perfeitamente o resultado de seis vezes sete. Sete vezes. Setenta vezes sete.

Eu, pobre mortal, que vim ao mundo logo depois que a era tudodibom havia passado, onde a maioria das bandas de sucesso dos oitenta ou pararam ou haviam dado um tempo, cresci sem Cazuza, sem Raul e sem muita gente. Porém tive a honra de nascer no dia em que Nelson Mandela fora libertado da prisão, depois de décadas padecendo injustamente na luta do apartheid que todos conhecem. Era um domingo. Iniciei a vida no dia do início, onde haviam feito justiça no mundo e uma nova década se iniciava. Bom presságio.

Mesmo assim, os devotos dos anos oitenta ainda me dão uma inveja terrível. Adoro ouvir as bandas deste período. Me deleito lendo relatos de testemunhas vivas das diretas já. Muitas vezes ouvi minha mãe dizer que participava de grêmios estudantis. Eles ainda existem, sem contar o de Porto Alegre? Se sim, o que fazem?

Olho para o espelho e imagino cenas intrigantes em relação ao futuro. Meu filho me perguntando “Pai, o que você ouvia quando era jovem?” O que irei responder? Parece brincadeira, mas é algo sério. Tudo bem, o passado não era assim tão bom e toda época teve seus altos e baixos. Tenho medo da facilidade das coisas. Tudo está na rede. Basta clicar. Não há como esconder nada ou aumentar a história para dar mais ênfase. Dá medo!

Tive uma ideia e passei a pesquisar (obviamente) no Google assim “Músicas da atualidade” e, depois de milhões de resultados encontrados, cliquei no primeiro link. Na bucha! Vi artistas interessantes, ouvi músicas já escutadas antes e achei muita coisa legal, mas percebi que não era o que eu costumava ouvir.

Tanta banda surge à cada dia que ser ouvido pelo mundo é um privilégio que poucos tiveram ou terão, que o diga o finado, desaparecido ou lendário Michael Jackson. Na Papua Nova Guiné existem fã clubes do Michael que sabem até a cor do cinto que o pai usava pra bater nele no início do Jackson Five. Alguém duvida?

No futuro, logo ali, quando meu filho fizer aquela pergunta acima, responderei: “Eu ouvia o que meu pai ouvia”. Se ele for perspicaz, perguntará: “E o que meu avô ouvia?” Responderei na lata: “Música dos anos oitenta!” Neste futuro, a musicalidade do infinito na vertical será quase uma jovem punk guarda. Em 2020 ouvirão Paralamas do Sucesso como se ouvem Celly Campello nos dias atuais? Não no conteúdo. Só na forma. Será? A gente escuta The Beatles e sente um mundo preto e branco, quase colorido. Em 2020 a gente escutará em 6D? São perguntas que só poderão responder quem viver. Vivi os 90. Senti os 2000. Mais tarde também serei saudoso com a minha época. Mais tarde.

 

Siga o músico Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

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