A sabedoria está matando as pessoas.


“Melhor ser louco que ser sábio”, já afirmava Desidério.

Este é um trechinho de uma canção que escrevi há alguns anos atrás, chamada Metamorfose dos instintos. Na época, eu tinha acabado de ler “O elogio da loucura” de Erasmo de Roterdã, ou melhor, Desidério Erasmo. Essa obra é fantástica. Foi muito divertido aprender máximas tão coerentes como esta, que acabei usando numa canção.

Nesta semana, Desidério apareceu de novo, na coluna “Blogs do Além”, da revista CartaCapital. No falso blog, Erasmo reclamava da infelicidade. Como são infelizes aqueles que sabem demais. Como são! Saber demais, de tudo um pouco, do pouco um tudo é um tiro no escuro. Uma escolha quase santa e terrível. Quase heroica e desnecessária.

As pessoas que conhecem as coisas ou buscam esse conhecimento o dia inteiro realmente são chatas e infelizes. Eu, muitas vezes, sou chatíssimo. Às vezes não me suporto em minha lenga-lenga de definir verbetes, traçar teias de aranhas de possíveis e impossíveis correlações, só para depois o ar de “eu sei…” pairar pelo ar como uma baforada densa de um fumante denso. Intensa enquanto dura. Evidente, mesmo invisível.

Os caras que ficam indignados com um pênalti anulado se indignam menos do que os caras que ficam indignados com a complexa estética de Kant. É simples. É certo. É real e faz sentido. Outro dia me lembrei de uma discussão com um amigo sobre o que seria pecado, na visão cristã de pecado. A gente acabou concordando o seguinte: Peca menos aquele que não sabe que peca!

“Nem os santos têm ao certo a medida da maldade, e há tempos são os jovens que adoecem”. Renato Russo foi muito feliz, quando escreveu “Há tempos”. Estes jovens de hoje, como eu, são metódicos demais. Tendenciosos demais. Com opiniões demais. Com vontade de menos. Com tranquilidade de menos. Com felicidade… Que nada. Tudo isso porque o conhecimento é servido em bandejas. A gente se serve facilmente, se embriaga normalmente e se esquece repentinamente, de tudo. E depois se lembra de tudo um pouco. Somos tristes, gente.

Os boçais, que adoram assistir Roda Vida, que leem a revista Nature em inglês, que conhecem um ou dois contos do Nelson Rodrigues e afirmam com altivez que a música faliu são os mais infelizes. Eles acham que sabem demais, mas não sabem tanto assim. E pior, quando estão a sós, eles sabem que não sabem. Cruel, mas é verdade.

Assistir o Programa Pânico, degustar só dois tipos de vinho e não fazer a mínima ideia de quem foi Buddy Holly só traz felicidade, despreocupação e vida longa. Minha meta é observar mais o tempo como forma de passatempo. Não é brincadeira. Gostaria de saber menos a cada dia. Pois, essa sim, é a solução para a felicidade.

Por que saber que existiu o Mensalão? Por que saber que não existe espaço suficiente para os bandidos nas cadeias? Por que saber que os avanços com as células-tronco nunca chegarão naquele hospital de Esperantina no Piauí? Por que saber que vai faltar água daqui a 30 anos? Ou vocês acham mesmo que conhecer estas coisinhas ou outras mais complexas mudarão a realidade? Não, não mudarão.

Calma, não estou pedindo para todo mundo ficar ignorante ou lacônico quando alguém falar difícil. Não dá para jogar o conhecimento fora. Ele é importante. Nunca fundamental. Não traz felicidade, não muda a vida das pessoas, pelo contrário. Deixa-as mais tristes do que antes. Pense duas vezes antes de ouvir algum fuxico da filosofia ou algum futrico da ciência… Aff, que sono.

 

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