Moradores de rua não têm São João. Só papelão!


 

A fogueira está queimando em homenagem a São João. O for all já começou e não é para todos. Não, não é mesmo. Nesse frio, a fogueira não acende nem mesmo um cigarro de palha, desses que vivem úmidos no equilíbrio entre o abismo até o chão e o outro, goela adentro. Bocas secas tragam e tremem, marcando tempos binários regidos pela batuta da hipotermia.

Esses caipiras não pintam os rostos, pois os mesmos já são manchados pelos dias de cão. Roupas quadriculadas só são usadas pelo modismo atual. Andarilhos não andam na moda. Só andam.

O governo viabiliza camas para os descamados, mas a burocracia é tão grande que torna-se muito mais fácil, prático, confortável e sadio repousar a cabeça num travesseiro de pedra. É impossível chegar até às camas de campanha. E por sinal, que campanha! Não é a toa que os opostos se atraem.  Preocupar-se com um amanhã que sempre será amanhã é duro demais para quem sonha intensamente com cinquenta centavos.

Ajuda mútua, caridade e outras movimentações em prol dos desprovidos de qualquer coisa não trazem votos em anos ímpares. Não é interessante ajudar a quem precisa, porque quem necessita sempre necessitará, e enquanto os governos estiverem com o poder, ou seja, com o dinheiro, as mãos desesperadas se levantarão em qualquer ocasião oportuna para o arremesso de moedas. Podem ficar tranquilos, senhores peemedebistas e peemedebestas. Os petitas só protestam em ninhos tucanos porque sobem alto em arvores onde o pássaro que voa baixo não consegue chegar. Os bicudos, as bandeiras vermelhas e os equilibristas dos muros de arrimo não conhecem as esquinas onde seus eleitores dormem famintos.

Enquanto isso, a fogueira queima. Todo ano é a mesma coisa. Arraiá, rodeio, pedrão e quadrilha. É São João, não é pagode russo. Mas até parece russo o som que sai das bocas de certos funcionários públicos nos locais de assistência social. O que é o serviço social? É pedir para o transeunte assinar papéis que vão ao lixo para que o mesmo possa caminhar 20 quilômetros até um albergue no fim do mundo? Qual foi a parte em que não entendi? Com que pernas se caminham 20 quilômetros depois de dias sem pôr qualquer amido no sangue? Com que dinheiro se toma uma condução, cada vez mais cara e pior? Com que mão se assina, já que a maioria têm duas mãos esquerdas e débeis? Mas é São João, olê, olê, olá. Eu chego lá!

“Olha pro céu, meu amor. Veja como ele está lindo!” Deve ser muito lindo o céu paulistano neste São João. Principalmente para os que têm as estrelas como teto. O pobre João morreu há quase 2 milênios e a fogueira continua queimando. Pelo menos a tradição relembra dele com o fogo lúdico, sem decapitações. Muitos se aquecem com o orvalho. Enrolam-se num lençol malsão e assistem de perto os donos do mundo que incrivelmente não têm cabeças e não foram decapitados. Ainda.

 

Siga o músico Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

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