Reflexões sobre o fogo e a felicidade.


 

Quando as coisas são ariscas, os dedos queimam mais rápido. As frases de efeito ainda deixam olhos marejados, cheios de esperanças, repentinas vontades de mudança e felicidade. Ainda existem pessoas felizes. Muitas.

Outro dia pensei uma bobagem, mas é até interessante, mas é bobagem mesmo. Imaginei o fascínio que o homem dever ter sentido ao ver pela primeira vez o fogo. Ele ainda nos impressiona. O fogo trouxe à minha mente lembranças da minha avó paterna, que é muito religiosa. Uma católica de mão cheia. Quando pequeno, lembro-me de vê-la acendendo velas, às seis da tarde, na escada, nos fundos da casa. Eram as promessas dela. Orações. Devoções. Às vezes ficava parado um tempão olhando a chama trêmula, derretendo a parafina. O fogo é mágico. Eu o acho mágico. Não pode ser palpável. É quente e transparente. Tem poder. É arisco.

Interessante que na maioria dos casos, o fogo é sempre amarelo. Azulado de vez em quando. Vermelho quase nunca. Amedrontador. Devastador. Lindo. Falar das fagulhas com mais palavras seria um crime. Exemplificá-las com poucos adjetivos me faria hediondo. O fogo está na categoria das coisas eternas. Ele não evoluiu. Só faz com que os outros evoluam, ou não. O fogo dos australopitecus é o mesmo fogo que acende teu cigarro. O homem mudou de forma. O fogo performance.

Tempos atrás critiquei os fones de ouvido. Balela. Uso-os frequentemente e passaria uma borracha em certas frases escritas por aqui, mas… Um dia, todos pagarão com a língua, ou com o dedo. Pois bem, numa tarde qualquer, voltava para casa e vi uma mulher, que passava ao meu lado numa alegria sem igual. Ouvia Marisa Monte. O fone não estava alto. Ela cantava alto. Desafinada e alegre no coro dos contentes. Eu ri e olhei ao redor para ver se alguém havia percebido a ausência de tons naquela voz, mas só eu ria. Por que eu ria? Porque a gente criou regras internas que seguimos à risca. Com fé e velinhas na escada. Andar pelas ruas cantando não pode. Amém. Vestir camisa de cor verde-bandeira com calça laranja não pode. A não ser que você seja um músico do Restart. Amém?

Ah, conterrâneo Rui Barbosa! Há quanto tempo eu recorro a ti? Quantas músicas e poemas? Quantas conversas jogadas fora? Olha você aqui de novo. Rui, em um de seus textos mais famosos, disse: “Sinto vergonha de mim”. Eu também senti vergonha por rir da alegria alheia. No fundo era inveja. Um dia ainda vou sair pela rua cantarolando. Numa segunda-feira qualquer. À tarde. Sol tinindo. Pessoas com pressa. E eu cantando. Talvez um samba ou alguma canção desconhecida do Alceu Valença. Irei.

A gente deveria ser como o fogo. Evoluímos e geramos problemas e soluções. Às vezes soluções demais para um problema. Dilemas em demasia ouvindo multidões em silêncio. A alegria é assim. Ela nunca muda. Existe por diversos motivos. Nos ajuda em variadas ocasiões. O fogo que ferve a água nos dá alegria. O fogo também crema corpos. Apaga passados. Inaugura futuros. Destrói e traz respeito.

A alegria também pode ser assim. Trazendo respeito, apagando os dias maus, contagiando os que estão ao nosso lado… Debochar da alegria é como passar o dedo no fogo. Quando via meu pai fazendo isso (passar o dedo na chama de uma vela) imaginava coisas mirabolantes. Como é que ele não queimava o dedo? Ele passava o dedo de um lado para o outro rápido demais. Não dava tempo de queimar.

Esse é o risco. Esse é o tempo. O tempo certo de não se queimar. O tempo certo de não ficar triste, definhando. Porque existe um tempo certo para ser alegre. Qualquer hora. Esse é o risco. Esse é o tempo. Rir dos que nadam contra a ressaca agitada que bate na orla e quebra as pedras é o mesmo que apagar a chama trêmula da pequenina vela com os dedos cheios de saliva. Não dá tempo de queimar.

Ainda existem pessoas felizes. Muitas.

Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

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