Sobre o tempo.


 

Muitos dias por semana não completam a cronologia de uma semana. Muitas horas duram mais que dias, mais que anos, mais que vidas. E sempre que for possível ver os segundos passarem com cautela, muitas horas não serão mais como horas. Muitos dias não serão mais como meses. Muitas vezes não serão mais vezes.

Ora, o tempo vive ocioso, querendo o sangue dos apressados, porque os que correm vivem mais. Muitos dias por semana, muitas horas por segundo ou pouco menos que uma sílaba tônica.

Apesar de toda a conspiração a favor da evolução, o real sentimento humano vai de encontro ao abraço de um tempo amputado de afagos. Ser sozinho no mundo não é apenas um privilégio das impressões digitais. Tudo que está no ar afirma que é ótimo ser sozinho. Existem guias para qualquer atividade: Como massagear as próprias costas. Tire sozinho o tártaro de seus dentes! Xadrez online, diversão a sós.

Não sei qual o objetivo de tudo isso. Estar acompanhado ou solitário são qualidades e caminhos felizes, difíceis, disponíveis e normais. Nem todos conseguem viver em harmonia com os outros. Já alguns, preferem dialogar com o espelho, já que o reflexo imita os trejeitos, abre a boca e não fala. Os ouvidos no espelho não ouvem ruídos, nem gargalhadas, nem lamúrias, nem você.

Como todos são espertos, as novidades de cada dia são chamarizes para caminhos já traçados, planejados, arquitetados, com sinalizações perfeitas e telefones públicos a cada cem decepções. Nós caímos como piabinhas em anzol unha de gato. Somos peixes pequenos. Os grandes seguram as varas que nos fisgam. Vemos as novidades em minhocas. Vemos o máximo nas engenhocas. Vemos o mínimo de nós.

Se o tempo vive ocioso, por que temos que fitar os olhos em ponteiros, letreiros, cucos, tic-tacs intermináveis, perfeitos, onipotentes, cruciais, essenciais e burros? Nascemos com hora marcada. Morremos com hora marcada. Vivemos com hora marcada. Sonhamos com hora marcada. O alarme toca. De novo a vida real, a possível, a impossível, onde tudo se pode fazer, e sozinho, com preguiça, mas com hora marcada.

Por isso que muitos dias por semana são dias demais para uma semana. Uma semana passa rápido demais para ser semana. Mesmo sabendo que septimana são sete manhãs, estas mesmas manhãs, sétimas, perfeitas, não duram mais que um acordar, um olhar, um esgar, um bispo cruzando a diagonal no tabuleiro, o letreiro que marca numerais, os ponteiros nas doze horas, e os segundos, e os olhares, e a isca, e os monossílabos, e a contagem regressiva para o desconhecido, ou seja, para nada.

Muitas vezes não serão mais vezes. Muitas vidas não serão mais vidas. Muitos de nós não seremos mais. Nem menos. Sempre que for possível ver os segundos passarem como raposa na estrada, o segundo olhar será de susto, de busca, inédito e verdadeiro. Por que o tempo passa, ocioso e chato, mas passa. Leva com ele os outros, nosotros, e as angústias. O mundo nos quer solitário no meio de todos. Todos nos expulsam da massa. Mas o tempo nos comprime ao todo que nos escarnece e ao ego que nos une.

Melhor calar a boca para não comer a mesma minhoca que Augusto dos Anjos mordeu. Já pensou no fato de ninguém assistir ao enterro de tua última quimera? Esse é o fiasco que a evolução prega. Ignorância crassa a qual tampo os ouvidos. Como dizia Cícero, é sexta-feira, amor.

 

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