A rouquidão dos Aladins. Uma crônica.


 

Outro dia refleti sobre a rouquidão. É claro que o assunto é sério, porém a crônica é muito irrelevante. Não quero ser nenhum gênio, com insights esplendorosos e comentários significativos sobre a política atual, a lipitude dos gregos ou das sete quedas de Cachoeira. O mundo está saturado de Aladins. Para cada um, existem trinta lâmpadas com três gênios oferecendo milhões de soluções sem almejar qualquer desejo.

Quando a gente fica sem voz, a percepção que os outros fazem do nosso caráter é de inferioridade. Alguns até lacrimejam, ao ouvir o ruído arranhado e soprado que sai da boca dos roucos. Isso acontece porque a voz é a personificação do caráter de cada ser. Um som estranho, dificultoso, besta sem querer, acaba rebaixando o interior daquele ser que por hora tem a garganta desafinada.

Existem diversas maneiras de ficar rouco. A mais comum é o silêncio. Os tímidos são roucos por natureza. Falam o desnecessário e quando se expressam emitem jatos tétricos, falhados, reduzindo o já irredutível ego medroso. Os que gritam demais também perdem a voz. Só a voz.

Rouquidão por medo, insatisfação ou reação por adversidades é um claro sinal de que o homem sempre acaba morrendo pela boca. A gente fala por carência de atenção, grita de alegria, chora, come, beija, ri e boceja, quando o sono chega. A voz é o RG da personalidade. O que fazer para não ficar rouco? Ninguém sabe.

Às vezes as nossas cordas vacais travam. Creio que elas são semelhantes às cordas de violão. Com o tempo elas vão enferrujando, perdendo a tonalidade, o vigor, e ressoam por poucos segundos, após tocar um acorde solto. Algumas pessoas, já com idade avançada também perdem a voz. Não por falarem demais.  É que a vida já se encaminha para o fim. E como todos sabem, o fim é mudo.

Ficar rouco é como que morrer um pouco. Falar é um suplício. Cantar? Nem pensar. E tudo isso tem um sentido nobre: Silenciar para sarar. O silêncio é um ato fino. Ouvir os ruídos do mundo, as vozes que ainda não estão roucas e os brados dos Aladins são exercícios saudáveis, que encaminham os sensatos à verdadeira escuta: a do ego, aquele que se diz irredutível!

Quando eu era criança, forçava muito a garganta para falar. As veias ficavam muito alteradas e parecia que meu pescoço ia explodir. Tinha um gênio forte. E pior, meu gênio não era azul e nem saía de uma lâmpada. Eu mesmo queria ser o gênio para realizar meus desejos. Moral da história? Ficava rouco, e isso acontecia frequentemente. Mais tarde refleti que o bom de não ter a voz por uns dias é a possibilidade de ouvir as outras vozes e falar de outra forma, sem usar a boca.

Confesso que ainda não me sinto à vontade quando perco a voz porque ela também é meu instrumento de trabalho. Porém, dar um limite a um instrumento que já é tão frágil e limitado faz com que cuidemos com mais carinho e atenção da nossa própria voz, que é a cara de nossa personalidade, que cobre o rosto do nosso caráter. Ficar rouco é um privilégio de muitos. Os parcos que entendem não reclamam. Só ouvem e esperam o tempo passar, para de novo poderem falar sem medida, comedidamente.

 

Siga o músico Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

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