O governo dá o peixe mais uma vez. E nem é Semana Santa.


 

A última coisa em que alguém pode pensar antes de morrer é no pensamento. Porque quando se vai, de uma vez, não se pensa mais, nesse instante, daqui a pouco, logo mais. Existem coisas que não se pode deixar para mais tarde, e sinceramente, pensar no que pensar na derradeira hora é algo que nos dá aversão.

Outra versão, nada nova, repugnante aos olhos de muitos, é a canção Brasil Carinhoso da presidenta Dilma. Uma música embalada, chorosa como as rosas de Cartola e engraçada feito as canções de Zéu Britto. A miséria brasileira é tão problemática, arcaica, triste e pesada que tentar solucioná-la é quase impossível. As coisas são fáceis de entender, mas na prática, tudo fica confuso. Ideia errada, execução picareta.

As pessoas têm fome e fome não espera. As pessoas têm sede e não chove. As pessoas não estudam e não se sabe o porquê. Faltam escolas? Talvez. Incentivo zero? Também pode ser. Para não deixar o povo na miséria, a solução é enviar mais dinheiro, por sinal, pouquíssimo, para que essas crianças comam e os pais durmam tranquilos. Com 70 reais por cabeça se volta pra escola? Essa quantia mata a fome mensal? Não, mas ajuda. Ajuda em quê? A comer a mais durante a semana? E na semana que vem?

A vida da Dilma não é fácil. Ela vive entre a cruz e a espada. Deixar o povo morrer de fome? Não dá. Gerar empregos? Não dá. Aumentar a escolaridade? Dá sim. Aprovar o aluno de qualquer jeito? Também dá. Vagas no mercado de trabalho? Existem. Pessoas capacitadas? Não. Elas ficam sem emprego? Também não. Profissionais qualificados? Jamais. Quem sofre? O povo, como é de praxe. Mas por que o povo sofre? Por culpa do povo. Como assim? As pessoas só dão o que recebem. Se eles ganham miséria quando pequenos, produzirão miséria mais tarde. Se não estudam, não aprendem. Se vão pra escola e concluem o ano sem saber escrever o próprio nome, o Brasil ganha em números e perde em qualidade. Mas quem liga para qualidade? O Inmetro?

Erradicar a miséria é um pensamento nobre. Quando o homem se preocupa com o outro, sofre junto, ou seja, com passio por alguém, a espécie se sobressai sobre as demais e se faz jus ao sapiens sapiens que levamos de sobrenome, mesmo sem merecermos.

Os críticos do governo irão dizer que mais uma vez o PT deu o peixe e esqueceu a vara. Coerente! Até quando o povo irá receber sem nada produzir? Mas o que eles podem produzir? Qualquer coisa. Não se pode esquecer da qualificação profissional inexistente. A digital também assina, segura em bisturi, controla o trem e com a mão macerada de calos abençoa e diz: Amém!

Os defensores das bolsas genealógicas afirmam que não se pode deixar o povo morrer de fome. Lindo tudo isso. Fome dói. Mas até quando se vai matar a fome? Ela nunca vai acabar. Os entendidos das coisas públicas falarão: “Existem muitos projetos de capacitação profissional”. Nós sabemos disso. Porém, como levar esse povo até esses locais? São tantas questões, e essa última, por exemplo, é tão pueril que até senti pena de mim pela pobreza do meu pensamento.

Quem é que queria estar na pele da Dilma? Ninguém. A presidenta segura uma batata que vem torrando há séculos. Já deve ter queimado a mão, coitada. Será que ela, quando coloca a cabeça no travesseiro consegue ter paz? Será que clama ajuda do sobrenatural? Um pouco difícil para uma agnóstica. Pode ser que ela ligue para o Lula, ou para o Gilberto Carvalho, ou até mesmo para o Genuíno. Alguém há de ajudar a presidenta, mesmo que tragam outros nomes de peixes diferenciados, para variar os nomes das bolsas.

Ah se tu soubesses, Pixinguinha, que um dia sua canção iria ser título de um projeto “alevino” do Governo Federal. Muitas pessoas que não usufruem das bolsas do governo, também sem respostas para tal problemática, continuarão a admirar de longe o Brasil Carinhoso que canta feito um viúvo copioso: E os meus olhos ficam sorrindo, e pelas ruas vão te seguindo, mas mesmo assim foges de mim. Ah, Brasil, você está fugindo de si mesmo. Socorro!

 

Siga o músico Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s