Câmara aprova “Lei Carolina Dieckmann” por livre e espontânea pressão.


 

O que não é vantajoso só pode ser perigoso. Mas o perigo também reside na vantagem. E quem leva vantagem é vantajoso ou perigoso? Pois é. Ter tudo e mais um pouco é como não ter nada ou muito menos. O papel que branco está logo vai amarelar. O troféu que vai ganhar vai se quebrar, e lá lá lá… Take care! Somos frágeis como taças de cristal.

Essa fragilidade, quase recém-nascida, pré-matura, nos domina de forma imperdível, necessária e abusiva. A tecnologia nos aprisiona ao mesmo tempo em que nos liberta. Periga ser vantajosa. Perigosa em alguns casos. Hedionda, quase todo dia.

Existem duas maneiras de se viver no Brasil: Rindo ou chorando. Eu prefiro chorar. O choro é mais real. A gargalhada é expansiva. O choro liberta, realiza, aponta. Quem ri de si mesmo, o faz por medo de chorar. Os brasileiros riem. De tudo. De si mesmos. Deles. Da situação. Da oposição. Do Vasco. Da desgraça do vizinho. Da queda…

Todos riram da atriz Carolina Dieckmann quando suas fotos íntimas circularam pelo mundo. Muitos a chamaram de “boba”, ou “ingênua”. A crítica afirmou que o fato foi proposital ou “uma forma barata de chamar a atenção”. A verdade é que o Brasil parou para ver as fotos da atriz e milhares de luzes queimadas ressuscitaram para clarear as mentes vazias, sedentas por insights.

Desde então surgiram livros, críticas, crônicas, músicas, palestras e, como de costume, leis para a manufatura das tags. Veja só, estamos no século XXI. Século das luzes? Já foi. Século da indústria? Já era. Século de quê? Do tera, byte!

Não sou idiota para crer que o caso da Carolina foi único e isolado. Todos os dias milhares de redes sociais são furtadas, para gargalhadas de alguns e choro de muitos. Modos Vivendi. Brasil, brasileiro. Mal feito, bem feito. Jeitinho e facilidade. Alegria e lamento como nunca. Por aqui o bicho pega!

Foi preciso acontecer um crime virtual com alguém famoso para que a Câmara reavaliasse o nosso arcaico código penal. Enfim eles entenderam que existem crimes virtuais. A Carolina serviu de bode expiatório. Ela é famosa. É mãe. Atriz. Global. Inatingível. Sofre mais do que todos nós. O constrangimento dela é maior do que o de qualquer outra moça que tenha passado pelo mesmo processo. Não é? Sim. Nossas leis são diferenciadas. Não funcionam na prática. É óbvio que o carro nunca segue em linha reta quando a estrada é esburacada.

O calçamento do Brasil está deteriorado. Dirigimos nossas charretes, ou puxamos as dos outros com esforço e sem rota. Para que as coisas aconteçam, alguém do alto precisa padecer. Ridículo, mas verossímil. Rir ou chorar.

Surge então um grande problema. Já que, para obter determinados resultados, alguém do alto precisa sofrer, esperemos então outro ator ser assaltado na porta de casa ou algum apresentador de TV ter os documentos pessoais extraviados. A ferida só arde em nosso braço. Feche os olhos e não veja. Tampe os ouvidos e não ouça. Cale a boca e silencie. E a compaixão? Como não sentir? Em que botão apertar?

Não vos desespereis! Esse país tropical abençoado por Deus ainda é o melhor lugar de se viver. O assunto já foi resolvido. Poderíamos pedir aos artistas, para que eles, por vontade própria, deixem que roubem seus carros, roupas, casas… Que eles sejam, por vontade própria, abusados e maltratados, e que recebam vale gás, bolsa família e um gordo salário mínimo. Mas só uma vez, tá? Por caridade! Já que a Câmara só observa as hashtags, as pessoas públicas ajudariam as outras pessoas a serem iguais, perante a lei. “Lei fulano de tal”, aquela que protege qualquer animal… Careta, porém real.

Se as fotos da Carolina Dieckmann ainda estivessem tranquilas e ocultas em seu e-mail, as quatrocentas e oitenta e duas pessoas que tiveram seus arquivos pessoais violados no dia de hoje não teriam a quem recorrer. Mas e agora, elas já têm?

 

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