Câmara Federal: Oficializar a prática é o mesmo que limpar a bunda só uma vez?


         

                …e a vida, além do mais, não é uma invenção da moral: ela quer ilusão, ela vive da ilusão…

Quando Nietzsche escreveu esta frase, no prefácio de seu livro Humano, demasiado Humano, a corrupção moral, ética e fétida do homem já fazia parte da biosfera. O filósofo que vivia indignado com seu próprio bafio de solidão, com o cachorro da vizinha, com o caos e suas dores de cotovelo foi um dos homens mais humanos do mundo. Ele percebeu que o movimento das pessoas era regido por linhas invisíveis coordenadas pela marionete de Deus. Talvez não tenha compreendido os significados da dança ou não tenha aceitado a mão que controla os bonecos, ou tudo isso ao contrário.

O homem precisa de alguém que o controle. Necessita sentar no colo do ventriloquista e deixar que ele imite a nossa voz, como de costume.  E assim nós o fazemos. Os médicos nos ajudam a recuperar a saúde. As igrejas nos trazem de volta para algum lugar. A música pinta os espaços vazios, sem texto para decorar, onde a câmera parou, e o olhar também parou, fito na timidez e no medo. A música faz sala. Os políticos, estes também são ícones de nossa ortodoxia, vivida à força, presente e desnecessária, ao mesmo tempo em que essencial. Não por importância, mas por essência, que no fundo é imprevisível. Do DNA se salva quem pode.

E de ilusão os dias vão acenando. O ano está passando rápido. Deve ser o medo do fim, ou do início. Sempre falamos tudo isso, porque existem dias que são semanas e horas que são mais rápidas que milésimos. De praxe esse nosso prazer em mensurar substantivos abstratos. Marcar o tempo, que não tem marcação, mas precisa ser marcado senão o mundo para, não faz sentido. O mundo tem diâmetro, litros específicos de água, pessoas por metro quadrado, mas periga tornar-se como o tempo. Tem hora pra surgir e pra acabar.

E para podermos viver socialmente, o perdão dos pecados tornou-se uma obrigação. Assumir os erros é nobre, porque cobre o mal feito. Matar alguém e esconder-se é pior do que matar alguém e assumir a culpa. Teoria um pouco esdrúxula, já que o que interessa, neste caso, é a morte de alguém e não a culpa de outrem. Mas as convenções sociais, aquelas que um dia disseram que “um homem não usa brincos na orelha”, afirmam que acusar-se humano, ou falho, ou pecaminoso é ato de bravura, de honra, de políticos.

Sim, até que enfim eles assumiram que só estão trabalhando três dias por semana. Ora, o salário de um camarada desses não é tão ruim. O acesso a informações e privilégios vem de brinde de quatro em quatro anos. As pessoas confiaram neles. Eu confiei. Mas, como a vida, ela vive das ilusões, nós apertamos o botão verde lendo “ladrão” e choramos por leites derramados que já viraram coalhadas.

Será que estes notáveis deputados brasileiros dormem com a consciência limpa? Claro que sim. Porque trabalhar três dias por semana às escondidas é pior do que tornar o círculo vicioso uma lei. Afinal, quem precisa de leis num país corrupto, todavia humano, demasiado humano? A classe trabalhadora, vagabunda, analfabeta, e idiota que precisa trabalhar oito dias por “septimanas” para ganhar a metade do que eles gastam com charutos só precisa viver, e isso já é grande coisa.

O importante é que eles assumiram a vadiagem. Finais de semana, ou seja, a partir de quarta-feira à noite, eles devem voltar para suas cidades natais. Os deputados acompanham de perto os seus vassalos nos conhecidos e imprescindíveis currais eleitorais. De fato, as cidades estão mudando com esse trabalho de campo, principalmente os interiores nordestinos. A evolução chegou ali e… Não chegou ali. Nem aqui.

Tomara que essa prática (redundantemente) não se torne praticável. Já pensou se eles resolvem tornar o desvio de verbas uma lei? Bobagem, eles só irão tornar legal a ilegalidade de décadas a fio. Xii… Estou me sentindo um profeta e não tenho a menor alegria por isso. Já vi o bandido ser herói por várias vezes. 

 

 

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