Os esquecimentos riem de nós. Desde ontem.


 

Durante esta semana uma palavra não saiu da minha cabeça. Ruminei cada sílaba. Lia-a em todas as entrelinhas, ouvia o vinil ao contrário para escutá-la em mensagens subliminares e sonhava com ela. Até música eu quis fazer com esse verbete, mas não fiz. Esqueci a palavra.

Daí surgiu uma indagação em minha mente: Para onde vão os esquecimentos? Um bom psicólogo irá afirmar que eles estarão no inconsciente ou pré-consciente, prontinhos para virem à tona quando aquela música tocar ou aquele palhaço sorrir. Ou seja, a palavra que estava na cachimônia a semana inteira só mudou de lugar, atrás da parede, se escondendo de mim. E justo agora ela decide brincar de pique esconde?

Deve haver algum motivo para essa seleção de armazenamento. As coisas boas são guardadas e as ruins sublimadas? Mas, geralmente, quando vamos falar de algo ou alguém, as maldades cometidas por este ou àquele não são as primeiras a aparecerem? Sim, são. Ou seja, tudo que o individuo fez de bom, bye bye!

O motivo é a chave de tudo. As coisas se movem por motivos. Os amores acontecem por motivos. As palavras são esquecidas por outros motivos. Será que lá, no escuro, atrás de um neurônio já velho e enrugado, a palavra semanal está rindo de mim? Será que ela se encolhe, prende a respiração e silencia ao ponto de me fazer esquecer a presença dela? Pode ser. Porém, este esquecimento já é outro esquecimento. Outro? Outro o quê?

Ah, sim. É asneira. Mas daqui a cinco minutos você vai esquecer tudo isso. E esta bobagem também vai rir de você. Ela irá olhar para a minha palavra esquecida e piscar o olho. Enganei o bobo na casca do ovo. E no final das contas? Os mesmos resultados. Nós, bobos da corte do rei papel, viveremos como de costume. Sonharemos como de fato sonhamos. Acordaremos, como em todas as manhãs, e esqueceremos de procurar as coisas perdidas, as causas perdidas, a perda em si e da palavra, em dó.

Tudo que agora reina amanhã se esconderá de nós. Atrás da nossa orelha. Embaixo do nariz. Na palma da mão. Nos bolsos. Nas meias. No cérebro. Acho que a palavra esquecer não existe. Ela, em si, é um verbo. E verbo é ação. É agora. Não passa. Não se esquece. A palavra esquecer nunca será esquecida. E as coisas também nunca serão esquecidas. Todas elas. Os acontecimentos só mudam de lugar. Para rirem de nós, até o momento em que eles reaparecem. Porque as coisas escondidas apenas surgem quando os motivos empurram-nas para o meio do salão. A gente vê, repete o nome, muda de assunto e o oculto sai à francesa.

É assim. De fato é assim. Ah, a palavra que havia pensado durante a semana inteira é protocolo. Pois é, nada mais sem graça e patético para ruminar, separar sílabas, fazer canção e rememorar com persistência. Mas para mim, plantas no chão são árvores. Formigas são pessoas. E pessoas são seres que esquecem que os fatos não são esquecidos.  O dia de ontem apenas se esconde de nós. Todos os dias.

 

 

Diego Schaun no Twitter @DiegoSchaun

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