Recordações sobre desfiles e caixas de marcação.


 

Táa, táa, tá, tá, tá, tá, tá! Ouvia de longe o som das caixas de marcação. Os carros não faziam barulho. Antes de conhecer as teclas, simpatizava pelos tambores, repiques e timbales. Sim, já usei baquetas muito antes de perder sete mil palhetas. Furei todos os baldes, vasilhas e caixas de chapéu que existiam na loja de meu avô. Por isso os desfiles de rua sempre me fizeram vibrar. Nos feriados, ficava na janela de casa para ver a banda passar lá embaixo. Eram várias. Os bombos na frente, seguidos das caixas de repique e marcação. Pratos e cornetas ao fundo. O máximo!

Um dia meu pai me levou para fazer parte de uma banda marcial da cidade. Cheguei com a intenção de tocar caixa de repique. Acabei ficando com a corneta. Só fui a dois ensaios. Acho que as coisas tinham mais encanto quando olhava de fora, de cima, de longe, da janela. Se eu fizesse parte do espetáculo, não veria a apoteose. Foi melhor assim.

Existem coisas que são melhores assim. Nós aqui. Elas lá. Essas frases soaram estranhas, não é? É porque a mente da gente tem audácia demais. Às vezes queremos trocar as peças de lugar. Advérbio não é verbo. Plateia e palco são coisas distintas. Caixa de marcação e o olhar também. Eu aqui. Ela lá.

As solenidades também me encantam. Lembro-me das missas solenes que frequentava na infância. O cheiro do incenso misturado com os diversos perfumes de cada pessoa. O burburinho antes do início da celebração. As velas acesas. O violão sendo afinado, rapidamente. Mi, si, sol, ré, lá, mi. “Ei, som. Alô som. Teste, um dois”. Eu sentia um enorme frio na barriga. Eu era pequeno, criança, no meio do povo, sem ser notado. Meu coração acelerava como se, em algum momento, houvesse a possibilidade de todas as pessoas olharem para mim, só para mim, e eu fosse o centro das atenções ou o ponto de partida para as dispersões. O que eu faria? Nunca tinha respostas. Possibilidades remotas. Tanto que nunca aconteceram. Missa solene. Dia D. Hora H. Contagem regressiva. Olha o passarinho! Lá vem o desfile. Que loucura!!

Apesar da internet, TV, rádio e toda a rápida comunicação que existe no mundo, as pessoas ainda têm a necessidade de saírem pelas ruas reclamando suas dores e satisfações. Tudo está na rua. Todos estão na rua. Tudo é encontrado numa rua. Por isso as pessoas caminham por elas. Choram nelas. Morrem naquelas. Desfilam nas outras. E então, os sofrimentos são conhecidos, os ideais reivindicados, e todo o resto esquecido. Depois que o desfile passa, restam apenas botões que caíram dos jaquetões, plumas daquele enfeite na cabeça da mocinha e diversas lantejoulas, que estouraram num movimento involuntário do corneteiro. Por fim, se ouve o eco seco das caixas de repique, que só ruas estreitas podem proporcionar.

Enquanto o mundo se alardeia com reconstituições de crimes, medalhas perdidas nas olimpíadas e crises financeiras, este bobo alfaiate de verbos, que apenas se preocupa com coisas prescindíveis, tenta rememorar dúvidas infantis. Porque quando se é criança, as descobertas causam mudanças. Depois de adulto, elas só causam frio. As ruas estão cheias de desfiles. Fora de época. Melhor, fora de forma. Pessoas corajosas desfilam diariamente fazendo sinais de V com as mãos, e sorrindo para cada cachorro faminto, doido por um pedaço de carne. Não me recordo de passeatas políticas na infância. Sei que elas existiam, mas, não tinham caixas de marcação. Outra parolice: Dizem que crianças enxergam além da alma. Os adultos além das lentes. Os pequenos veem as coisas de outra forma. Os grandes não olham para o chão. Eu uso óculos. Minha corcunda é “quasimódica”.

 

 

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