Breve reflexão sobre as reflexões.


 

Algumas coisas acontecem para a reflexão. Outras para nada. Muitas não acontecem. E as que estão para acontecer já estão encaminhadas, numa ordem de serviço pia e dura, além do CPF, aquém do ego, perseverante como os canonizados.

Não se fala em outra coisa nas TVs. A todo o momento a morte do empresário nipônico é esquartejada, ruminada, repetida com zoom, detalhada e massificada na mídia. A esposa assassina aparece em todas as capas de revistas. As pessoas nas bancas olham e riem entre si. A morte do outro é hilária aos ouvidos que se cansam de serem limpos com a foice. A morte cotidiana sussurra nas orelhas e a costumeira aceitação faz a cera vibrar em amarelidez.

Por que as coisas que acontecem para a reflexão não têm sede de vingança? Vingam por semanas. Somem por séculos. E quando desaparecem, tudo o que fora dito a favor cai por terra, germinando assim árvores frondosas, falsas, rugosas, com folhas lisas e frutos vistosos. Ninguém ousa comer deles.

O calendário de acontecimentos no mundo têm duplos sentidos. Os protagonistas no fundo são figurantes. Nós, relapsos em tudo, comemos o que nos é oferecido e digerimos paulatinamente. É bom para a movimentação do mundo. É ótimo para nós. É viável para a passagem do tempo e fermento para bolos fofos.

As atividades programadas são iguais às pessoas. Todas as pessoas. Volúveis. Insatisfeitas. Indecisas. Humanas! As ações acontecem conosco por causa do outro. A dor de outrem reflete em nós. Bem ou mal. Fosco ou nítido. No claro e no escuro.

Refletir sobre os acontecimentos é como ser água, ou um espelho dela. O reflexo apenas boia na superfície. Porém, milímetros depois nada mais existe, além da densidade aquosa. Nós, arautos aquáticos, trazemos os assassinatos, esquartejamentos, atentados terroristas, terremotos, estupros, roubos e acidentes para o nosso viver. Não foi conosco, mas nos gerou um reflexo, aquele que boia na água somente enquanto o Sol brilha.

E na semana que vem? O que está previsto? Possivelmente algo que alimente o estômago vazio, louco para pagar o aluguel e fazer o boçal tirar o chapéu de pesar. Ao entardecer, todos se esquecem dos acontecimentos. Eles acontecem apenas para a reflexão. Alguns para nada. Muitos nem acontecerão.

 

Siga o músico Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

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