Halloween no Brasil é coisa de brasileiro.


 

A China é grande demais. Ela é tão grande que o mundo está ficando com medo dela. Também tenho medo da China. Gente pra caramba. Milhares de ideogramas. Sobras de excentricidade ao pé da mesa. Fora a cara do Mao, que é amedrontadora. Sim, a China é grande. Ela só não é maior que o dicionário de Voltaire.

O grande pensador iluminista escreveu várias obras como Tancredo, O Homem de Quarenta Escudos, O filósofo Ignorante, Ensaio sobre os costumes e outros livros. Confesso que não li todos os estudos dele. Mas o livro Dicionário Filosófico foi o melhor e mais sensato que conheci. Um barato! Ri à beça. Ele simplesmente escolheu verbetes de A a Z que achou interessante e foi elencando, ou explicando à sua ótica o significado irônico de cada palavra. Logo no início do dicionário, o artigo relacionado a Abraão deixa claro que a seriedade e o sarcasmo estavam namorando na pena de Voltaire. Numa determinada parte, onde o autor conta a história do patriarca da fé judaica, lemos: “Leva consigo para Mênfis sua mulher Sara, que era extremamente jovem e quase uma criança em comparação a ele, pois só tinha 65 anos”.

Cada um poderia fazer seu próprio dicionário. Nós só sabemos que “cantar” é o ato de produzir certos ruídos que formam harmonia por causa do Aurélio. O que eu penso sobre isso? O que você acha? Os iluministas queriam libertar as pessoas das trevas. O homem pode e deve raciocinar, filosofar, por conta e risco.

Sempre que se fala em futuro, os primeiros pensamentos são de carros que voam, teletransporte, velocidade da luz, cura de doenças, robôs quase humanos e a subida do Santa Cruz para a primeira divisão. O mundo ficará mais rápido. Maior. Populoso. O planeta será a cara da China.

Existe, porém, Graças a Deus, a certeza de que as opiniões não serão nossas. Os donos do mundo pensarão por nós. Lerão os livros para postarem o resumo na rede. Afirmarão quais ervas serão danosas ou não. Criarão os modismos para vivermos como iguais de tempos em tempos…

Pode ser que não, mas as pessoas estão virando zumbis. Emitir opinião não consiste apenas em afirmar que vai votar em fulano de tal ou seguir à risca o catecismo por escolha. Dizer o que pensa é a profunda concretização da humanidade. Porque, apesar da imundície, nós pensamos na possibilidade do banho. Mas isso não é tudo. O sovaco continuará rescendendo burrice até o momento salutar da ducha.

O Halloween chegou. Aqui no Brasil, em cada esquina se vê uma abóbora sorrindo, irônica feito a Monalisa, redonda como a cabeça do Mao e inútil como um santinho de vereador. O brasileiro é tão filantrópico que, além de festejar o ano inteiro com a cultura mais diversificada do universo, ainda inclui a festa dos outros. O que é que o dia das bruxas tem haver com a nossa cultura? Tudo! Afinal, o Brasil é tudo e qualquer coisa.

Não consigo imaginar um finlandês enfeitando a cidade para dançar maracatu. Os nórdicos adoram abraços, caruru, frevo e boi-bumbá.

E a opinião própria? E os dicionários? Existem mesmo? Quiçá no futuro nós consigamos impor os nossos pensamentos para o nosso ego. Grite que detesta aquela música para o espelho. Dê novos significados para o elevador. Afirme que é ateu e que na hora da morte vai entregar a alma a Deus. Leia Voltaire. Discorde dele. Visite a China. Veja como ela é grande.

 

 

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