O mundo quer ser infeliz.


 

 

É muito difícil ser feliz num mundo infeliz. Mas é possível. Existem pessoas com sorrisos longos, maiores que o do Silvio Santos, porém ocultos e cheios de surpresas como a programação do próprio SBT. Envelhecer e ser feliz como muitos não é o objetivo de quase ninguém. As pessoas querem ter felicidade agora, pra ontem, pra hoje, pra já!

Labutar para oferecer um futuro melhor aos que ainda crescem não motiva mais. Nunca mais. O mundo é infeliz ou caminha para a infelicidade. Um lugar tão diverso como o planeta não pode ser feliz. Parece até heresia, não é? Por causa do entretenimento a felicidade está correndo das pessoas. Todavia, vive-se bem sorrindo, e apenas vive-se feliz. Viver bem feliz é redundante demais para ser verdade. É utopia demais para ser futuro. É brincadeira. É sério. É mentira.

Fazer uma afirmação como essa é um perigo. Fere o ego das pessoas. Abre uma ferida já cicatrizada, e nunca vista, ou sentida, ou lembrada. É como o umbigo, a moleira, a arrogância de ontem… Por isso afirmo que esta afirmação não é minha, só da consciência que vomita o texto, porque eu deixei. E deixarei sempre que for forçado pelos supérfluos anseios de noss’alma.

A falta do que fazer (nos primórdios e porvir) deu a capacidade única de criar coisas. E assim se fizeram as leis, a telesena, os camelos, as dívidas, a zorra total (ou quase cheia) e a felicidade. O arrependimento também foi um grande invento. Necessário, já que homens voláteis e volúveis estão sujeitos a alterações. Todas possíveis. Por isso a ideia de infelicidade que o mundo engana, na verdade faz mal a todos. A gente faz igual ao Victor e cria um novo Frankenstein. Compomos nossos monstros para corrermos deles. Inventamos a felicidade para o sorriso. Concebemos a infelicidade pela falta e descrença na antônima. Novamente, o horror da tristeza nos corrói e perdoamos o monstro feliz, o invento renegado, a proposta inicial: A tal felicidade.

Somente o mundo, este paciente solitário, quer ser infeliz. As pessoas se vão, mas as pinturas rupestres ficam na gruta, no viaduto, no cheque. Quem ainda usa o cheque além dos enxadristas? Outros enxadristas que respondem com o cheque-mate. E o jogo termina. E a gente morre. Juras de amor. Juras de felicidade. Epitáfios verdadeiros. Sim, a gente ri como o grisalho Senor Abravanel e lamenta não ter pegado o aviãozinho de cem reais. Isso é ser feliz. É rir. Correr do monstro. Criador fugindo da criatura.

No fundo, a gente só conhece a infelicidade porque a vida é dualista. Precisa-se da morte, para viver. Precisa-se do fim para o término do início. Precisa-se de paz, para levantar a baixa moral dos brutos. Precisa da vovozinha, para a fome do lobo mal. Precisa-se de fêmea e macho para a procriação. Precisa-se do bem, para que o mais fraco vença alguma vez. Precisa-se do escuro, para que a luz seja essencial. Precisa-se de infelicidade, para ser feliz. Como a cruz é sempre pesada para nossos ombros, a gente afirma que quer ser feliz, e para sempre, para que o mundo, esta paciente esfera, aguente nossas decepções. Pode ser que seja assim. Geralmente é assim.

A banda Pato Fu afirma, na música Perdendo Dentes, assim: As brigas que perdi, estas sim eu nunca esqueci. Nós fazemos o contrário. Eu faço o contrário. Somos felizes. A tristeza é culpa de fulano, da mãe, do chefe, do espelho, do Diego Souza, do mundo. Tudo o que for mais fácil, sim, será mais fácil. Assim caminha a humanidade.
Com passos de formiga e sem vontade… No final a gente só quer abotoar o paletó e morrer com sorriso de cigano. Só o mundo quer ser infeliz. Só ele.

 

 

Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

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