Ortodoxos também ludibriam o ego.


 

Todas as pessoas são advogadas de si mesmas. E isso até pode ser bom. Defender os interesses pessoais é o ato mais normal dentre milhões de normalidades. O homem precisa contra-atacar a si próprio para poder viver, porque viver e não ter a vergonha de ser feliz não é tão fácil assim. As pessoas são indivíduos. Indivíduos são individuais, únicos, indivisíveis, advogados de si mesmos.

Pelo fato de sermos “os inteligíveis” no imenso cosmo, a regência do caos está conosco. É claro que nem sempre somos bons samaritanos e deixamos a obrigação para o vizinho. Por que fazer algo que o outro pode fazer, mesmo que de qualquer jeito? Assim caminha a humanidade. Comandando a vizinhança, a ordem, as vidas e nada mais. Uma pena tudo isso ser verdade. Indivíduos indivisíveis organizando multidões gera medo para os que olham para cima.

Talvez esse seja o diferencial do homem. Ser tão egoísta ao ponto de querer tudo e todos para si. E nós precisamos de alguém que nos queira. Bem ou mal. A solidão é fera, já dizia Alceu Valença. É amiga das horas, prima e irmã do tempo. E quando esse tempo passa, a gente percebe que não observou nada ao nosso redor. Às vezes as coisas galgam e nós ficamos parados, quando na verdade nós já fomos embora e tudo continua no mesmo lugar, no velho lugar, em outro lugar.

Viver é um risco, mas é a sensação mais intensa que se pode sentir. Estar vivo é a única sensação. Mortos não sentem. Pelo menos a gente acha que não. Quando eu souber, não sei se conseguirei postar alguma coisa em algum lugar. Quem se importaria? Cada um advoga sua causa e esses causos formam rimas para colocar o Patativa do Assaré no bolso.

Toda essa baboseira só serviu para encher linguiça e explicar coisa alguma. Foi uma breve tentativa de mostrar que a individualidade é dúbia, já que a mesma é a responsável por milhares de individualidades, que juntas são muito mais que indivíduos, são multidões a sós. Bons e maus, sorridentes e mentirosos, desagradáveis e sonolentos, pestilentos e gordos, magros e vascaínos. Só os vivos podem ter essa confiança em outrem. Só nós, que respiramos e somos bípedes podemos ter uma visão ampla das coisas. Só nós, advogados do ego, podemos entregar nosso único sentido nas mãos de outros egoístas que só pensam nas pessoas como se elas fossem o seu próprio eu.

Em 1987, a banda canadense Rush lançava o disco Hold your fire. Dentre os vários sucessos do disco, uma música chama a atenção pela melodia psicodélica, o uso de teclados sintetizadores (no auge da invenção) e a letra instintiva. O nome desta canção é Time Stand Still.

Freeze this moment

A little bit longer

Make each sensation

A little bit stronger

Experience slips away…

Experience slips away…

The innocence slips away…

“A experiência nos escapa, a inocência nos escapa”. Essa defensoria do próprio eu nos faz animais. E o burro, quadrúpede que só, ri da nossa cara porque os indivíduos não ruminam o tempo, não congelam os momentos e não olham com mais calma o degrade de uma relva qualquer. Quando já é tarde demais, os poetas lamentam em canções, como essas e outras que soam por aí, no objetivo de trazer nostalgia, tristeza e pequenos sentimentos revolucionários. Coisa de minutos. Antes que o meritíssimo bata o martelo, Time stand still.

 

Siga o músico Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

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