O Vale-cultura é um alimento para o estômago.


 

É óbvio que reclamarei. Sou igual a vocês. Sinto fome, frio, dor, prazer, ingratidão. Sou vira-folha. Hoje sou Náutico. Amanhã, Sport. Toda vez que for conveniente, a reclamação estará presente. Porque tudo não nos satisfaz. Todas as coisas são podres. O máximo não é suficiente. O copo se derrama e aparenta estar vazio. A chuva alaga tudo e nada se molha. A cultura é sempre pobre. A música não presta. Todos são burros. E os outros burros vivem de reclamar, cronicando por aí.

Bem, cá estou a iniciar 2013 difamando as tentativas dos outros. Meio boçal da minha parte, mas os asnos são assim mesmo. A gente carrega peso nas costas porque entre ser burro ou peso-morto não há comparações. Depois que o fim do mundo deu erro, a presidenta Dilma sancionou a lei que cria o vale-cultura para o trabalhador. Sim, a pele nem começou a descascar. As pessoas ainda arrotam espumantes. Calma aí, Dilmão! Essas coisas merecem mais repercussão. Algo tão importante não pode ficar à sombra do Héveillon. Talvez a culpa não seja da Dilma ou da Marta Suplicy. A gente sabe de quem é a culpa, mas deixa pra lá.

O novo ano estreou com um novo salário mínimo. Nem vale à pena falar disso, já que as coisas pequenas não são importantes. O ordenado do trabalhador é uma fortuna. E quem é que se importa com fortunas? Eike Batista? Silvio Santos?  Neymar? Marta Suplicy? Ah, a Marta! Que mulher cabriocárica! Inextinguível! Top! Cult! Gente, ela é mãe do Supla! Dá pra entender?

A ideia dela, de pensar na cultura, foi óbvia demais. A ministra da cultura é ela e não eu, ou vocês. Ela é paga para criar. Por isso pariu o vale-cultura. Se a ideia pega, serão tantos vales… Aliás, já existem vales demais. Vale terno. Vale gás. Vale refeição. Vale alimentação. Vale qualquer coisa. Vale do rio doce… Perdão, essa não nos vale mais. Mas a Marta é cult! Pensou no trabalhador. Afinal, o salário mínimo, depois de pagar todos os gastos da família, vira um trôco de balas. Então ela pensou: “Já sei! Vou dar mais 50 reais por mês aos trabalhadores para que eles possam ir ao cinema ver as chanchadas nacionais! Dilmaaaa, preciso falar com você…”.

Segundo o Ministério da Cultura, este benefício será facultativo. As empresas que aderirem ao benefício terão alguma isenção fiscal e poderão descontar até 10% dos 50 reais no salário dos trabalhadores. Ou seja, depois dos descontos do INSS, vale refeição e vale transporte, ainda haverá um pequenino desconto de 5 reais no que sobrou da fortuna mensal dos trabalhadores. Que alegria, meu Deus!

A presidenta já deixou bem claro que o trabalhador poderá usar o dinheiro da forma que ele quiser. Se, por exemplo, ele achar mais conveniente comprar uma lata de leite para os filhos ao invés de levá-los ao Teatro Municipal para assistir MacBeth, poderá fazê-lo sem nenhum ressentimento. Outro dia, quem sabe, depois de acumular 6 meses, ele consiga comprar 6 ingressos para levar a família ao teatro. Afinal, não se vê Shakespeare todos os dias.

Fico aqui a imaginar os trabalhadores que moram em áreas remotas do Brasil. Mesmo que quisessem, onde poderiam consumir cultura? Que tipo de cultura? Que adianta ter acesso à cultura se a grande massa desconhece ou não tem o mínimo interesse por ela? Dar dinheiro para tal fim é incentivar o progresso cultural? Não seria mais fácil levar a cultura de graça, aos poucos, onde cinema, teatro e arte ainda são coisas de outro mundo?

Marta, Marta. Que parte você escolheu? Com 10% do seu salário milhares de pessoas fariam melhor. Pensariam mais. Interligariam mais. Seriam mais. Cá pra nós, a gente sabe que só serão 50 reais a mais no salário. A gente espera que o Santa Cruz volte à série A algum dia. A gente almeja a paz entre os povos. A gente espera até a volta de Cristo, mas certas coisas a gente não espera mais. Senhores ministros! Esses vales não valem nada. São apenas brindes surpresas que maquiam a miséria, essa indecorosa miséria que é o salário mínimo que paga nosso suado pão. 

 

Twitter @DiegoSchaun

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