A serventia dos áulicos tapados.


 

Na prateleira da casa de minha avó havia muitos livros. Lembro-me bem de ver uma coleção de obras do Jorge Amado, alguns livros infantis e outros tantos. Podia-se encontrar todo tipo de assunto naquela estante. De Chapeuzinho Vermelho a “Estudos sobre Quiromancia”. Também me recordo de ter visualizado diversas vezes alguns volumes de uma novíssima e atualizada enciclopédia Barsa de 1971. No livro de pesquisas, o Brasil era sempre lindo, com seus símbolos pátrios, hinos, dias cívicos e datas importantes. Era a história que o governo permitia que ensinassem naquela época, no auge da ditadura.

Hoje, no auge da não sei o quê os professores de história têm total liberdade para tratar dos assuntos dolorosos e gloriosos de todas as pátrias, principalmente da pátria amada. Os debates e escolhas políticas de cada aluno são de extrema importância. Valem pontos. Ajudam a edificar a nação. Faz o país melhor. Ficamos melhores.

Quisera fosse. Quando não se pode fazer algo, a gana é maior do que qualquer coisa. O limite é a impulsão para a realização das obras. A falta de regra é a liberdade para o marasmo. E este tal marasmo pariu trigêmeos: Tapado, Mudo e Zé ninguém. Estes três irmãos geraram outros semelhantes, e como animais saindo da arca após o dilúvio, cresceram e se multiplicaram. Atualmente vivem como servos fiéis de senhores infiéis em diversas partes do mundo.

Estes cortesãos são fundamentais para a manutenção de regimes democráticos egoístas. Desde cedo, aprendem a fechar os olhos perante atos ilícitos, a não comentarem sobre movimentos estranhos das sombras e principalmente, após a maior idade, mudarem de nome. Melhor, eles perdem o nome. Na verdade, se esquecem do próprio nome. Hipnose? Lavagem cerebral? Burrice? Tudo isso ou nenhuma das alternativas? Freud explica?

Quando eu tinha doze anos, puxei, daquela estante de livros na casa de minha avó um livreto bem enigmático. Na capa, um velho com olhar fito no nada e um charuto na mão, bem perto do rosto. Era uma autobiografia do pai da psicanálise: Freud, por ele mesmo. Li poucos capítulos. Não entendi nada. Mal sabia quem ele era. Só tinha ouvido falar. Achava que o médico austríaco era um cientista (não que ele não fosse) como Newton, Copérnico ou Galileu. Quando cheguei ao terceiro capítulo, perdi a paciência e deixei a leitura de lado. Era um texto muito enfadonho para um menino de dozes anos. Ler a série vagalume era muito mais legal. Mas, andar pelas ruas segurando um livretinho de sessenta páginas (contando com as ilustrações) com uma capa colorida e um besouro no meio onde se lia acima: O escaravelho do Diabo era demais para mim. Fiquei meses levando o livro do Freud para todos os lugares e já não lia uma página sequer.

Os descendentes do marasmo, estes áulicos tapados também são assim. Mais tarde descobri a importância de Freud e desde cedo me enganei com as pessoas. Demorei a entender o que era uma crítica construtiva. Principalmente quando estas verrinas varriam meus ouvidos de forma tão afetuosa, voz mansa e dedos cruzados por trás das costas. Os bobões que elevam outros bobinhos ao poder são incríveis, fundamentais, necessários, valiosos, massa com fermento, às vezes biológico, às vezes putrefato.

Sendo assim, os filhos dos filhos dos trigêmeos, como não têm nomes próprios, apenas vestem as vestes que lhes dão. Usam viseiras para serem burros, cabrestos para sorrirem mais rápido e jogam talco no cabelo para parecerem mais velhos. Experiência? Jamais, só a senilidade, para ficarem tapados mais cedo. O quanto antes.

Com o fácil acesso à informação, as pessoas poderiam ficar mais informadas, logicamente. Deveriam estar cientes das coisas, atenta aos trâmites do dinheiro público. Alguns pândegos, coitados, vociferam para o alto que os tempos são outros. Tempos modernos, antes mesmo que o Lulu Santos comprasse o primeiro pedal de distorção. Na real, todos sabem que o poder depende da massa. E a massa ainda tem fome. Morre de fome. Seca de fome. Treme de fome. Grita de fome. A massa não conhece o Windows 7. A massa não entende dos altos impostos que paga sofregamente. A massa de hoje é a mesma de quarenta anos atrás, que vivia sem internet, sem democracia, sem dentes e sem esperança. A massa de hoje é a mesma que sempre votou errado, e que errou ao escolher as porcarias que perenemente atuaram às custas de mudos e tapados. Estes sentem até prazer em fazer parte da corte inútil e útil ao mesmo tempo. Será que estes mancebos conseguem dormir com tranquilidade? A consciência não lhes pesa? Pior que não.

Amanhã eles estarão nas esquinas. Mudinhos da Silva. Tapados dos Santos. Zezinhos de seu ninguém. É por causa destas pessoas que não se vive em equilíbrio. São muitos pássaros que voam baixo demais para poderem alçar vôos altos. Os passarinhos que querem voar acima da neblina acabam morrendo sem ar, ou do tiro de caçadores. Estes também não tem nome. Morrerão, um dia, com a alcunha de propagadores da permanência da merda.

 

 

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