A farsa das agendas.


 

Um dia o mundo acaba. Ou os compromissos acabam. E o marasmo chega. E a gente chupa cana. Sem dentes. Sem vontade. Sem adoçantes. E o bagaço acaba. E vira só bagaço. De cana.

O ano está para acabar. Ou nem começou. Isso é o que dizem as agendas. Estas pobres coitadas, criadas por outros coitados que não tiveram o senso crítico de usar as próprias invenções. É sempre assim. Os criadores se esquecem dos desastres paridos. Ainda acredito que o inventor das latrinas defecava nas antigas cloacas dos navios negreiros. O inventor do relógio perdia a hora, toda hora. O criador do guarda-chuva se molhou, em garoa imperceptível. Muita lama. Usava mocassim.

Todo ano compro uma agenda. Geralmente, entre os meses de Abril e Maio. Desta forma, os meses perdidos servem para que eu possa rabiscar coisas que nunca iriam acontecer, se as tivesse anotado na íntegra. É até interessante. Ritualístico. Religioso. Sem compromisso e ao mesmo tempo fiel. Escrever nas primeiras semanas de Janeiro o que nunca faríamos naqueles dias é uma sensação criadora. Como um parto, um cuspe, um pecado ou o voto. Acho que o voto foi força de expressão. Mas fazer o jogo da velha no dia Mundial da Confraternização Universal e da Paz dá uma paz enorme. Mesmo dando velha.

Pelo fato muito notório de ser totalmente desorganizado em quase tudo, ter uma agenda a cada ano é como me converter. Novamente. Anotar objetivamente o que irei fazer no dia seis de setembro, às sete horas e trinta minutos é quase uma oração, ou devoção, ou organização, ou sensação de importância, de comprometimento ou de prever um futuro certo, ao ponto de adiar outros pormenores porque no dia seis de setembro, às sete e meia irei fazer qualquer coisa. Será véspera de feriado.

Mas um cético sempre volta às origens e se esquece dos ritos que outrora praticava. Depois do dia seis, as outras páginas são apenas folhas tracejadas, com números no alto, marcando dias que não existiram. A fita de cetim marca sempre o meio, ou a última anotação. Não marca nada. Só divide o que era pra ser contínuo.

O tempo vai passando e chegam as festas natalinas. Será que alguém escreve que é Natal no dia vinte e cinco de Dezembro? Possivelmente não. Nem nos dias subsequentes. Depois da folha que marca o que era pra ser o último dia, existe uma surpresa: Planejamentos para o ano seguinte! O criador das agendas, após chegar ao dia trinta e um do último mês, concluiu que a obra não estava completa. Precisava-se planejar para o amanhã, antes de comprar uma nova agenda. Então ele deixou algumas folhas em branco para que o feliz ano novo comece com compromissos. Feliz ano novo?

Não acredito que alguém faça planos para o futuro nas últimas páginas da agenda. Nem nas primeiras. Ninguém planeja nada. A gente só supõe o que pode ser feito. Na hora. Em qualquer hora, sem anotar em lugar nenhum. E a gente vive. Só para se esquecer das agendas. Um dia as encontramos para ver o que havíamos feito noutros tempos. E o que a gente fez ano passado? Não sabemos. Muito menos as agendas. Elas são apenas cofres que guardam o que poderia ser feito num dia errado. Ou que aconteceu em uma data nada haver. Sem planos. As agendas se perdem em nós. Um dia fez com que eu perdesse a hora, sem meta cumprida, sem assiduidade com a atividade agendada. Perdi o dia. Dias eu perdi. Passa do meio do ano e eu já me perdi de mim mesmo. Redundantemente como em outros anos. E sempre caio nessa farsa.

 

 

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