Não adianta ir para as ruas e votar errado ano que vem.


 

Amanhã as pessoas ligarão a TV para ouvir John Lennon cantando Imagine. Mas ele não aparecerá. Só a voz dele, fazendo fundo musical para os milhões que estavam nas ruas do Brasil. As imagens aéreas dão dimensões incríveis do que realmente é esse movimento. Daqui a vinte anos, meus filhos estudarão tudo isso e poderei falar que fiz parte, mesmo que indiretamente.

Engraçado que, na época das Diretas Já, não existia Facebook e o povo conseguiu se reunir mesmo assim. Quando Collor sofreu impeachment não havia whatsapp.  Como essas pessoas, com a ausência destas ferramentas essenciais da tecnologia, conseguiam realizar tão grandes feitos?

O povo brasileiro é muito dependente. Deve haver algum motivo para tanta revolução. Porque a corrupção existe há anos. O valor gasto na copa já está na mídia há muito tempo. Mas, por que só nesta segunda-feira última? Será que este movimento é algo sobrenatural? Governado por outras inteligências? É a natureza mostrando a sua cara? Seus tornados? Seus tsunamis? Suas passeatas?

Na revolução das Diretas Já, o povo conseguiu o direito de votar novamente. Em 1992 Collor enfiou o rabo entre as pernas e saiu à francesa. Mas e agora? Como acabar com a corrupção em frações de segundos? Ano que vem as tarifas do transporte metropolitano aumentarão novamente. E as eleições também surgirão, após a Copa do Brasil. Se o Brasil ganhar, a presidenta se reelege. Se o Brasil perder, ela se reelege do mesmo jeito.

Não adianta ir para as ruas, gritar por novos hospitais, melhoria na educação, reforma agrária, e bandidos de colarinho na cadeia. Tudo isso é vão se no próximo ano as pessoas votarem nos mesmos caras que não fizeram nada até agora. Todo esse quebra-quebra será inútil se as pessoas não aprenderem a votar.

É lindo ligar a TV à noite e ver o povo pintado, com cartazes nas mãos, enrolados na bandeira nacional. Lindo! Demorou pra chegar, mas que seja eterno enquanto dure. No próximo mês, livros serão lançados a respeito destas manifestações. Nas faculdades este é o assunto do momento. No Twitter, as principais hashtags são referentes às manifestações… Mas, quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, quais serão as conquistas de nossas multidões?

Claro que tenho que pensar assim. Tudo tem um preço. E todo esse movimento tem vários objetivos. Mas, estes objetivos, se não tivermos cuidado, não serão conquistados. É a mesma coisa que sair pelas ruas pedindo comida para os africanos famintos. Ou pedir paz para um mundo marcado por guerras há muitos milênios. A gente sabe que a proposta é válida, mas mudanças reais são quase irreais.

Pelo menos a tarifa do transporte público voltou a ser 3 reais em São Paulo. Entretanto, os mensaleiros continuam lá. Os homofóbicos continuam lá. E os claustrofóbicos continuam aqui.

Twitter @DiegoSchaun

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